10 de julho de 2026
Geral

Economistas: momento não é bom para investir em dólar

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Na última quarta-feira, o dólar comercial atingiu, mais uma vez, cotação inédita no ano: R$ 2,042 na compra e R$ 2,044 na venda - a pior do real desde março de 1999. Isso significou uma alta de 1,64% no dia e de 3,65% no acumulado do ano. Para quem está pensando em investir na moeda norte-americana, o economista e consultor Carlos Sette não recomenda a compra de dólares neste momento.

De acordo com ele, não se deve comprar nada quando esta mercadoria está em alta. Seria um investimento de muito risco, já que, em pouco tempo, pode haver uma queda na cotação e o investidor perderia dinheiro. Não é um bom momento para se investir em dólar porque não se compra nada que esteja em alta. Além disso, quando se trata de câmbio negro, existem muitas especulações. Basta ver que, entre todas as cotações do dólar, a mais alta é a do paralelo, superando a do comercial e a do turismo. Tradicionalmente, o dólar paralelo sempre foi considerado um investimento de risco, porque as chances do investidor perder são tão grandes quanto as de ganhar, analisa Sette.

Em relação à transposição da barreira psicológica que existia em torno dessa cotação, com o dólar ultrapassando os R$ 2,00, o economista diz que isso é normal no mundo dos negócios, porque a valorização de uma moeda em relação a outra dependeria de diversos fatores.

A valorização de uma moeda depende de muitos fatores. Se hoje ela vale o dobro em relação a outra, em outro dia pode valer 90% e, em outro ainda, poderá valer 120%, é uma questão de conjuntura de comportamento do mercado de moedas. Então, depois de superar essa barreira psicológica, temos que nos acostumar a analisar as coisas com um olhar novo, sob um paradigma novo, para entender esse mercado, diz Sette.

Questionado sobre as razões que têm feito o dólar subir, o economista cita, em primeiro lugar, os resultados da balança comercial brasileira, que tem permanecido com déficit desde o final do ano passado. Para ele, essa é uma das principais razões que têm feito o dólar se movimentar muito para cima.

Outro fator elencado por Carlos Sette é a questão do fluxo de caixa do governo. Nós sabemos que, entre este ano e o próximo, o governo vai gastar muito dinheiro para pagar compromissos assumidos, como a dívida externa. Então, na medida em que o mercado tem conhecimento disso, evidentemente o dólar sobe. Isso acontece porque é preciso enviar muitas remessas de dólar para fora do País e isso mexe com a lei da oferta e da procura. Como falta dólar no mercado, a tendência é a alta dessa moeda, analisa.

As chamadas contas externas do Brasil também são razões citadas pelo economista para justificar a alta do dólar. Segundo ele, é muito grande o montante de dinheiro do qual o País tem que dispor para quitar compromissos externos e isso também influenciaria na movimentação do mercado de moedas, resultando na alta do dólar.

Resultados benéficos

Na visão do economista, à medida em que o dólar fica em patamares mais realistas em relação ao mercado, também podem haver resultados benéficos para o Brasil, como mexer na taxa de juros internas do País para baixo. Se o dólar a R$ 2,00 é realista, é possível mexer na taxa interna de juros para baixo. Com isso, seria viabilizada a atividade econômica no País devido ao financiamento dos capitais de giro. Ou seja, não existem apenas reações negativas para o Brasil quando o dólar sobe, como ficou estigmatizado para os brasileiros. Essa situação também tem que passar a ser encarada, pela população, de uma nova maneira. Se isso é uma realidade de mercado, é preciso saber analisar os pontos positivos e os negativos da questão, afirma o economista.

Para o professor e economista Said Yusuf Abu Lawi, para quem pretende fazer um investimento, em dólar, a longo prazo - cerca de cinco anos -, a aposta pode valer a pena. Questionado sobre investimentos a curto prazo, Yusuf faz a mesma análise do colega, Carlos Sette, dizendo que não é um bom momento para isso devido ao alto risco envolvido. Contratar serviços e produtos sujeitos à variação cambial, é totalmente desaconselhável, segundo o economista.

Investir a longo prazo, que no Brasil significa cerca de cinco anos, pode dar certo. Por outro lado, investir a curto prazo, comprando dólar agora pensando que em 2001 a rentabilidade será boa, eu não aconselho. É muito arriscado, porque o dólar ainda pode cair. O que eu desaconselho totalmente é contratar algo baseado na variação cambial, porque não é possível imaginar o que vai acontecer nem a longo, nem a curto prazo, analisa.