Terminado o duro regime político, um de seus prisioneiros, que havia sido enclausurado numa cela solitária, foi interrogado pelos repórteres ao ser libertado. Como havia suportado tantos meses no isolamento, sem distração de qualquer espécie - livros, pessoas para conversar, rádio ou TV?
Realmente, o castigo maior da solidão é o vazio que se instala lenta e inexoravelmente no pensamento do prisioneiro, embrutecendo-o pouco a pouco. E talvez fosse essa a intenção final de seus algozes. Nada, além da comida monotonamente igual, colocada silenciosamente na abertura da cela. Uma vez por dia, uma breve saída para o sol - e nenhuma palavra do guarda que o acompanhava.
Veio o desespero? Em momento algum. Homem muito instruído, este prisioneiro começou por enumerar os pontos positivos de sua situação. Estava bem de saúde, sabia que sua família estava protegida. Passou a praticar vários exercícios físicos em determinados horários, rezava, cantava, citava os nomes de seus amigos, descrevia seus filhos, recitava as poesias de que se recordava, tentava reconstituir trajetos que percorria, receitas culinárias, regras esportivas e mais uma infinidade de coisas que havia armazenado em sua memória no decurso de sua vida. Abençoado manancial que fazia as horas passarem e sustentava sua fortaleza de ânimo dia após dia, tolerando a saudade pungente de seu lar, sua família e seu trabalho.
Ao término desta provação, analisando todos os momentos que havia enriquecido ao máximo, recorrendo aos arquivos da memória, notou que as recordações mais agradáveis e consoladoras eram aquelas mais ricas de detalhes, quando conseguia recapturar integralmente os dados. Canções, hinos pátrios, orações e longos poemas haviam sido saboreados com verdadeiro deleite intelectual.
Quem de nós estará com bagagem segura para enfrentar a solidão de mãos vazias? Poderemos percorrer os longos corredores da memória, retirando de suas prateleiras a primeira página da cartilha de alfabetização, as orações noturnas, a lista de tios e tias? Poderemos abrir o escaninho dos aromas, onde estão guardados alguns bem estranhos, como o cheiro da lancheira do jardim-de-infância, ou a primeira classe onde lecionamos, com seus vidros fechados em dia de chuva? E os sons? Vozes dos pais, dos filhos, dos irmãos e dos amigos; sons do jardim à noite, sons do tráfego nas ruas, sons domésticos... Maravilhoso depósito, tesouro que ninguém pode roubar!
Aqueles que tiveram a satisfação de memorizar trechos literários e canções, desfrutam pela vida toda destas aquisições valiosas. A qualquer momento, podem fechar os olhos e visitar seu tesouro secreto: a Arca da Memória.
(*) Amélia Piza é pintora e escritora, doutoranda em Artes pela Unesp e colaboradora de Ju Machado-Escritório de Arte.