08 de julho de 2026
Geral

Culpa: um encontro com sua humanidade

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de um dia em Varsóvia havíamos chegado à pequena cidade polonesa de Oswiecim, batizada pelos alemãs de Auschiwtz. Nos arredores da pitoresca cidade encontra-se o famoso Campo de Extermínio construído pelos nazistas, Auschiwtz-Birkenau.

Apesar da sádica inscrição no portão de entrada - Arbeit Macht Frei (Trabalho faz livre) -, o fim de quem chegava como prisioneiro à Auschiwtz era a câmara de gás.

Somente visitando Auschiwtz compreendemos o que foi esta horrível máquina construída para o extermínio sistemático de seres humanos. Como ninguém consegue ficar muito tempo no museu do terror, em poucas horas estávamos em Cracóvia procurando um lugar para almoçar.

Cracóvia é a cidade onde vivera Oscar Schindler, o industrial alemão que havia salvo muitos judeus da morte. Meu amigo polonês e eu conversávamos descontraídos, em um pequeno restaurante, na única língua que tínhamos em comum, a língua alemã. Em um determinado momento meu amigo abaixou o tom de voz e comunicou-me que deveríamos parar de conversar.

Perguntei-lhe então o porquê. Ele, meio desconcertado, me pediu novamente silêncio. Terminamos de almoçar sem trocarmos uma única palavra. Ao sairmos do restaurante, meu amigo explicou-me que os poloneses das mesas vizinhas estavam nos confundindo com alemães e começavam a irritar-se por ouvirem a língua alemã.

Fiquei assustado com a possibilidade absurda, mas possível, de um brasileiro sofrer uma agressão por ser confundido com um alemão. Ao mesmo tempo, pude experimentar como um jovem alemão sente-se por ter de carregar um estigma pela culpa de seus pais.

A culpa é uma das experiências mais desagradáveis que podemos ter. É necessário, porém, diferenciar a culpa do sentimento de culpa. O sentir-se culpado não significa necessariamente ter culpa.

O sentimento de culpa é algo subjetivo que pode ou não corresponder à realidade. Existem, porém, várias espécies de culpa: a culpa jurídica, aquela que surge pela violação ou inobservância de uma regra de conduta que resulta lesão do direito alheio; a culpa existencial ou metafísica, que surge da reflexão sobre o sentido da vida.

Um cristão sente-se culpado diante de Deus, caso não tenha feito da vida algo de bom, ou um ateu sente-se culpado diante de sua consciência, caso tenha vivido de forma irresponsável e egoísta. Uma das formas de culpa mais freqüentes é a chamada culpa moral. Esta surge quando fazemos algo de mal ou deixamos de fazer algo de bom, quando nos omitimos.

A culpa moral pode ser pessoal ou trans-pessoal. Esta última, infelizmente, é a mais esquecida. A culpa trans-pessoal surge sempre em relação a um grupo. Por pertencermos a uma sociedade assumimos a responsabilidade pelo etos vivido por ela.

Se uma sociedade possui um determinado etos que está em contradição com a dignidade humana, todos os membros da sociedade carregam uma culpa coletiva.

As gerações de 30 e 40 do século passado, na Alemanha, carregam a culpa, pois viveram o anti-semitismo como regra social. Todos nós brasileiros carregamos a culpa por mantermos uma estrutura social injusta, que condena muitos de nossos irmãos a uma vida indigna.

Independente da forma, é importante saber que a culpa não pode ser herdada. Ninguém é culpado pelas ações de seus pais ou de seus antepassados.

Nós podemos, porém, nos fazer culpados em relação às gerações futuras. Se, no presente, vivemos de forma irresponsável, as gerações de nossos filhos herdarão as conseqüências dos nossos atos.

Se continuamos a destruir a natureza, a reforçar o egoísmo e a corrupção, se pioramos o sistema educacional do país, as gerações futuras terão que sofrer com os problemas gerados pelos nossos atos ou pelas nossas omissões.

O único remédio para a culpa é sua aceitação. Quem reconhece a própria culpa, faz uma verdadeira avaliação de sua história e acaba conhecendo-se melhor.

Em sua aceitação encontramos um verdadeiro paradoxo: quem nega a própria culpa e procura escondê-la acaba destruindo sua dignidade e identidade. Quem admite sua culpa, por mais dolorido que seja, fortalece sua dignidade, reconquista sua auto-estima e o amor próprio.

Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa, tanto maior o amor (Paracelso). Mea culpa significa, portanto, um encontro com sua própria humanidade e a perspectiva de mudança.

O reconhecimento da culpa leva-nos a um processo de Metanóia, ou seja, à uma transformação fundamental de pensamento e de caráter. Ao admitirmos a culpa, tornamo-nos mais responsáveis diante da vida e mais solidários diante dos outros.

A grandeza de uma pessoa está em saber reconhecer sua própria pequenez (Blaise Pascal).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura