Bauru comemora amanhã, dia 9 de março, 90 anos de instalação de sua comarca. Apesar de quase um século de existência, apenas agora o Fórum recebe sua primeira juíza titular. À frente da 1.ª Vara Cível, está a agudense Ana Carla Crescioni Santos Almeida Salles. Mãe de duas filhas e esposa do promotor Roberto de Almeida Salles, ela é formada em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE) e atua desde 1994 na magistratura. Desde então, afirma que o número de mulheres atuando como juízas e promotoras tem aumentado. Acredito que um dia ainda seremos maioria, prevê. Em entrevista exlusiva ao Jornal da Cidade, Ana Carla fala sobre como concilia trabalho e família, expõe seus projetos e afirma que, apesar do maior ingresso de mulheres em áreas ligadas ao Direito, os sinais de discriminação ainda são percebidos - mesmo que discretos.
Jornal da Cidade - Como juíza titular, a senhora está à frente de uma vara cível, mas já analisou processos criminais. A senhora tem preferência por uma dessas áreas?Ana Carla Crescioni Santos Almeida Salles - Pela área cível. Particularmente, acredito que a área cível dê mais satisfação. A área criminal, talvez pela legislação que temos e pelos métodos de apenação, a gente não se sente gratificada em trabalhar. Não me sinto feliz ao condenar as pessoas a cumprirem penas e saber que elas não vão cumprir direito. Me sinto mais feliz em fazer um pai pagar pensão, em fazer um devedor pagar um débito, é mais gratificante.
JC - Essa preferência foi percebida logo na faculdade?Ana Carla - Não, isso veio com o tempo, com o amadurecimento. A gente vai analisando, ao passar do tempo, qual é a área que nos afinamos mais. Quando a gente vai prestar concurso, se estuda uma infinidade de matérias e, com o passar dos anos, vai percebendo a preferência por esse ou aquele assunto. Dentro do Direito Civil, minha preferência varia bastante, porque é uma área muito vasta.
JC - Durante esta breve experiência como juíza, a senhora teve alguma decepção?Ana Carla - Decepção que cause um desconsolo não, uma desilusão na carreira, não. A carreira da magistratura, costumo dizer, é como um sacerdócio. A gente se dedica. Levo trabalho para casa todo dia. O pessoal, às vezes, têm aquele mito que juiz só trabalha à tarde e isso é um equívoco. A gente está no Fórum só à tarde, mas a gente traz trabalho para casa e atua de manhã e à noite, muitas vezes sacrificando até o próprio convívio com filhos, marido e familiares. A única decepção foi ter percebido que não conseguirei chegar ao Tribunal, através de planos de promoção, mas já era algo esperado.
JC - Por que?Ana Carla - O plano de carreira da magistratura é muito lento. A maioria dos desembargadores se aposenta apenas quando alcança a idade da aposentadoria compulsória, que é com 70 anos. E eu, como mãe de família e consciente sobre as minhas obrigações dentro de casa, não posso me aventurar numa carreira rápida para a capital. Para eu ter chance de chegar ao Tribunal, eu já teria que estar em São Paulo há, pelo menos, quatro anos, e passando na frente, em termos de antiguidade, de muitos colegas, inclusive os aqui de Bauru, porque São Paulo é uma entrância especial. Então, consciente dessa minha condição e de acordo com o plano familiar estipulado junto ao meu marido, decidimos fazer uma carreira lenta, sem pretender uma ascenção ao Tribunal, para privilegiar nossa família. É uma opção de vida.
JC - A senhora e seu marido, por estarem na mesma área de atuação, trocam muitas figurinhas?Ana Carla - A gente debate bastante, conversa muito. Ele sobre os processos dele e eu sobre os meus. Isso facilita muito, porque a compreensão minha em relação a ele e dele em relação a mim, quanto às necessidades de se sacrificar pelo trabalho e chegar tarde em casa por causa de uma audiência que atrasou muito, é muito mais simples. Ele também é uma pessoa muito estudiosa e o consulto bastante.
JC - O fato de a senhora ter filhos e ter as tarefas domésticas, que acabam sendo quase que naturalmente atribuídas à mulher, atrapalham sua carreira?Ana Carla - Olha, se fosse homem, seria muito mais fácil ser juiz, com certeza. No Fórum costumamos brincar, quando estamos saindo tarde, que temos que ir embora logo por que precisamos jantar. E eu sempre digo que eles terão o jantar pronto, enquanto precisarei fazer. Tiramos um pouco de sarro disso, mas a verdade é que é preciso conciliar trabalho e casa. Não adianta me queixar que é mais difícil ou mais fácil, é assim. Então, conto com babá e empregada excelentes e com os familiares para me ajudar. Se não tivesse ninguém, seria muito mais difícil.
