A psicóloga com aperfeiçoamento em avaliação psicológica e examinadora na área de trânsito, Marta Alice Nelli Bahia, defende que a psicologia aplicada ao trânsito seja uma constante e voltada para diversas áreas, muito além da realização dos exames psicotécnicos
O trânsito está inserido dentro de um contexto social cuja problemática deveria ser vista pelo âmbito interdisciplinar. Essa é a opinião da psicóloga Marta Alice Nelli Bahia, especializada na área de trânsito. De acordo com ela, são vários aspectos, ciências e profissões que podem estar levantando pontos para a melhora da qualidade da vida no trânsito.
No Brasil, segundo Marta, ainda não há essa visão interdisciplinar. As pessoas leigas não conseguem enxergar a psicologia fora do contexto de avaliação psicológica.
A proposta do governo é de trabalhar a educação e a prevenção no trânsito. Dessa forma, a psicologia pode estar colaborando em muitos outros projetos, juntamente com o governo, como a realização de terapias voltadas para o trânsito. Esta nova visão está de acordo também com o trabalho do professor titular de Psicologia de Trânsito da Universidade de São Paulo (USP), Reinier Johannes Antonius Rozestraten, cujas idéias Marta segue e admira.
Nas terapias poderiam ser trabalhadas as dificuldades e os problemas que levaram a pessoa a se envolver em acidentes e as dificuldades ao tirar a carteira de habilitação, comenta.
Em Bauru existem, de acordo com Marta, vários profissionais que já estão preparados e realizam as terapias voltadas para o trânsito. A terapia procura sempre voltar para o objetivo trânsito. Procura evidenciar qual o papel da pessoa no trânsito, afirma.
Educação
A psicologia pode também estar desenvolvendo projetos de educação para o trânsito. Desde a infância, até a vida adulta a psicologia pode auxiliar na formação de uma base de cidadania, construindo valores como o respeito e a dignidade nos meninos e meninas que serão os futuros motoristas.
O objetivo é formar os futuros cidadãos voltados para a educação no sentido de respeitar as normas e regras que já existem, comenta Marta. A psicóloga desenvolve projetos do tipo, em parcerias com escolas da rede estadual e municipal. Na aplicação do projeto os professores são orientados a estar introduzindo a problemática do trânsito nos temas das aulas.
Na rede municipal, o trânsito é abordado na formato de teatro de fantoches. Marta faz, ainda, a distribuição de cartilhas para jovens de 17 a 18 anos, nas quais são mostrados os objetivos da avaliação psicológica e médica dentro da temática do trânsito. Nós procuramos orientar os jovens para que eles adquiram uma maior consciência no momento de tirar a carteira de habilitação, uma vez que a maior parte dos acidentes acontece com condutores da faixa etária de 17 a 25 anos, comenta. A maior incidência dos acidentes entre os jovens tem a ver com a personalidade do momento, baseada na impulsividade e na aventura, segundo a psicóloga.
Pesquisa e projetos
Por ocasião de sua especialização em psicossomática, Marta Alice desenvolveu uma pesquisa na qual procurou evidenciar quais os fatores emocionais que levam às pessoas apresentarem um desempenho alterado no momento da aplicação do psicotécnico.
Como resultado, foi detectado que existe um grau bastante elevado de ansiedade em função da aplicação dos testes configurar uma situação nova. Outra conclusão foi que as mulheres têm muito mais facilidade que os homens para expor o sentimento de ansiedade. A procura da mulher para resolver esses sentimentos é muito maior que do homem, até por uma questão cultural. O homem não aceita, muitas vezes, ser encaminhado para uma terapia, por exemplo, comenta Marta. O homem não aceita mostrar os sentimentos, que no momento, podem ser negativos e revelar sua fragilidade.
Marta está desenvolvendo, desde o ano passado, um projeto em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), que pretende concluir este ano. O projeto tem por objetivo levantar algumas características da avaliação psicológica que possam influenciar no resultado do teste que mostra características da personalidade da pessoa, que é o teste PMK, exigido pelo Detran.
