09 de julho de 2026
Geral

Aeroclube é novo patrimônio histórico

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 5 min

Decisão foi tomada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de forma unânime; oficialização depende de decreto

O conjunto de edificações do Aeroclube de Bauru é o mais novo patrimônio histórico municipal. A decisão foi tomada, na tarde de quinta-feira passada, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac). Todos os 12 conselheiros do órgão votaram pelo tombamento, acompanhando o parecer do historiador Gabriel Ruiz Pelegrina.

De acordo com o parecer, o surgimento do Aeroclube de Bauru contribuiu para o desenvolvimento da cidade e para a divulgação do nome do município pelo País e pelo mundo, uma vez que o clube sempre foi considerado o maior e melhor aparelhado do Brasil na área de aviação comercial e a vela.

O Aeroclube de Bauru foi pólo de atração para a cidade, motivando seu desenvolvimento. Historicamente, foi um dos primeiros aeroportos do Interior do País. O conjunto de edificações também têm arquitetura ímpar, projetada pelos engenheiros da Noroeste do Brasil, salienta o arquiteto Nilson Ghirardello, presidente do Codepac e professor de História da Arquitetura do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Inaugurado no final da década de 30, o Aeroclube teve seu processo de estudos para tombamento iniciado a partir de pedidos dos próprios 170 associados. Estamos preocupados com a preservação das edificações do Aeroclube, que faz parte da história da cidade, afirma Edson Mitsuya, administrador do clube.

Embora o Aeroclube conte com a contribuição mensal de seus associados, o que o mantém é a renda obtida através do aluguel da área para terceiros. Por serem órgãos oficiais, o Departamento de Aviação do Estado de São Paulo (Daesp) e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) são isentos de pagamento.

Recentemente, a Infraero restaurou a torre do Aeroclube, mas o hangar e outros edifícios também necessitam de reforma. Gostaríamos de firmar parceria com a iniciativa privada para recuperar alguns locais que foram desgastados pelo tempo, diz Mitsuya.

Parte da estrutura, no entanto, não poderá ser recuperada da maneira ideal. É que não existe mais mão-de-obra qualificada para executar o mesmo serviço realizado na época da construção do Aeroclube, explica o administrador. Foram utilizadas técnicas muito modernas, admite o arquiteto Ghirardello.

Com o tombamento, qualquer intervenção no local agora precisa passar pelo Codepac, já que as edificações não podem ser descaracterizadas. Algumas áreas já sofreram intervenções, mas acredito ser possível retomar as características iniciais, afirma Ghirardello.

O tombamento inibirá, ainda, a especulação imobiliária. Por estar localizado em área valorizada e em bairro que sofrerá em breve novo boom de desenvolvimento com a possível construção do novo Shopping do Grupo Savoy, o Aeroclube poderia sofrer constantes assédios da iniciativa privada.

Agora, como patrimônio histórico municipal, a Prefeitura passa a ter preferência caso o Aeroclube seja colocado à venda. Se for vendido à iniciativa privada, a nova destinação deverá manter as características das edificações, que não poderão mais ser demolidas.

Fundação foi em 1939

A fundação do Aeroclube de Bauru foi realizada em 8 de abril de 1939, em um estabelecimento da rua 1.º de Agosto. A escolha do presidente, o major Marinho Lutz, foi por aclamação.

O motivo da escolha unânime se deve ao fato de que a persistência de Lutz, então diretor da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), é que resultou na construção das edificações do Aeroclube.

Sua história em Bauru se confunde com a do Aeroclube, afirma o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, membro do Codepac e autor do parecer que fundamentou a decisão de tombamento do Aeroclube como patrimônio cultural da cidade.

Lutz chegou a Bauru em 1937, após ter sido nomeado pelo presidente Getúlio Vargas para assumir a direção da NOB. Militar conceituado, era considerado pessoa dinâmica e de visão progressista, de acordo com estudos realizados por Pelegrina.

Foi o major o responsável pela instalação do serviço de rádiotelegrafista na NOB e pela construção da ponte sobre o rio Paraguai, permitindo o prolongamento da ferrovia até Corumbá (MS).

No mesmo período, adquiriu um avião, com o qual pousava no campo de aviação de Bauru, inaugurado em 1932 em terrenos localizados no altos da Vila Cardia.

O campo de aviação, no entanto, não atendia as exigências das grandes companhias aéreas, caso da Panair do Brasil e do Sindicato Condor, razão pela qual Lutz e o prefeito João Bráulio Ferraz iniciaram as negociações para que o Município adquirisse uma extensa gleba de terra (16 hectares) na região sul da cidade.

A aquisição foi lavrada em 4 de setembro de 1939, época que coincide com o lançamento da Campanha Nacional de Aviação, por ordem de Getúlio Vargas.

A campanha constituía-se pela construção de aeroportos, fundação de escolas de pilotos e aeroclubes e na doação, por empresas ou empresários, de aviões de treinamento e destinados aos aeroclubes. O motivo desse empenho governamental era a 2.ª Guerra Mundial, que assolava a Europa e refletia-se em bombas disparadas pelos países do Eixo contra navios e submarinos brasileiros.

Em Bauru, os ferroviários da NOB contribuíram com um dia de serviço para a compra de um avião, que foi destinado ao Maranhão. Mas a cidade também foi contemplada com a campanha, que resultou na construção de um hangar para o Aeroporto Municipal.

O local passou a ser utilizado pelos sócios e alunos do Aeroclube de Bauru, que em 1941 formou a sua primeira turma de aviadores. A formatura teve a participação do então ministro da Aeronáutica, Salgado Filho.

Desde o início, as dependências do Aeroclube e da escola de pilotos sempre foram consideradas as melhores e mais bem equipadas do País. As obras do local foram concluídas em 1943. Depois disso, foi criado o curso de vôo a vela, dirigido por Hendrick Kurt, que projetava e construía os aeroplanos.

O major Marinho Lutz ficou à frente da direção do Aeroclube até 1946, não sem antes de inaugurar um curso de aeromodelismo, que tinha como objetivo despertar as crianças para as atividades aviatórias.