08 de julho de 2026
Geral

Antropólogo quer adoção do brasileiro

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Há 15 anos, Tupan-Am começou suas pesquisas e hoje propõe a substituição da Língua Portuguesa pela brasileira

Não seria difícil imaginar um encontro entre o antropólogo Nicolau Tupan-Am e o major Policarpo Quaresma caso este último não tivesse existido a não ser nas páginas de um romance de Lima Barreto.

Os dois teriam muito o que conversar e logo suas afinidades germinariam uma amizade profunda ligada pelo amor à pátria e aos valores nacionais. Talvez divergissem em alguns pontos, certamente a respeito da adoção de uma língua nacional.

O major, como sabe quem leu Triste Fim de Policarpo Quaresma, chegou a mandar um requerimento para a Câmara pedindo ao Congresso Nacional a oficialização do tupi-guarani como língua nacional do povo brasileiro.

Tupan-Am não vai tão longe, mas propõe a adoção do brasileiro em substituição ao português falado no Brasil. Seus argumentos em favor dessa mudança também se assemelham aos utilizados por Quaresma no requerimento. "Dentro do nosso País, os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical", escreveu Policarpo.

"Uma das maneiras de pôr fim ao fosso entre a língua falada e a escrita no Brasil seria a adoção de uma gramática que normatizasse a linguagem comum", disse Tupan-Am à reportagem.

Sua defesa se baseia em uma vasta pesquisa étnica e lingüística cujo resultado ele vem publicando em livros, quatro já editados e quatro ainda no prelo. Partiu de uma constatação quantitativa: catalogou 10 mil vocábulos de origem indígena e 10 mil de origem africana integrados ao vocabulário "brasileiro". Viu também diferenças gramaticais entre o o português falado aqui e além-mar. "Quando um lusitano pede para 'acionar o autoclisma do retrete' dificilmente um nativo entenderá que estão lhe pedindo que dê descarga", diz Tupan-Am.

Batismo tupi

Há 15 anos, o professor começou suas pesquisas de campo junto a índios guarani aldeados no interior de São Paulo. Foi lá que mudou de nome, uma década mais tarde. Chamava-se Nicolau Leite, mas seu editor pediu-lhe um sobrenome mais literário.

Ele levou o pedido a amigos índios e estes lhe contaram sobre o batismo místico das crianças da aldeia. "A mãe leva os filhos até o pajé que não diz nada e ordena que a mãe volte para a casa e sonhe com o nome. No dia seguinte, ele é batizado". Leite passou a se chamar Tupan-Am depois de ter sonhado com esse nome, que significa Alma de Trovão.

Durante todo esse tempo, coletou milhares de vocábulos da língua geral, designação dada pelos jesuítas há quase cinco séculos para o idioma do tronco tupi-guarani falado em grande parte do litoral brasileiro. No ano passado, publicou o resultado dessa pesquisa seguida de uma gramática expositiva, Nheengatu-tupi, Vocabulário e Gramática em Língua Tupi-guarani (editora FTS), na qual lança uma proposta de normatização da grafia de termos indígenas.

As três raças

Antes, em 1997, Tupan-Am havia publicado Obiblium, (Ed. Paulista), uma reunião de ensaios de antropologia cultural resultantes do curso de extensão que ministra sobre cultura brasileira na PUC, nas faculdades São Judas e Santana e no Instituto Costa Braga.

O major Quaresma teria parado por aqui, no mesmo estágio onde antes dele haviam chegado os escritores românticos do século 19 para os quais a cultura indígena seria o sinônimo de nossa identidade. Mas Tupan-Am voltou suas atenções para outro elemento formador da cultura brasileira, o negro. Tornou-se umbandista, seu orixá é xangô (deus do trovão) provando, segundo ele, o acerto do sobrenome adotado, e escreveu "Diálogo Umbandista" (Ed. STS), lançado em dezembro do ano passado.

O livro pode ser considerado o primeiro capítulo de outro estudo no prelo da mesma editora, chamado "Código Negro, Razão Brasileira", no qual Tupan-Am apresenta 280 vocábulos de origem etimológica das línguas kimbundo, umbundo e kioko, incorporados à língua brasileira, e em que ainda destaca personalidades e heróis negros da história nacional.

Há até uma entrevista imaginária com o Zumbi dos Palmares, na qual o líder quilombola comenta sobre temas sociais quentes como o Movimento dos Sem Terra e a situação do negro no Brasil. Tupan-Am se considera um idealista, um amante da pátria "sem ser patriota", por isso, diz, não abre mão da vida que leva: "Poderia ganhar mais dinheiro dando aulas de inglês e alemão, dois idiomas que domino, mas prefiro ter uma vida sem luxo, fazendo pesquisas por amor aos valores brasileiros e à nossa cultura."

O professor Nicolau Tupan-Am mora com a mulher e dois filhos num apartamento da Cohab em Cidade de Tiradentes, zona leste de São Paulo. Pediu à reportagem que o fotografasse no Instituto Costa Braga porque "ninguém consegue achar o endereço".

Com aparência de um Che Guevara, usando boina com um broche brasileiro, prepara-se para um lance mais ousado: vai publicar até o fim do ano o livro "Lingüística Aplicada à Língua Brasileira", no qual constata que não existe língua portuguesa no Brasil e, sim, o brasileiro.

Talvez ele não mande um requerimento ao Congresso Nacional, como fez Policarpo Quaresma, mas não se furtará a conclamar à Academia Brasileira de Letras e ao governo: "O Brasil vai se tornar mais independente quando tiver seu próprio idioma."