08 de julho de 2026
Geral

O melhor amigo da boa música

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 5 min

Hélcio Pupo Ribeiro comemora 1.900 audições do Clube Amigos da Boa Música, desde 1943, com um festival de cinco dias; Para o professor, música é questão de sensibilidade

Eu ouço música em alto volume. Gosto de sentir a sensação física, avisa Hélcio Pupo Ribeiro. O professor aposentado e maior divulgador da música erudita em Bauru, com o Clube da Boa Música, prepara-se para inundar a sala Villa Lobos, na verdade, a sala de música da sua casa, com a Cavalgada das Valquírias. O potente pré-amplificador Lafayette, que, apesar de ter 40 anos, nunca deu problema, segundo conta o professor, dirige a música para os 14 amplificadores espalhados pela sala.

A música etérea de Wagner surge e leva o professor ao êxtase. Ele rege a orquestra como se fosse um maestro. Os pêlos dos braços estão todos arrepiados, ele mostra. Para Hélcio Pupo Ribeiro, a música é espiritual, só pode ser captada pela sensibilidade.

Desde que comprou um bolachão de 78 rotações com a abertura da ópera Rienzi, do mesmo Wagner, seu acervo não parou de aumentar. Hoje, tem 1 mil CDs, 700 vinis e 1.600 fitas-cassetes. E garante que já ouviu tudo. Só isso, garante ao professor muitas horas de música. Mas, além de ouvir com atenção cada gravação, ele também afunda-se em livros. Sabe detalhes sobre cada compositor e sobre os movimentos, contextualizados dentro da história da arte.

Filho de um português que veio aos 10 anos para o Brasil, e que tornou-se músico autodidata e comerciante em Bauru, Pupo Ribeiro herdou não só o ouvido do pai, mas também a motivação de aprender por conta própria. Arranhou um cavaquinho na juventude e, em São Paulo, onde foi interno do Colégio São Bento, teve aula de piano com um italiano. Foi um desastre, recebi um professor que era um bruto, empurrava meus dedos para que eu tocasse. Estudei um ano e desisti, conta.

Teve também outra herança do pai, o tino para os negócios. Como gostava muito de música, montou um negócio, a loja Discoteca de Bauru. Lá, ele jura que nunca empurrou boa música, como define a música que aprecia e idolatra. Não sou contra a música popular, absolutamente, sou contra a má música. Para mim, só tem dois tipos. Boa e má. Existe uma qualidade imprescindível em jogo, a sensibilidade. Se você nasce duro como uma pedra, não sente nada. Você nunca vai ouvir uma boa música com satisfação. Outra coisa é você ficar preso ao ritmo, ao corpo e não à mente. A melodia geralmente é a mente, a harmonia é o ritmo, ensina.

Esta semana, o professor comemora a chegada a 1.900 audições no Clube Amigos da Boa Música, fundado por ele em 1943. Para comemorar, ele organizou um festival. O pontapé inicial acontece na terça-feira, no Teatro Municipal, com a Banda Marcial do Liceu Noroeste.

Na quarta-feira, no Teatro Universitário Veritas (TUV), da USC, o artista plástico Walter Mortari mostra uma retrospectiva de pinturas e Antônio Cândido Pupo de Oliveira, primo do professor, lança o livro Crônicas Bauruenses. No mesmo teatro, na quinta-feira, acontece um recital de piano com Maria Cecília Forastieri. Sexta-feira é a vez do quarteto de cordas de Ribeirão Preto e, sábado, da Orquestra de Câmara da USC. A entrada é franca e o Festival Amigos da Boa Música começa todos os dias, às 20h30. Quem é amigo da boa música não pode ficar de fora.

Serviço

Festival Amigos da Boa Música. De terça-feira a sábado. Grátis. Terça-feira, 20h30, Banda Marcial do Liceu Noroeste, no Teatro Municipal. Quarta-feira, 20h30, no Teatro Universitário Veritas (TUV) lançamento do livro Crônicas Bauruenses, de Antônio Cândido Pupo de Oliveira, e exposição de Walter Mortari. Quinta, 20h30, recital de Maria Cecília Forastieri, no TUV. Sexta-feira, 20h30, Quarteto de Cordas de Ribeirão Preto, no TUV. Sábado, 20h30, Orquestra de Câmara da USC, no TUV. O Teatro Municipal fica na avenida Nações Unidas, 8-9. A USC fica na rua Irmã Arminda 10-50.

Crônicas Bauruenses retrata história do cotidiano

A Bauru dos anos 40 e 50, com as histórias do cotidiano da pequena cidade. Este é o palco do delicioso livro Crônicas Bauruenses, de Antônio Cândido Pupo de Oliveira. O trabalho do advogado-escritor, que será lançado quarta-feira no Teatro Universitário Veritas (TUV), lembra as peças de Mauro Rasi.

De forma bem-humorada e direta, o autor transporta o leitor para uma Bauru perdida, que Oliveira define como a Bauru anterior à Sem Limites. A cidade se desenvolveu muito, mas eu prefiro a Capital da Terra Branca, do areião. A Sem Limites não é do meu tempo, conta.

O livro ancora-se nas histórias de adolescentes que enfrentavam o tédio nas tardes de verão, quando, reza a lenda, o asfalto da Rodrigues derretia. Os rapazes desfilavam fazendo o footing pela Batista, onde flertavam com as meninas de boa família, iam ao Tênis para curtir a piscina, jogavam peladas nos campinhos de areia e sinuca na 1.º de Agosto.

A visão adolescente traz frescor e humor à obra. Somado à memória do autor de 65 anos, que impressiona. Oliveira lembra, por exemplo, o nome de quase todos, ou todos, os estabelecimentos comerciais que haviam na cidade. Passa quase meia página citando-os, já no primeiro capítulo. Mais que isso, ele nos traz impressões e informações da vida privada entre os anos 40 e 50, quando a Segunda Guerra dominava o noticiário e a televisão ainda estava para aparecer.

Sem pretensões filosóficas e literárias, ele faz um relato temperado pela riqueza do cotidiano. Por ironia, acaba sendo mais filosófico e literário que muita coisa que vai por aí. Um livrinho bom para ler domingo no sofá da sala. Até porque, se o asfalto da Rodrigues não derrete mais, algumas tardes de verão continuam bem aborrecidas.