Marta vê o carro como utilidade
Em função de ser uma profissional com agenda lotada durante o dia, Marta Alice, não se imagina sem carro. O carro é de uma utilidade muito grande e, sem ele, ficaria difícil assumir todos os compromissos que eu tenho, comenta Marta Alice, que possui um Corsa Super 1.0, na cor preta.
Marta trabalha na parte de avaliação psicológica para o trânsito, leciona no Senac e no Senai de Agudos sobre relacionamento interpessoal voltado para o trânsito, é coordenadora da comissão de trânsito e de avaliação psicológica da sub sede de Bauru do Conselho Regional de Psicologia (CRP) e leciona na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde ministra aulas de prevenção para o curso de capacitação e perito examinador em avaliação psicológica para o trânsito.
Em função de tudo isso que eu faço o carro é muito útil porque proporciona o ir e vir em tempo hábil, comenta.
Marta pensa que, por estar diretamente ligada à área de trânsito, trabalhando com a prevenção, necessita ser um modelo na condução do seu veículo. Eu sempre prego que não adianta eu dizer coisas e não fazer essas coisas. De que adiantaria eu estar trabalhando com a questão da prevenção, querer pregar educação se eu também não pratico, comenta. Marta afirmou estar sempre se policiando e se perguntando sobre como está procedendo no trânsito.
Periodicidade do psicotécnico
A avaliação psicológica somente na primeira habilitação não é suficiente, afirma Marta
O exame psicotécnico, depois da publicação do novo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) passou a ser solicitado pelo Detran na ocasião da primeira habilitação, em mudanças de categorias, para condutores de veículos escolares e nos cursos de formação de instrutor e diretor de auto-escolas.
De acordo com Marta, a obrigatoriedade para que avaliação psicológica aconteça somente na primeira habilitação não é suficiente. Nós, psicólogos, pensamos que haveria a necessidade de se fazer uma reavaliação de cinco em cinco anos, como determinava o antigo código de trânsito. Nós não temos mais como realizar o acompanhamento periódico de como estão psicologicamente os motoristas para estarem no trânsito, comenta.
A avaliação psicológica tem com função principal levantar aspectos relacionados à pessoa, no que se baseia comportamento humano direcionado ao trânsito. Existem alguns testes determinados pelo Detran que são utilizados para levantar esses aspectos e determinar se uma pessoa está apta ou não para dirigir, sempre buscando a prevenção em relação ao comportamento da pessoa no trânsito. Nós avaliamos a atenção, a concentração, as características da personalidade que podem levar às pessoas a apresentarem comportamentos agressivos ou inadequados no trânsito e o raciocínio, explica Marta.
No dia da realização do teste, se a pessoas se encontra demasiadamente ansiosa ou passando por um momento difícil em sua vida, tudo é considerado na aplicação do teste. Nós avaliamos o momento da pessoa, sempre com a preocupação de não rotular. Como o momento é de ansiedade, a avaliação será alterada e nós pedimos para que a pessoa retorne num outro momento para realizar os testes, comenta.
Normalmente, a avaliação psicológica, por estar levantado aspectos emocionais da pessoa, mostra o estado em que a pessoa se encontra no momento. Alguns fatores podem influenciar no resultado da avaliação.
Se a pessoas estiverem sobre a influência de álcool e outras drogas ou passando por estresse, e se for detectado na avaliação, procura-se dar um espaço de tempo para que a pessoa possa resolver os conflitos ou, se necessário, a pessoa será encaminhada para algum atendimento especializado, como terapias e até médicos. Já houve um caso de alteração no desempenho porque a pessoa estava passando por um problema de hipertensão, que é um caso médico, comenta.
Nós encaminhamos para que as pessoas possam rever o que está ocorrendo no momento com elas, para que possam retornar, depois de um tempo, fazendo uma nova avaliação. O caso nunca é inapto definitivo. Cada caso é um caso, explica Marta.