08 de julho de 2026
Geral

Exorcista volta em versão integral

(*) Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 4 min

Ele voltou. No caso, eles voltaram. O filme e aquela coisa, a maior encarnação do mal da história do cinema. Está em cartaz em Bauru, desde a última semana, a versão nunca vista e remodelada de O Exorcista, clássico dos anos 70 dito o mais aterrorizante filme da história.

A produção, dirigida por William Friedkin em 1973, reapareceu no ano passado nos EUA e na Europa, 11 minutos mais longa e com o selo versão do diretor. Mais: além de nunca vista, a versão é nunca ouvida: praticamente todo o áudio mono ganhou sofisticação digital.

A questão é: O Exorcista sobrevive em um cinema que já viu sustos de todos os tipos? Sim.

Hoje universal, O Exorcista é uma versão do livro de William Peter Blatty (1971), sobre suposto caso real de exorcismo de um garoto de 14 anos em Washington.

Virou best seller e vendeu 13 milhões de cópias apenas nos EUA. Dois anos depois, seria a maior bilheteria em um fim-de-semana de estréia na história e se colocaria depois como a segunda maior arrecadação de todos os tempos, só atrás de O Poderoso Chefão.

Teve dez indicações e levou dois Oscar, roteiro adaptado e som. No Brasil, ainda está entre os dez filmes estrangeiros mais vistos.

O que fez dele fenômeno foi dar um padrão novo, pesado e explícito ao terror psicológico, sem monstros, histórias fantásticas.

O filme colocou uma inocente menina de classe média da capital dos EUA, sofrendo uma possessão demoníaca com aval científico, num roteiro apoiado em clímax e com antológicos efeitos que seriam imitados até hoje, como o vômito verde feito de sopa de pêra e a cabeça girando 180 graus.

Essa menina é a lendária Linda Blair, que nunca mais conseguiu fazer nada de vulto: é sempre a menina de O Exorcista.

A mesma maldição sofreu o diretor. Nome de ponta da excelente leva de novos cineastas surgidos nos 70 (Francis Ford Coppola e Martin Scorsese), Friedkin ganhou o Oscar de diretor com Operação França (1971), fez história com O Exorcista, dois anos depois e... O diretor assinou várias produções, mas só conseguiu sucesso (bem) relativo com Viver e Morrer em Los Angeles (1985) e Regras do Jogo (2000).

Voltando à história, Linda Blair é Regan, normal garota de 12 anos que de uma hora para outra começa a se sentir esquisita. Das primeiras e inofensivas consultas médicas (É da idade) até a famosa masturbação com um crucifixo, a possuída desafia dois padres psicólogos (Max Von Sydow e Jason Miller), cujas doutrinas de exorcismo entram em conflito.

O Exorcista resiste ao tempo porque não é baseado só em seus espetaculares (para a época) efeitos especiais. O elixir de longa vida do filme está no fato de o sobrenatural invadir vidas normais.

Primeiro a da mãe, que está mais preocupada com sua carreira de atriz e em arrumar um novo casamento. Depois a de um padre psicólogo que anda com problemas de fé e com a mãe doente. E por último o herói do filme, um padre arqueólogo cansado, lutando apenas por sua saúde.

Esse terror não é datado. Consta que, no ano passado, o papa João Paulo 2.º rezou preces para livrar do mal uma moça de 19 anos, em plena praça São Pedro, em Roma, que estaria se debatendo incontrolavelmente e gritando palavrões em voz gutural.

Mexe ainda com o medo da perda de identidade. Pior, da identidade tomada, pavor que atravessa não só os limites religiosos, mas também o social e cultural.

E, quanto mais perto do final, mais cresce a perturbação de não saber o que acontece pouco antes dos créditos. Final feliz é que não.

Mesmo com todos seus méritos, talvez O Exorcista não precisasse das cenas adicionais.

Com exceção de uma, a tenebrosa e bizarra cena de Regan descendo as escadas da casa parecendo uma aranha, com o corpo curvado, barriga para cima, andando com os pés e as mãos e cuspindo sangue. A cena foi retirada, depois apareceu no vídeo e agora foi restaurada e alongada.

Parece que no original seria mais assustadora. Enquanto na versão 2000 Regan desce as escadas e logo retorna ao quarto, a cena inteira a mostraria perseguindo a mãe e sua ajudante pela sala. Nem Sam Raimi faria melhor.

Estréia

A estréia desta semana nos cinemas da cidade (Bauru 1 e Center 1) é O Tigre e O Dragão, do diretor Ang Lee. O filme foi indicado a dez categorias do Oscar e se baseia na tradição das artes marciais chinesas, com destaque para as coreografias de Yuen Wo-Ping, o mesmo de Matrix.

Outro filme, desta vez pré-estréia, em cartaz esta semana, apenas hoje e amanhã, às 21h45, no Cine Center 1, é a comédia romântica O Que as Mulheres Querem, de Nancy Meyers, com Mel Gibson e Hellen Hunt nos papéis principais.

A historinha é difícil de engolir. Nick Marshall (Gibson) é um executivo machista que seria promovido, mas perde o cargo para Darcy Maguire (Helen Hunt). Desgostoso, depois de tomar um porre, acaba eletrocutado, o que lhe dá o estranho poder de ler o pensamento das mulheres (!).

(*) Colaborou Agência Folha