08 de julho de 2026
Geral

Fazendo justiça ao canibal

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Para não dizer que li todas as críticas sobre Hannibal (Hannibal, EUA, 2000), que está em exibição há duas semana em Bauru, vou dizer que li cerca de 90%, o que inclui os principais jornais e revistas do Brasil, algumas estrangeiras, além de sites da Internet. Em todos os textos os críticos foram unânimes: o filme dirigido por Ridley Scott não chega aos pés do antecessor, O Silêncio dos Inocentes.

Pode ser. Se colocados lado a lado, o filme dirigido por Jonathan Demme, há dez anos, talvez seja realmente mais interessante, mas é uma injustiça, porém, taxar Hannibal de mera seqüência caça-níqueis.

Na realidade, é um erro comparar os dois filmes (embora seja quase impossível não fazê-lo), pois além de serem obras de diferentes diretores, pertencem a gêneros distintos. Imagine que depois do sucesso estrondoso de Titanic, em 97, alguns produtores cogitaram a possibilidade de uma seqüência para o filme que trataria da história do processo que apurou as causas do naufrágio do navio. Se tivesse sido feito o tal Titanic - Parte II, o Julgamento Final o filme obviamente seria um drama de tribunal e, lógico, não teria água entrando pelo subsolo da corte, nem romance entre os mocinhos. Logo surgiriam críticas dizendo que o filme era pior do que o primeiro porque explorava elementos diferentes. Burrice. A questão principal não deve ser comparar uma obra com a outra. Se semelhanças com o filme que deu origem à série fossem parâmetro de qualidade, as séries Pânico ou Sexta-feira 13 seriam clássicas.

Oscar duvidoso

Para começar, O Silêncio dos Inocentes é um bom filme mas está longe de ser uma obra de arte como alguns querem fazer parecer (a revista Set deste mês diz que o filme é um dos melhores da história, num exagero idiota). Existem qualidades como a maneira com a qual o diretor conduz o duelo psicológico entre Starling e Lecter (o uso dos closes é muito eficiente em colocar o espectador dentro da pele dos personagens), além, é claro, da atuação extraordinária de Jodie Foster e Anthony Hopkins. Mas o roteiro, apesar de ser uma boa adaptação do livro de Tomas Harris, é fraco quando Lecter não está em cena. Depois que ele foge, então, o filme desmorona e tem um final xoxo e inverosímil.

Para quem não se lembra, a trama contava como a estagiária do FBI, Clarice Starling (Foster) entrava em contanto com o perigoso ex-psiquiatra Hannibal Lecter (Hopkins) - que tinha o hábito de comer carne humana -, para obter informações sobre um ex-paciente dele, que se denominava Búfalo Bill e havia se transformado num serial killer, mantendo como refém a filha de um senador.

O filme começa com a promessa de um grande embate intelectual e psicológico entre a futura agente e o maníaco e acaba se resumindo a uma trama boba, uma perseguição de gato e rato. Búfalo Bill colocava na boca de suas vítimas um casulo de uma mariposa originária da Ásia. Quando o FBI foi pesquisar o origem do inseto, descobriu através do registro de entradas da alfândega, o nome do sujeito que importou as larvas. Pronto, descobriram o Búfalo Bill! Para que Clarice Starling precisava conversar com o canibal mesmo?

Alguns defensores de Silêncio dos Inocentes ainda citam os cinco Oscar ganhos pelo filme de Jonathan Demme como prova de qualidade. Outro erro. O prêmio americano não tem um histórico de observação de qualidade como as vitórias dos fracos Rocky, Laços de Ternura, Dança com Lobos e Titanic podem atestar. Pouca gente se lembra, mas depois da premiação, houve muito buxixo em Los Angeles porque membros da Academia teriam admitido que votaram em O Silêncio... para que, com a vitória, o filme salvasse sua produtora, a Orion, da falência (é preciso lembrar que o Oscar antes de tudo é indústria, business), o que não ocorreu. Resumindo, nem as cinco estatuetas são, com certeza, 100% legítimas.

Outro filme

O Hannibal, de Ridley Scott (Gladiador, Blade Runner e Alien), também baseado na obra de Tomas Harris, é um thriller de ação e não um thriller psicológico. O canibal que antes assustava seus observadores só com o olhar, agora mata cruelmente com uma faca, usa a força. Mas o que poderia se esperar, ele está solto e não numa camisa de força atrás de uma parede de vidro? Além disso, está sendo caçado pela polícia, pelo FBI e por uma vítima que sobreviveu. É justificável que esteja mais violento apesar de continuar charmoso e mordaz em seus comentários.

E Clarice? Dez anos após os acontecimentos do filme anterior, ela já não é uma agente em início de carreira, é uma veterana de respeito que passa por um momento de ostracismo após comandar uma ação contra traficantes que termina em um banho de sangue. É perfeitamente aceitável que ela esteja transformada em uma mulher mais amarga e dura, que tenha menos medo de ficar cara a cara com Hannibal.

Scott poderia ter sido mais sutil em algumas cenas, principalmente na seqüência final? Sim, poderia. Mas isso é uma questão de estilo, o que, aliás, ele tem de sobra. O roteiro (escrito por David Mamet, de Os Intocáveis e remexido por Steven Zaillian, de A Lista de Schindler) poderia ter explorado melhor o personagem do milionário Mason Verger, a vítima sobrevivente de Lecter? Não só poderia, como deveria. Mas esses defeitos não fazem de Hannibal um filme qualquer, que passaria batido nos cinemas se não fosse seqüência de O Silêncio dos Inocentes, como alguns querem crer.

É preciso ter estômago forte, mas quem for ao cinema ver Hannibal vai ver um thriller emocionante do começo ao fim, mesmo!

Serviço

Hannibal está em cartaz em Bauru, no Cine Center 2. Confira os horários na página 29.