A Comissão de Sindicância começa a ouvir os servidores na próxima segunda-feira. Até vizinhos serão ouvidos
Os 30 servidores que trabalham na sede Regional da Funai, em Bauru, devem receber hoje uma intimação para prestarem esclarecimento sobre os últimos acontecimentos registrados na instituição, que resultou no afastamento temporário do administrador Rômulo Siqueira de Sá. As intimações foram preparadas e enviadas aos servidores pela Comissão de Sindicância, instalada em Bauru, que apura as denúncias de eventuais irregularidades dentro da Funai.
De acordo com o presidente da Comissão, Marco Antônio Xavier Levay, foram instaurados dois processos distintos. O primeiro tem como finalidade apurar se houve envolvimento de funcionários da Funai/Bauru na invasão realizada pelos índios, ao prédio da Regional, no último dia 20 de fevereiro. Na ocasião, os índios - em sua maioria, provenientes de Avaí e do litoral sul paulista - permaneceram no local durante quase uma semana. Enquanto durou a invasão, não foi permitida a entrada de funcionários. O expediente normal da instituição foi suspenso.
O segundo processo, de acordo com Levay, irá apurar denúncias de possíveis irregularidades na prestação de contas, feita ano passado pelo administrador afastado Rômulo Siqueira de Sá. Em 2000, a Funai/Bauru recebeu R$ 497.747,58 do Governo Federal para investir na preservação das 24 comunidades indígenas, espalhadas pelo Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, pelas quais é responsável a Regional de Bauru.
Os índios acusam Siqueira de Sá de ter errado na aplicação dos recursos, enquanto muitas aldeias estariam vivendo uma situação de abandono, principalmente aquelas localizadas no Vale do Ribeira. Insatisfeitos, os índios querem a exoneração do administrador.
Levay adiantou que todos os funcionários serão ouvidos, pela Comissão, individualmente. Os depoimentos já têm data marcada para começar. Será a partir da próxima segunda-feira, dia 12. Além dos funcionários da Funai, a Comissão deve ouvir também pessoas que residem próximas à Regional. Segundo Levay, isso poderá ajudar no esclarecimento do primeiro processo, principalmente.
A Comissão de Sindicância, formada por três funcionários da Funai, vindos de Recife, tem 30 dias para concluir as investigações. Esse prazo poderá ser prorrogado por mais 30 dias, caso seja necessário. Durante esse tempo, Siqueira de Sá permanecerá afastado de suas funções. Enquanto isso, seu posto será ocupado por outro funcionário da Regional de Bauru, Gilberto Abreu Amaral.
O afastamento do administrador foi uma medida ética, que visa evitar qualquer tipo de interferência que possa haver durante os processos, disse Levay.
Novo protesto
Os índios voltaram a protestar ontem, em frente à Funai, contra a permanência do administrador Siqueira de Sá. Não basta seu afastamento, queremos que ele seja exonerado. Queremos também que seja nomeado, em seu lugar, uma pessoa de pulso forte, que comanda e não seja comandado, atacou Anildo Lulu, escolhido como porta-voz dos caciques presentes à manifestação.
Entre os caciques estavam Aílton Garcia, 39 anos, de Sete Barras (Vale do Paraíba); Aniceto Francisco Evaristo, 66 anos, de Itariri; Davi Onório Cardoso, 34 anos, e Adélio Caraí Fernandes, 27 anos, ambos de Iguape (litoral Sul). A manifestação de ontem à tarde contou ainda com a participação da única mulher que exerce a função de cacique, entre todas as aldeias do Estado. Jandira Augusta Venícius, 66 anos, veio a Bauru representando a aldeia guarani, localizada no Pico do Jaraguá, na Capital paulista.
Embora não faça parte das comunidades indígenas administradas pela Funai/Bauru, o cacique Mário Sampaio, 43 anos, que comanda uma aldeia da tribo guarani, localizada na região Norte do Estado do Paraná, também esteve presente. Ele disse que se sentia na obrigação de apoiar o protesto, porque os índios, segundo ele, precisam estar unidos para reivindicar melhorias, independente do local onde estejam. Pois, na opinião dele, índio não tem fronteira.
Era esperada para ontem à noite a chegada, a Bauru, do deputado federal Celso Russomanno (PPB-SP), que entre outros compromissos deveria deixar registrado seu apoio ao protesto que vem sendo realizado, desde o dia 15 de fevereiro, por uma parte dos índios paulistas das tribos terenas e guaranis, contra a permanência do atual administrador da Funai/Bauru.