10 de julho de 2026
Geral

Buscamos o futuro ou o tempo do Caré?

(*) B. Requena
| Tempo de leitura: 4 min

Nosso Carnaval passou e há uma interrogação enorme como uma nuvem pairando sobre a cidade. Há, também, muitas outras interrogações menores, referentes ao mesmo tema, circulando por aí. Há opiniões inteligentes (infelizmente raras) e um turbilhão de incoerências traduzidas em cobranças. E neste momento, quanto mais eloqüente, insistente, a cobrança, maior o risco de seu autor estar incorrendo em um crasso contra-senso.

Não creio que haja neste instante um só bauruense que tenha todas as respostas para os mistérios que envolvem o nosso Carnaval. Inicialmente, observa-se em nossa cidade o fim dos bailes carnavalescos no Esporte Clube Noroeste (Panela de Pressão), no Clube Cultural Nipo-Brasileiro, no antigo Clube dos Bancários (atual Clube das Nações), no BAC - Bauru Atlético Clube - e no Bauru Country Club. Algumas casas noturnas (boates, cervejaria) que passaram a promover a festa não cobrem nem de longe a fuga do público. Inicialmente, imaginava eu que o excessivo proselitismo evangélico, difundido através de várias emissoras de televisão e rádio, com o aumento simultâneo de templos e a campanha panfletária realizada por seus integrantes nos bailes e na avenida, tudo isto de maneira crescente de uma década para cá, fossem os responsáveis por esse raquitismo por que passa o Carnaval. Mas a tese não se sustenta quando vemos que não só o Carnaval foi cancelado nesses locais, mas também as piscinas, o ano todo, certas práticas esportivas e bailes não-carnavalescos. Em síntese, aí estão vários clubes que não só desativam atividades, mas a diretoria desativa o próprio clube. Seriam as precárias condições econômicas da população responsáveis por esse fenômeno? Pode ser, mas acho estranho o sacrifício de apenas um item de lazer, quando sabemos que, mesmo a duras penas, a comunidade, com dinheiro ou sem dinheiro, sustenta outros.

Há vários anos que não só o atual prefeito, mas também os anteriores, suportam pressões para não conceder verba para as escolas de samba, através de sua liga, a Lesec. A argumentação vem de algumas lideranças religiosas ou de algumas pessoas que simplesmente não gostam de Carnaval. Outros alegam ser incoerente financiar o Carnaval quando se constata o sofrimento da população, castigada por fenômenos naturais, o desemprego etc. Mas a tese contrária não seria a mais sólida, isto é, de que povo feliz não precisa de tanto divertimento e quanto maiores os problemas aí é que o Carnaval se justifica? Além do mais, todos sabemos que se existem pessoas que pagam seus impostos mas não gostam de Carnaval, a grande maioria também paga e gosta.

Mas é claro que o atual chefe do Executivo, Nilson Costa, com o grande peso da responsabilidade que tem sobre os ombros, quer que os bauruenses, inclusive os que não dispõem dos mínimos recursos, também tenham o Carnaval caso gostem. Daí todo o seu esforço para garantir isto. Mas também, independente das pressões acima citadas, zela pelo dinheiro público e quer que o nosso Carnaval de rua caminhe com as próprias pernas. Daí seu trabalho junto à Lesec e aos presidentes das escolas de samba, para os quais mantém as portas abertas e tem realizado todas as reuniões necessárias, sempre junto ao diligente secretário de Cultura, Sérgio Losnak. Neste ano, confiar o trabalho à Equipe 1, comandada pelo Padilha, foi um avanço. É fácil constatar que a empresa entende de organização, fez um trabalho nota 10, mas o povo precisa compreender que para que isto ocorra alguns pequenos e antigos costumes devem ser esquecidos. Quanto ao prefeito, secretário, Lesec, é preciso entender que estão realizando experiências buscando o melhor para as escolas, o público e as finanças públicas. E esse laboratório só pode ser realizado durante o próprio Carnaval. É bom lembrar que só quem faz corre o risco de acertar ou errar. Por isso não se deve lamentar os tropeços ocorridos. A busca pelo melhor vai continuar.

Acredito que Prefeitura, Lesec, blocos e escolas de samba estejam fazendo a sua parte. Será que não há vários setores se omitindo, principalmente no aspecto financeiro? As cobranças são muitas, mas as contribuições... Como disse no início deste artigo, ninguém em Bauru sabe tudo sobre o que está ocorrendo com o nosso Carnaval. Nem eu aqui pretendo dizer que sei. O que não pode é certas pessoas virem a público com cobranças e comentários maldosos e sem a mínima coerência ou humildade. Nos anos 60, na rua Batista de Carvalho ou na av. Rodrigues Alves, em meio a uma tempestade de confete, serpentina, lança-perfume, bisnagas dágua, sangue-do-diabo, Caré desfilava com suas cabrochas. Ele segurava então quase sozinho (mas palmas, também, para Pedro de Campos, Maria Jaú e outros!) nosso pequeno Carnaval interiorano (e precisa ser homenageado). No palanque, Valzinho ancorava a festa na maior animação (isquindô, isquindô). Não é o prefeito nem a Lesec, mas todos nós precisamos decidir se queremos avançar com a nossa festa ou voltar àquele tempo...

(*) B. Requena é assessor de imprensa da Prefeitura Municipal