08 de julho de 2026
Geral

Azulão investe em quesitos técnicos

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 4 min

Escola volta a acertar no Sambódromo e mostra a união da comunidade do Jaraguá

Escola com um forte sentido de comunidade, a Azulão do Morro trabalha para ser um novo cartão de visitas do Parque Jaraguá, bairro que até o surgimento da escola era mais conhecidos por seus problemas sociais. Se a violência é o vírus, o antídoto é o samba. Pelo menos nos quatro dias de Carnaval e os meses que o antecedem, quando a carismática Cidinha cede sua casa para a escola.

O envolvimento mostrou resultado este ano. Com alguma sofisticação e muito samba no pé, a escola fez um desfile técnico e animado. Quesitos que valem ponto, ganharam atenção especial. Não faço do Carnaval meio de vida, afirma Cidinha, perguntada sobre como tinha conseguido por uma escola bonita na avenida, mesmo sem estrutura, como barracão, e com pouco dinheiro.

No terceiro dia de desfile, a escola veio bem descontraída e com os ritmistas descendo a mão na batida funk, pequena ousadia da escola este ano.

A comissão de frente esteve concentrada e luxuosa, as alas bem distribuídas e coloridas, os destaques com a sofisticação habitual e mestre-sala e porta-bandeira levantaram o público, recebendo aplausos. Assim como o simpático Rei Momo, Jario.

Fechando o desfile, uma boa quantidade de baianas, giraram harmônicas com seus figurinos branco e prata. O último carro também agradou, com um globo que girava sozinho.

Funk: mocinho ou vilão?

O funk pancadão, mania do Carnaval 2001, compareceu nos desfiles de Bauru pelas mãos pesadas dos ritmistas da Azulão do Morro. A pequena ousadia da escola do bairro Jaraguá alternou papel de mocinho e vilão. Ora, embalou, ora, prejudicou. O samba atravessou em alguns momentos, mas é o preço. Mais radical seria caso fosse uma outra batida. Imagino uma catira, um cururu, um vaneirão, um rasqueado. Estamos no Interior de São Paulo, mas é difícil lembrar disso no Sambódromo.

Um detelhe a ser lembrado, o samba não é carioca. Interessados no samba em Bauru deviam ler O Mistério do Samba, do antropólogo Hermano Vianna. O livro desmistifica o samba, mostra como ele foi criado junto com a identidade nacional. Sofreu um impulso violento do populismo e virou uma tradição inventada. Quem não quiser ler, vai por mim, não é carioca, nem baiano. Isso mesmo, estamos livres.

O funk já andou aparecendo no Carnaval carioca. Vem dos morros de lá e nem é um funk propriamente dito - neste caso, seria bom lembrar James Brown, George Clinton e Sly Stone. De qualquer forma, misturas e confusões devem ser estimuladas é na esfera da cultura brasileira. E daí que nasce o novo. Não é à toa que tradição e estagnação rimam.

Escola comemora em clima de festa

Texto: Ricardo Polettini

É a Cidinha! É a Cidinha!. Abraços e beijos na presidente da Azulão do Morro deram o tom da dispersão logo após o desfile da escola na noite de segunda. Cidinha mal conseguia falar, pois era cercada pelos integrantes a todo momento, querendo cumprimentá-la.

Para ela, a passagem da escola foi perfeita. O clima contagiou todos os componentes, que continuaram tocando e cantando o samba-enredo mesmo depois dos portões fechados.

Um outro motivo para toda essa festa era o aniversário do Rei Momo - da escola e do Carnaval bauruense -, Jario Marques de Souza, que comemora seus 40 anos hoje. A bateria e os puxadores emendaram ao samba um sonoro Parabéns a Você na seqüência. Jario vibrou.

Na opinião do Rei Momo, o desfile da Azulão foi melhor que na primeira noite. Para ele, isso acontece sempre no segundo dia de desfile, pois as escolas consertam seus erros e entram na avenida menos preocupadas. Se alguma escola sair pior que no primeiro dia é sem-vergonhice, declarou.

Na concentração, Cidinha se torna rainha da escola

Texto: Daniela Bochembuzo

A razão de Cidinha Caleda estar a tantos anos a frente da escola de samba Azulão do Morro, inclusive quando esta era bloco da categoria originalidade e depois, da categoria especial, podia ser sentida na concentração.

Alternando papéis de mãe, amiga e líder comunitária, ela recebe abraços, retribui sorrisos e aconselha. Contagia deixando-se ficar no meio da roda formada pela comissão de frente, enquanto gira com o estandarte da Azulão do Morro.

Antes de assumir por completo o posto de porta-bandeira, Cidinha vai ao microfone e expõe sua verve política. Vamos agora para a avenida desfilar e mostrar que o Parque Jaraguá não é tão ruim quanto as pessoas falam. Vamos agitar a arquibancada, mostrar que no Jaraguá mora gente de bem, discursa.

Ao discurso, os integrantes respondem com urras, gritos alegres e batidas intermitentes nos instrumentos de percussão. A escola está pronta, cheia de coragem e animada para enfrentar o Sambódromo. Feliz, Cidinha começa a rodar. A rainha da garra está pronta para desfilar. Não passará incólume.