A rebelião, que teve início por volta das 9 horas, deixou 12 presos feridos; o protesto foi contra a vinda de membros do PCC
Cerca de 250 presos da Penitenciária II de Bauru rebelaram-se, na manhã de ontem, num movimento que deixou 12 detentos feridos, entre eles, três baleados. A rebelião teve início por volta das 9 horas e ao meio-dia já havia sido controlada, sem que a Tropa de Choque fosse acionada. Os presidiários baleados foram feridos em confronto com os policiais, enquanto os demais machucaram-se em brigas com os próprios companheiros.
De acordo com a Polícia Militar, os rebelados estariam reivindicando a transferência de cinco presos pertencentes ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que haviam chegado à PII na noite anterior. Eles não aceitaram a permanência dos presos transferidos, já que na penitenciária, atualmente, não haveria outros envolvidos com o comando que liderou as rebeliões iniciadas no dia 18 de fevereiro, em diversas penitenciárias e casas de detenção do Estado de São Paulo.
Por esse motivo, acredita-se que a rebelião, que envolveu apenas presos do Raio 3, da PII, não está relacionada às anteriores, organizadas pelo PCC em outras penitenciárias do Estado.
A rebelião teria começado após desentendimentos entre os próprios presos, já que alguns deles teriam tentado executar, durante o banho de sol, suspeitos de envolvimento com a organização criminosa. Eles fizeram quatro agentes penitenciários reféns e tomaram as dependências da PII.
Cerca de 60 detentos invadiram a cozinha e a administração da penitenciária, provocando disparos de tiros, de acordo com o major Jorge Lelis Pinholi. Foram efetuados alguns disparos na direção das pernas, com a finalidade de conter os presos, que eram mais de 60, segundo o diretor, afirmou. O objetivo dos disparos seria proteger funcionários que trabalham na administração do presídio, entre eles, algumas mulheres. Cerca de dez presos que não estavam participando do movimento foram isolados pelos policiais já no início da rebelião, por volta das 9 horas.
Os rebelados atearam fogo no corredor que liga a administração da penitenciária à ala de cárceres; alguns policiais chegaram a ficar cercados pelo princípio de incêndio, mas nenhum deles ficou ferido.
Por volta das 10h15, a sirene da penitenciária soou, indicando tentativa de fuga em massa. De acordo com o major Pinholi, alguns oportunistas tentaram aproveitar-se da situação de tumulto para fugir, o que foi em vão.
Os quatro agentes penitenciários tomados como reféns foram liberados por volta das 11h30, quando a situação já estava praticamente sob controle e os rebelados estavam sendo flexíveis na negociação com a diretoria da penitenciária. Apenas um deles apresentava ferimentos na orelha e nas costas, devido a agressões com pedaços de madeira.
Os detentos feridos foram transferidos ao Pronto-Socorro Municipal Central, sendo que nenhum deles encontrava-se em estado grave: três detentos estavam baleados e os outros seis apresentavam escoriações diversas. De acordo com o capitão Manoel Messias Melo, um inquérito administrativo pode ser instaurado para apurar as circuntâncias em que ocorreram os disparos contra os detentos.
Os cinco detentos pertencentes ao PCC, que teriam sido a razão do motim, foram transferidos provisoriamente à Penitenciária I de Bauru, embora ainda não se saiba se existe a possibilidade dos presos da PI, considerados mais tranqüilos que os da PII, rebelarem-se contra a medida. Não sabemos se há a possibilidade dos presos da Penitenciária I iniciarem uma rebelião. Em se falando de presos, nós não temos expectativas, imprecisou o Major Pinholi.
Após o término da rebelião, os policiais responsáveis pela guarda da penitenciária iniciaram uma revista nas celas, mas o expediente não foi concluído. Segundo informou ontem à tarde o comandante da 1.ª Companhia da PM, Benedito Roberto Meira, a revista foi transferida para outra data ainda não agendada. Durante as negociações para a libertação dos reféns, os rebelados teriam solicitado que a revista não fosse realizada ontem, o que acabou sendo atendido pela polícia para não alimentar ainda mais a tensão dentro do presídio.
Até ontem, a visita dominical também não havia sido desmarcada, como costuma ocorrer, em caráter de castigo, após as rebeliões. A diretoria do presídio teria entendido que tal medida seria de certa forma injusta para com os demais detentos que não aderiram ao motim.
Segunda versão
Informações extra-oficiais dão conta de que um outro motivo pode ter provocado a rebelião de ontem na PII. O início pode ter sido um desentendimento com um detento que estaria jurado de morte por ter agredido verbalmente um dos visitantes de outro preso.
No entanto, as informações oficiais ainda não foram apuradas e o diretor da Penitenciária II dois não foi localizado para confirmar os fatos.
Nos bastidores, comenta-se também que os detentos da PII estão há tempos insatisfeitos com a Vara de Execuções Penais de Bauru, razão pela qual estariam articulando um motim. Internamente, os presos teriam até cogitado uma rebelião na mesma ocasião em que outras várias estouraram em todo o Estado, no último dia 18. Só não teriam ido adiante com a idéia porque não queriam que o movimento fosse vinculado ao PCC, este, pelo que se sabe, ausente nas penitenciárias de Bauru.
Os presos estariam insatisfeitos com a morosidade e desorganização da Vara de Execuções, comandada pelo juiz Evandro Kato. O magistrado, por sinal, estaria sendo irredutível na concessão de benefícios aos detentos. Em dezembro de 2000, ele teria indeferido dezenas de processos dessa natureza, em sentenças sem argumentos. O problema, aliás, já teria sido pauta de uma reunião entre a direção das penitenciárias e a Funap. Ontem à tarde, o JC tentou ouvir o juiz sobre as reclamações, mas não obteve retorno.