Gritos de protesto marcaram o cenário do prédio da Fundação Nacional do Índio (Funai), ontem pela manhã. Representantes da comunidade indígena de Avaí reivindicam a substituição do administrador da fundação, Rômulo Siqueira de Sá, acusando-o de irregularidades administrativas.
Há três dias a sede da Funai em Bauru está ocupada pelos índios, numa atitude de protesto. De acordo com Anildo Lulu, um dos representantes da comunidade indígena, há uma insatisfação em relação ao desempenho do administrador da Funai em Bauru. Nós estamos reivindicando a saída do Rômulo. Nós não queremos ele; estamos descontentes com a administração dele. Muitas providências não são tomadas.
Os manifestantes alegam que alguns documentos que comprovariam as supostas irregularidades na administração foram retirados do escritório da Funai e desapareceram. Nós temos documentos de acusação contra eles; temos provas, denúncias. Quando nos manifestamos, eles imediatamente recolheram esses materiais e documentos de acusação, que desapareceram. Se ele está certo, deve deixar os documentos no lugar, reclama Anildo.
Ele acrescenta que uma das reivindicações refere-se às promessas feitas por Sá, quando tomou posse do cargo que ocupa hoje. Muitas áreas estão precisando de recurso. Quando ele entrou na administração, ele disse que buscaria recursos em outros lugares. Isso não foi colocado em prática. As nossas associações estão todas bagunçadas.
As acusações não param por aqui. Os descontentes consideram um desperdício o dinheiro que é pago pelo aluguel da sede da Funai. Além disso, afirmam que algumas aldeias não são visitadas pelos funcionários da fundação e estariam em situação de abandono. As aldeias estão abandonadas. Os funcionários não vão até lá. Tem aldeia que é desconhecida da Funai. Ninguém orienta nem ajuda os índios desses lugares.
No entanto, uma parte da comunidade indígena não apóia os protestos que estão sendo realizados contra Sá.
João Gilberto da Silva Nogueira, que é assessor do diretor de assistência da Funai em Brasília, esteve, ontem, em Bauru, com o objetivo comunicar o procedimento que está sendo adotado pela fundação. Eu fui designado pelo presidente da Funai para vir a Bauru e comunicar a estes índios que estão ocupando a fundação que os encaminhamentos administrativos já foram adotados. A Funai já designou comissão de sindicância para apurar os fatos. Se houver algum indício de irregularidade, essa comissão tem autonomia de pedir o afastamento do servidor.
Uma reunião na Procuradoria da República foi pedida pela presidência da Funai. A finalidade seria propor uma negociação pacífica. No entanto, ela não aconteceu por problemas referentes a horário, de acordo com o assessor.
Nogueira considera que seria uma imprudência tomar qualquer medida antes da comprovação ou não das supostas irregularidades. Não tem como você culpar alguém antes de que se apure os fatos. O presidente não pode tomar medidas arbitrárias antes de apurar o que aconteceu. Eu fui lá no intento de que eles desocupassem o prédio tranqüilamente, sem que houvesse ação judicial para isso. É um prédio público, em que a gente tem que restabelecer a ordem das coisas.
Os manifestantes não aceitaram a argumentação de Nogueira, tomando atitudes para que ele saísse do local.
Anildo afirma o prédio da Funai será desocupado assim que o diretor Sá for exonerado do cargo. Não vamos sair daqui até que ele saia do cargo. Para nós, não vai haver Carnaval. Nós estamos em ritmo de guerra e vamos permanecer aqui.
De acordo com Nogueira, medidas mais enérgicas devem ser tomadas a partir de agora. É um fato que até nos obriga a tomar medidas que não são hábito da Funai. É um prédio público e a gente tem que reaver. Para isso, vamos entrar com solicitação de uma medida judicial de reintegração de posse.