08 de julho de 2026
Geral

O turrão da democracia

(*) Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 2 min

A democracia brasileira está de luto e mais pobre com a morte prematura do governador Mário Covas. Prematura porque, embora septuagenário, Covas ainda tinha muito a contribuir para o fortalecimento democrático das instituições políticas deste País continental.

Define o dicionário Aurélio que turrão é aquele que é teimoso, pertinaz. A segunda definição enquadra-se com mais perfeição para aqueles que, de longe ou de perto, acompanharam a trajetória política de Mário Covas. O governador tinha obstinação na busca de seus objetivos; foi pertinaz até o último momento de lucidez, segundos antes de fechar os olhos para trilhar o caminho da morte.

Diz um velho ditado popular que o homem morre, mas suas idéias parmanecem. O legado do turrão da democracia servirá de exemplo para a nova geração de políticos que começa a se desenhar, desde que os ventos da abertura, da redemocratização, começaram a soprar neste País.

Seu jeito diferente de fazer política servirá como cartilha para aqueles que estão chegando e se envolvendo nessa bolha ainda frágil da democracia brasileira. Curto e grosso, sem rodeios, era a forma mais direta que o governador aplicava para exercitar a política. Sinceridade, a verdade, doa a quem doer. O estilo Mário Covas de fazer política já deixa saudades.

O mau-humor característico de sua personalidade foi um componente necessário para salvar da falência o Estado de São Paulo. De certa forma, a cara fechada, ranzinza, que perdurou durante os primeiros quatros anos de seu governo, assustava qualquer ameaça de pedido irresponsável de verbas, independente de quem fosse o autor.

O mau-humor do governador prestou um grande serviço aos cofres públicos do Estado. Covas mal-humorado foi mais relevante e prestativo do que outros ex-governadores bem-humorados. O franzir da testa deu resultados. O governador herdou um Estado falido, alquebrado, com o moral baixo. Morreu deixando nos cofres uma bagatela de R$ 7 bilhões.

Justiça seja feita, governador. Seu choro copioso não foi em vão. Os paulistas agradecem, de coração, o seu mau-humor pertinaz, remédio necessário para alcançar, de maneira obstinada, seus objetivos. Mais vale um turrão para a democracia do que um risonho para contos de fada.

(*) Gilmar Dias é repórter da Editoria de Política do JC.