07 de julho de 2026
Geral

A propaganda e os fatos

(*) Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Não vejo nenhum mal nas comemorações que o governo promove na esteira da evidente melhoria no comportamento de nossa economia. Há exageros, mas enfim é difícil moderar a dinâmica das ações da propaganda, aliás desempenhadas por profissionais altamente competentes . Tem sintonia com o sentimento popular, pois em sua maioria os brasileiros têm aquela alma boa que os faz reagir com entusiasmo aos primeiros sinais de cura para a amargura dos anos recentes . Mas é preciso cuidado para não perdermos contato com a realidade, por que a barra ainda está pesada para um enorme contingente de trabalhadores sem trabalho e principalmente para aqueles jovens que ainda enfrentam enormes dificuldades para iniciar uma carreira que lhes prometa a realização profissional. Todos sabemos que só a continuidade do crescimento , em níveis bem superiores à atual taxa de 4% , poderá reverter esse quadro . É preciso estar atento, portanto, aos problemas que ameaçam essa continuidade, a começar pela situação de fragilidade que ainda não superamos no setor externo. Nos últimos cinco anos construímos a estabilidade, mas deixamos que se construísse em paralelo uma enorme dívida externa. A partir da mudança da política cambial, em janeiro de 1999, melhorarmos consideravelmente as condições de financiamento do déficit em contas correntes, pois estamos cobrindo o buraco com a entrada de investimentos diretos. Nosso crédito externo é razoável, mas não podemos ignorar o fato que somos um país de renda média baixa, tremendamente endividado. A propaganda oficial é eficiente, mas ela não pode ir ao exagero de tentar nos convencer que o crescimento de 4 % ao ano é suficiente para resolver os problemas de emprego dos brasileiros e melhorar a distribuição da renda. Após cinco anos de estagnação, a renda per capita no ano passado cresceu 2,4 %. É uma grande mistificação dizer que o crescimento da renda per capita dos brasileiros, hoje, se equipara às taxas observadas nos anos 70 (quando a expansão do PIB chegou a atingir picos de 14 %!), por que os índices de natalidade caíram pela metade. Na realidade, naquele período, o crescimento médio do PIB foi de 7% ao ano, com uma taxa de crescimento populacional de 2,6 %, o que significou um aumento de renda per capita de 4,5 %, praticamente o dobro da atual! Essa diferença significa o seguinte : naquele período, a renda dos brasileiros dobrava a cada 10 anos; pelo atual ritmo, levaremos 50 anos para produzir o mesmo resultado. Quer dizer que, se nos conformarmos com o festejado crescimento de 4% anuais, nem daqui a um século deixaremos de ser classificados entre os países de renda média baixa. É preciso convencer disso os marqueteiros e, em especial, o nosso presidente. É preciso convencê-lo, inclusive, de que o fator que nos impede de crescer 6% ou 7% ao ano é o constrangimento representado pelo déficit estrutural do balanço em contas correntes. E que isso só vai ser resolvido com um vigoroso aumento das exportações. Para que isso aconteça, basta que o presidente decida engajar de fato o governo no suporte ao setor privado exportador. E ele pode começar afastando os obstáculos que seus burocratas colocam à votação da reforma tributária no Congresso, que pretende reduzir os impostos nas exportações. Afinal, foi o próprio presidente que, em sua recente viagem ao exterior, se deslumbrou com a performance dos exportadores coreanos, afirmando: agora entendi por que não se deve cobrar imposto sobre as exportações. É só transformar o deslumbramento em ato...

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br