08 de julho de 2026
Geral

Detento é degolado na P-II em Pirajuí

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

A rebelião, em Pirajuí, terminou ontem, após a liberação dos 160 reféns, entre homens, mulheres e crianças

Pirajuí - A rebelião desencadeada pelos 850 presos da Penitenciária II de Pirajuí terminou de forma trágica para o detento Válter de Oliveira Canuto, 41 anos, mais conhecido por Cocada, natural de São Paulo, que teve sua cabeça decepada pelos próprios colegas de presídio, no fim da tarde de domingo. Até o início da noite de ontem, a diretoria da Penitenciária II ainda não havia informado o tipo de crime cometido por Canuto e nem o tempo de pena que estava cumprindo.

De acordo com relato das pessoas que viraram reféns dos detentos, durante a rebelião, Canuto foi jogado de uma altura de aproximadamente 15 metros. Mesmo com a queda e todo ensangüentado, ele ainda teria caminhado alguns metros até ser alcançado novamente pelos detentos. A partir de então, foram desferidas, sempre segundo as testemunhas, vários golpes de estiletes, feitos com barras de ferro. Não satisfeitos com tamanha brutalidade, os agressores arrancaram-lhe a cabeça e exibiram-na como um troféu, como se estivessem vencido alguma disputa. Apesar da crueldade praticada pelos rebelados, esse foi o único incidente grave, durante as 20 horas de rebelião, divulgado pela diretoria da Penitenciária.

O motim, em Pirajuí, somente teve início quando as primeiras imagens da rebelião na Casa de Detenção, em São Paulo, foram exibidas ao vivo, no início da tarde de domingo, durante o horário de visitas. Como a maioria das celas da Penitenciária II de Pirajuí são equipadas com aparelhos de TV, a mobilização foi imediata. Enquanto as visitas se preparavam para deixar o local os agentes penitenciários foram rendidos e tornaram-se reféns, juntamente com os parentes dos detentos. Segundo estimativa feita pelo comando da Polícia Militar, cerca de 170 pessoas passaram a noite dentro das celas, na condição de reféns. Do total estimado, 160 seriam parentes e outros 10 seriam agentes. Todos foram liberados na manhã seguinte, sem ferimentos. Os primeiros a sair foram os parentes dos detentos, por volta das 11h30. Uma hora mais tarde, todos os agentes penitenciários também foram liberados. O último a sair foi o agente Gerônimo José da Silva, que confirmou a informação de que nenhuma violência foi praticada contra eles. Apenas guerra de nervos. Só isso, disse apressado, ao sair da Penitenciária.

Durante toda a noite o clima dentro da cela manteve-se calmo, segundo os reféns. Eles (os detentos) não deixaram nos faltar nada. Foram até a cozinha e trouxeram comida e leite para as crianças. O único problema é que ninguém conseguiu dormir, disse uma das reféns, que aguardava informações do marido, do lado de fora do portão do presídio. Tanto ela quanto as demais pessoas ouvidas pela reportagem não forneceram seus nomes, alegando medo de possíveis futuras represálias, por parte da diretoria da Penitenciária, contra os detentos.

Logo que amanheceu o dia, a movimentação, em frente ao portão de entrada da Penitenciária, aumentou. Porém, o clima começou a ficar tenso com a chegada da Tropa de Choque da Polícia Militar, por volta das 10 horas. Somente após a chegada do reforço policial é que as negociações começaram a avançar e resultaram na liberação dos reféns. Mas antes, como forma de intimidação e para forçar um recuo dos policiais, os detentos atearam fogo em uma pilha de colchões, logo controlado pelo Corpo de Bombeiros.

Após a liberação dos reféns, os detentos recuaram e voltaram às celas. Em seguida, os policiais realizaram a costumeira revista, quando todo tipo de arma, em poder dos rebelados, é recolhida pela PM. Dessa operação resultaram 200 armas brancas, entre estiletes, barras de ferro e pedaços de madeira, entre outras. Enquanto, a Tropa de Choque vasculhava a Penitenciária, parentes mostravam-se impacientes, do lado de fora, em busca de informações. Todo veículo que saía da Penitenciária, principalmente ambulância, era barrado por eles. E somente era liberado após ficar confirmado que nenhum preso estava sendo levado em seu interior.

Nem mesmo a entrevista dada pelo coronel Cid Monteiro de Barros foi suficiente para tranquilizá-los. Do lado de fora da Penitenciária e diante de todos, Barros garantiu que a situação estava voltando ao normal e que todas as condições colocadas pelos presos, para que voltassem às celas, haviam sido cumpridas.

Como grande parte das visitas veio da cidade de São Paulo, a chegada dos ônibus que as levariam de volta a Capital esvaziou a manifestação.