08 de julho de 2026
Geral

E as cinzas estão aí...

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Quarta-feira de cinzas amanhece... Nas cidades há um silêncio que até parece... Que o próprio mundo se despovoou... Um toque de clarim, além, distante... Vai lembrando num tom agonizante.... Os restos do Carnaval que já passou...!

Quem cantava assim, com voz tão tristonha, quando percebia que o Carnaval começava a se perder no horizonte do tempo e se transformava nas cinzas evangelicamente bíblicas e nos suspiros irreversíveis do povo? Muitos carnavalescos ou não de outros tempos bem que o sabem e recordam emotivamente. Era o grande Francisco Alves, cantor fiel dos suspiros populares, que um acidente rodoviário silenciou um dia, sua garganta privilegiada, ao subtraí-lo definitivamente do agradável convívio dos contemporâneos. O artista aureolava sua bela e possante voz com bemóis emocionantes e saía por aí encantando os ouvintes através do disco e do rádio, que era o que havia na época, quando a Televisão ainda não tinha encontrado um berço técnico para vir à luz. Então, o Rei Momo morria aos primeiros albores da quarta-feira cinzenta, ocasião em que silenciava, de forma total, em sua grande manhã de despedida, com os blocos e carros alegóricos sendo recolhidos aos clubes... E os foliões demandavam às suas residências quando o sol começava a lançar seus raios às paisagens citadinas...

Já seria tempo, agora, nesta terça-feira, de se repetir, aí pelas modernas quebradas, a bonita estrofe do saudoso Chico Viola, que encantou os corações de tanta gente deste Brasil romântico, deste Brasil, que a fome pouco entristece? Não, realmente não, porque os tempos mudaram e temos pela frente uma quarta-feira de cinzas paradoxalmente operante, já não dando a impressão de que o mundo se despovoou. Agora, tem o povo, ou quem pode, na alma e no pensamento, mais um dia e algumas horas para curtir a folia das ruas e avenidas que se prolonga sob os raios solares quartafeirinos, inclusive mantendo abarrotadas as arquibancadas públicas e respectivas passarelas, bem como para extasiar os olhos e mexer com os corações através da beleza e do exotismo das fantasias dos carnavalescos, dos blocos e dos carros alegóricos, tudo de uma notabilidade extraordinária, como se observa ao vivo ou através da Televisão, prova evidente do muito que o Carnaval popular evoluiu, principalmente nos grandes centros, adotando, inclusive, a prática da roupa sumária, notadamente feminina, à qual se inclui também o extremo do nudismo ou quase. Então, espetáculos assim não podem cerrar suas portas antes de esgotada a hora que a lei lhe defere. E por isso, não cerram... É a nossa opinião.

(*) N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).