07 de julho de 2026
Geral

País do Carnaval

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

No Brasil, corrupção tem muitos nomes, codinomes ou apelidos como negociata, fraude, maracutaia. Começa pela variável corrução. O povo no Nordeste adora chamar político de corruto. No litoral paulista, os pescadores caçam um bichinho que vive enterrado na areia da praia para servir como isca. Chamam o artrópode de corrupto, justamente por viver à socapa e o fato de ser difícil extraí-lo do seu meio ambiente. Somente com uma bomba de sucção manual a lacraia é retirada da toca. Parece que esse problema de corrupção vem de tempos ancestrais. Seria um conteúdo arquétipo a contaminar a nossa carga genética ao longo de 500 anos. Os portugueses conquistadores padeciam do vício de botar a mão no dinheiro público, ou de se deixar corromper. Nos Lusíadas, VIII, 53, Camões chama de peita a propina dada ao agente público, ou exigida por ele para vender facilidades em vez de criar dificuldades. Com peitas, ouro e dádivas secretas/ Conciliam da terra os principais, versava o bardo como a criticar a gatunagem entre aqueles que teriam a responsabilidade principal de cuidar do erário com parcimônia e idoneidade. A corrupção se institucionalizou de tal forma em nosso País que muitos anos ainda vão se passar até que não se ouçam mais com tanta freqüência os estrépitos dos escândalos por assaltos à coisa pública. Desde a Constituição de 1988 o Brasil aguarda a reforma e modernização do sistema partidário representativo que possa dar ênfase à ética na política. Sem moralização na política e na administração, continuaremos a ser apenas um lugar onde, uma vez por ano realiza-se uma grande festa com mulheres nuas desfilando em público: o País do Carnaval. É o que nos resta. Sequer País do futebol somos mais. Luxemburgo acabou de enterrar uma das nossas mais caras e gloriosas tradições. De nada valerão os esforços já realizados nos dois governos de FHC para a estabilização econômica, se nunca formos capazes de demonstrar que o País é sério e merece a credibilidade do resto do mundo. Haverá um dia que bastará dizer: aqui não tem vaca louca e ninguém ousará duvidar. Esse nível de excelência fica cada vez mais distante. É típico das organizações corporativas só punir os desvios praticados por seus membros, quando a divulgação dos fatos delituosos é de tal magnitude que ameaça seriamente a sua imagem pública. Os anões do Congresso, durante anos saquearam o Orçamento da União à vista de todos que nada diziam, porque também se locupletavam. Foi preciso que um funcionário devasso e corrompido vitimasse a própria esposa numa simulação de seqüestro, para que todas as falcatruas viessem a público. Os deputados implicados perderam seus mandatos mas continuam gozando em liberdade do status de milionários.

Agora mesmo, fala-se repetidamente em perda de mandato para um deputado, por uma série de ações por ele praticadas como presidente do Vasco. Embora tais ações extrapolem os limites das disputas desportivas, o fato é que o assunto somente veio à tona em função dos holofotes da televisão, em briga com o famoso cartola. O perigo mais iminente é um Toninho Malvadeza estomagado pela derrota sofrida frente ao maior inimigo. Não sabemos se, depois das acusações mútuas divulgadas nestes últimos dias, em função da renovação dos cargos das mesas diretoras do Senado e da Câmara Federal, o Congresso insistirá na tentativa de cassar um mandato (ou alguns deles) em conseqüên-cia de atitudes anti-éticas. Um senador de 60 milhões de reais ataca outro de 30 milhões de reais, fortunas amealhadas na penumbra. O que vai acontecer daqui para frente depende muito mais da reação da sociedade, antes que o PCC - Primeiro Comando da Capital - torne-se o partido hegemônico em Pindorama.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC