08 de julho de 2026
Geral

DE ZÍPERES E A CONTUNDENTE REALIDADE

Hesso A. Maciel
| Tempo de leitura: 2 min

Por que será que os olhos sempre convergem para as braguilhas? Apenas na parte da manhã quatro pessoas me avisaram: Sua braguilha está aberta, desde a vizinha a um desconhecido. Como explicar que todas minhas calças estão de zíperes quebrados, passadores soltos, bainhas rasgadas, isso desde que perdi minha mãe e sua diligente inspeção de roupas. E não tenho mulher, filha, irmã, empregada (maravilhosas criaturas que sustentam o mundo) e nem mesmo sobra dinheiro para pagar costureiras. É que estou sexagenário, solitário e sofrendo já as indignidades da idade, tais como: vista fraca, anemia, depressão, ansiedade, neuroses várias, pressão baixa, pânico, desencanto, desesperança e desconfortos vários. A velhice é uma indignidade. E não adianta a mídia e as letras tentarem disfarçar essa contundente realidade.

O ser humano (e outras espécies) tem muito pouco tempo de botão e de flor e um tempo enorme para a decadência. E não adiantam plásticas, status social, cargos políticos, militares e eclesiásticos. A velhice assola e desola a todos os sobreviventes. E sem essa de argumentar da sabedoria que a idade traz. A maioria é a mesma ignorante de sempre, só que, velha!

É claro que existem exceções: velhos magníficos fazendo coisas magníficas, acima dos limites do corpo. Exceções raríssimas, a maioria é medíocre, e tem um monte de gente fingindo que são exceções e nesse esforço enchendo o saco das gentes. Eles precisam encher, cotucar, complicar pra que sejam notados e que possam mostrar eu não estou velho! Mas estão. E pior, do tipo velho terrível, aquele que envelhece os outros.

Lastimável inutilidade, como a desse político que expôs publicamente seu câncer e sua batalha inútil, perturbando as gentes que preferem ver os peitos da Feiticeira e os bíceps dos Gêmeos. Ninguém quer saber de doença e velhice alheias. Tenho pena dos velhinhos tristes que se entregaram à desilusão químico-orgânica. Me enternece a velhinha doce que se contenta apenas em rolar nas mãos seu dedal, já tão velhinho também.

Tudo pior nestas épocas bicudas de fim dos tempos em que mesmo os jovens passam por mazelas dos velhos. O jovem ainda detém o poder do eixo do mundo, o sexo, que gira cada vez mais fraco, enlouquecido, impotente, parceiro da morte. Uma lástima que os velhos não percebam como é bom estar um pouco livre do aguilhão sexual, um pouco, porque essa força continua atuando no pobre corpo sem atrativos. O drama de se continuar sentindo atração, mas não atrair mais. Dinheiro à parte, é claro. Esse, um dos maiores castigos para quem viveu dependurado no tal eixo, e não há maquilagem, comprimidos ou plástica que resolva. Restaria então o quê? A vida mental que os bem-amados do Universo preservam em meio à multidão de enlouquecidos. A vida mental cuja orientação deve ser de imediato remetida a Deus, única solução para o impasse desse zíper quebrado.

É, eu falava em zíperes e acabei falando em velhice. Ah! a velhice, esse zíper que alguns ainda mantêm intacto. (Hesso A. Maciel - RG: 4.161.922)