08 de julho de 2026
Geral

Indígenas de Avaí invadem Funai

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Parte dos índios reivindica a exoneração do administrador da Funai/Bauru. No entanto, caciques discordam do grupo

Avaí - Um grupo de 26 índios pertencentes às aldeias Terena e Guarani, de Avaí, voltaram ontem a pedir a exoneração do administrador da Funai, em Bauru, Rômulo Siqueira de Sá, e tomaram conta das dependência da Regional, onde permaneceram durante todo o dia e, se fosse preciso, tinham planos até mesmo de passar a noite por lá. Enquanto o atual administrador não sair daqui, nós também não sairemos, afirmou Dário Machado, índio terena, em tom pouco conciliador.

Armados com arco e flecha e com os rostos pintados, os índios chegaram à Funai logo cedo e pediram para que os funcionários deixassem o local. Como o administrador estava viajando, eles prometeram que iriam permanecer onde estavam até que Siqueira de Sá retornasse da viagem. Dentre os manifestantes, estava a índia Débora, da tribo Guarani, de apenas três meses de idade. Alheia a toda movimentação, Débora também teve seu rostinho pintado com as cores vermelha e preta, a exemplo dos demais.

Esta é a segunda vez, em menos de uma semana, que o grupo se reúne para forçar a queda do administrador da Funai, em Bauru, responsável pela manutenção das 24 aldeias espalhadas por todo o Estado de São Paulo e Rio de Janeiro. A questão principal, que segundo eles acabou motivando as manifestações, diz respeito à suposta falta de prestação de contas dos R$ 500 mil que a Funai teria recebido do Governo Federal, durante o ano de 2000.

Nós queremos saber onde foi gasto esse dinheiro. Porque não estamos vendo nenhum resultado disso, desabafou Dário Machado, da tribo Terena de Avaí, no protesto da semana passada. Na ocasião, ele disse que a função da Funai é proteger e ajudar as tribos indígenas que ainda restam no Brasil. No entanto, a realidade vivida por essas tribos, atualmente, estaria beirando o abandono. Descontentes com o trabalho desenvolvido pelo atual administrador, os índios sentem-se no direito de pedir a sua saída, uma vez que esses mesmos índios teriam apoiado a escolha de Siqueira de Sá para o comando da Regional da Funai, em Bauru, em 1997.

Caciques discordam

Enquanto um grupo de índios invadia o prédio da Funai, em Bauru, na manhã de ontem, exigindo a exoneração do administrador Rômulo Siqueira de Sá, cinco caciques de aldeias indígenas paulistas procuravam a Procuradoria da República, também em Bauru, em busca de um respaldo jurídico para pôr fim ao conflito criado entre os povos da comunidade indígena. Os caciques, ao contrário dos índios, são favoráveis à permanência do atual administrador. Não há razão para se pedir a saída do administrador.

"Eu faria a mesma coisa", diz administrador

Personagem principal de toda essa cena criada em torno da administração dos recursos destinados à causa indígena, o administrador da Funai, em Bauru, Rômulo Siqueira de Sá não tira a razão dos índios em querer uma detalhada prestação de contas de tudo o que foi feito com os R$ 500 mil, recebidos ano passado. Eu acho que é um direito, não só dos índios mas de todo cidadão brasileiro, saber o destino do dinheiro público. Eu considero louvável esse tipo de iniciativa. Com certeza, eu no lugar deles estaria fazendo a mesma coisa. Ele admite ter recebido o valor acima, mas ressalta que esse recurso não foi destinado somente às comunidades indígenas.

Entre outras finalidades, Siqueira de Sá argumentou que o montante serviu para custear também as despesas com o setor administrativo da Funai, em Bauru, e com questões fundiárias, como a demarcação de terras para a preservação do poder de auto-sustentação das aldeias. O que acontece é que, na concepção deles (dos índios que querem a saída do administrador), esse dinheiro era para ser destinado apenas ao plantio, e realmente não foi isso que aconteceu, admitiu. Segundo o administrador, a regional da Funai, em Bauru, tem hoje cerca de 25 programas em andamento. Os recursos que são destinados a Bauru são para atender 24 aldeias. Se pegarmos o montante recebido e repartir entre essas aldeias, para atender as suas necessidades - sejam elas administrativas, de saúde, educação, projetos de produção - vamos descobrir que esses recursos estão muito aquém do ideal. Mas, estamos lutando para melhorar isso, defendeu-se.

Sobre a situação das aldeias indígenas localizadas no Vale do Ribeira, considerado um dos pontos mais críticos dentro do Estado de São Paulo, Siqueira de Sá alega que ela já esteve pior. Segundo ele, assim que assumiu o comando da Funai, em Bauru, ele esteve no Vale do Ribeira. Ao chegar em Cananéia, encontrei um grupo de índios vivendo na periferia da cidade e em condições muito precárias. Com menos de um mês nós conseguimos terras para esse grupo. Eles foram assentados, relata, sem conter um ar de satisfação. Pouco tempo depois, o coordenador disse ter encontrado outro grupo, entre Cananéia e Pariquera-Açu, vivendo em um mangue.