JC - A senhora é a primeira juíza titular da história da comarca de Bauru. Como é deter esse título?Ana Carla - Para mim é uma honra. Bauru, no dia 9 de março, comemora 90 anos de instalação da comarca e apenas 90 anos depois vim para cá. É muito estranho Bauru nunca ter tido uma juíza ou uma promotora titular, porque cidades muito menores já tiveram, caso de Lençóis Paulista e Bariri. Por isso, foi até uma situação engraçada ser a primeira juíza titular, uma curiosidade que chamou a atenção dos amigos e dos colegas.
JC - Por que demorou tanto tempo para Bauru ter uma juíza titular?Ana Carla - Acredito que foi uma coincidência. Nunca tinha tido uma mulher na ponta da lista para ser promovida para cá e agora calhou de acontecer.
JC - A figura do juiz, por si só, impõe respeito ou o fato de ser mulher impõe mais?Ana Carla - Acho que o respeito é o mesmo. Depende de cada profisional fixar os limites de respeito, de temor, de amizade com seus funcionários, porque nós formamos uma equipe. O cartório é uma equipe, na qual a chefe sou eu. A chefe coordena as atividades do cartório ao lado do escrivão e juntos a gente forma uma engrenagem. Todo cartorário é importante. Eu, sozinha, não consigo prestar Justiça.
JC - Como a senhora é na função de chefe?Ana Carla - No meu modo de ver, sou muito exigente e não gosto de pessoas que façam corpo mole, que adiam o trabalho para ficar passeando pelo Fórum, que em Bauru é muito grande. Então, sou exigente com os meus cartorários porque sou organizada e quero que eles sejam também. Às vezes, sei que forço um pouco na pressão, porque eu trabalho bem sob pressão, mas nem todo mundo é assim.
JC - Como as pessoas reagem quando estão diante de uma juíza?Ana Carla - Esse tabu já foi quebrado há muito tempo porque Bauru sempre teve juízas substitutas e os advogados, cartorários e promotores aprenderam a respeitar as substitutas tal como os juízes titulares homens. E, além disso, os colegas já tinham me visto aqui em 1994, quando passei a atuar como juíza substituta, então, a receptividade foi muito boa. Sobre o respeito, então, não tenho do que reclamar.
JC - A senhora já percebeu algum tipo de preconceito?Ana Carla - Nunca sofri preconceito por parte de colegas ou de advogados por ser mulher. Lógico que a gente ouve comentários de mau gosto, de colegas preconceituosos, que dizem que a mulher nunca deveria estar na magistratura, mas continuar a ser dona de casa ou se dedicar a profissões tipicamente femininas. Têm colegas aqui em Bauru que falam isso, para mim, inclusive, mas levo na brincadeira e não me importo.
JC - Hoje, há mais mulheres na magistratura?Ana Carla - Em relação à epoca que comecei, sim. Estão sendo aprovadas mais mulheres até. No último concurso, mais de 50% dos aprovados eram do sexo feminino, inclusive a primeira colocada foi uma mulher e ela está aqui em Bauru, atuando como substituta. Antes, a aprovação chegava a um terço, um quarto, mas ainda os homens são maioria.
JC - A que a senhora atribui essa mudança?Ana Carla - Acho que as mulheres, atualmente, desde a fase do ingresso na faculdade, têm se mostrado mais dedicadas ao estudo. Infelizmente, os rapazes têm a atenção desviada, inclusive em outras áreas, como Medicina e Engenharia, o que faz com que tomemos conta de áreas até então tidas como masculinas. Meu marido, que é professor na ITE, diz que os melhores alunos são mulheres, os rapazes batem muito papo - um ou outro se destaca. De dez melhores alunos, sete são mulheres.
JC - A senhora acredita que a magistratura possa ser ocupada um dia por mais mulheres do que homens?Ana Carla - Acredito, sim. Há comarcas que são exlusivamente comandadas por mulheres. Em Lençóis Paulista, isso ocorreu por mais de um ano e meio. Então, com o tempo, isso pode acontecer, mas é algo transitório.
JC - Enquanto juíza, a senhora tem algum sonho?Ana Carla - O meu primeiro projeto para Bauru é organizar o meu cartório e fazer dele mais eficiente, prestando a Justiça com mais rapidez, porque ele está meio estagnado, precisando de uns ares de renovação e, até quem sabe, de um toque feminino.