Uma pesquisa realizada pelo Grupo Unidos, com o objetivo de conhecer os motivos alegados para o atraso no pagamento de prestações por parte dos consumidores, mostrou que, em Bauru, a principal razão apontada durante as entrevistas foram as compras realizadas para terceiros, com 22,8% das respostas. Para obter os resultados foram ouvidas 162 pessoas, no período de 16 a 18 de janeiro deste ano. Em segundo lugar veio a justificativa do desemprego, com16% e, em terceiro, atraso no recebimento do salário, com 14,8%.
De acordo com o professor de Economia Mauro Fernando Gallo, fazer compras para uma terceira pessoa - parente, amigo ou vizinho - em seu nome é uma prática muito comum entre pessoas de classes econômicas mais baixas. Nas classes baixas é muito comum isso acontecer. Uma pessoa que não pode utilizar o seu nome para fazer compras no comércio porque está devendo na praça e tem o seu nome registrado no SPC, pede a um parente ou amigo com o nome limpo para dar um cheque seu, ou utilizar o seu cartão de crédito, ou até mesmo para comprar no crediário de uma determinada loja. O problema é que, em muitos casos, quem pediu emprestado não paga e quem emprestou é que fica em uma situação difícil por não ter como arcar com aquela dívida, observa o professor.
A pesquisa indica, ainda, que 49% das pessoas que recorrem a outras para conseguir comprar no comércio fazem isso porque não têm como comprovar renda; 32% têm restrições em relação ao seu nome; e 19% dos pedidos seriam relacionados a outras causas, como mostra o gráfico nesta página.
A alegação de desemprego causou estranhamento ao professor Gallo, pelo fato dos índices de emprego terem aumentado desde o último semestre. O desemprego de início de ano é, geralmente, relacionado àqueles empregos temporários conseguidos na época de Natal. Mas, nesses casos, a pessoa já sabe que há grande possibilidade dela não permanecer no emprego e deve programar os seus gastos de acordo com essa realidade. Além disso, este ano muitos trabalhadores temporários acabaram se tornando fixos. E se não bastasse, os níveis de emprego vêm aumentando desde o último semestre do ano passado. Por tudo isso, eu estranho essa resposta, observa Gallo.
Para o professor, uma hipótese plausível é a de que as pessoas que foram entrevistadas tenham se sentido constrangidas em dizer a verdadeira razão para o atraso no pagamento de suas prestações e, por essa razão, podem ter se apoiado na rápida saída de culpar o desemprego.
O atraso no recebimento do salário também não convenceu o professor. Antigamente, os servidores públicos sofriam muito com o atraso de salários. Atualmente, isso não tem mais ocorrido em grande proporção. Nas empresas, esses casos de atraso ocorreram isoladamente no ano passado, nada que afetasse tanto a economia, diz Mauro Gallo.
Outra possibilidade em relação ao atraso no pagamento de prestações, para a classe média, seriam os gastos exagerados no final do ano, com as compras de Natal, que geralmente resultam em acúmulo de dívidas no início do ano seguinte.
Resultados amplos
A pesquisa também mostra que, no Estado de São Paulo, a resposta campeã foi o atraso dos salários, com 18,2%; seguida pelo desemprego, com 15,6%, e pelas compras feitas para terceiros, com 13,5%.
Na média geral da pesquisa, para a qual foram entrevistas um total de 25.221 pessoas em todo o País (sendo 4.488 na região Centro-Oeste, 5.692 na Nordeste, 630 na região Norte, 12.362 na Sudeste e 2.049 na região Sul), a principal alegação também foram as compras feitas para terceiros, com 21% das respostas. Em segundo lugar, com 17,8%, o atraso do salário; e em terceiro, com 13%, o desemprego.
De acordo com os analistas do Grupo Unidos, que avaliaram os resultados da pesquisa em nível nacional, embora em fevereiro deste ano a participação dos motivos atraso de salário, desemprego e redução de renda (esta com 7,1%) tenham crescido em relação a novembro do ano 2000, ela não apresentou variação significativa quando comparada com o mesmo mês do ano anterior. Isso levaria a crer, segundo os analistas, que ainda mantém-se um cenário econômico favorável para o consumidor inadimplente.
O crescimento do motivo compras para terceiros nas duas últimas pesquisas (novembro/2000 e fevereiro/2001) teria ocorrido, provavelmente, em virtude da expansão do crédito e das vendas, verificada na economia durante o ano 2000. De acordo com dados do Banco Central, o total de operações de crédito do sistema financeiro privado para pessoas físicas saltou de R$ 34,7 bilhões em dezembro de 99, para R$ 59,7 bilhões em dezembro de 2000 - um crescimento de 72% em apenas um ano.
Para os devedores que estão em atraso há menos de 30 dias, o principal motivo alegado é o atraso de salário, seguido de compras para terceiros e falta de tempo/esquecimento. Já os que estão em atraso entre 31 e 90 dias, os três principais motivos são compras para terceiros, atraso de salário e comprometimento de renda. Finalmente, para as dívidas com atraso superior a 91 dias, o principal motivo alegado é o desemprego, seguido de compras para terceiros e doenças.