08 de julho de 2026
Geral

A ação demente do Talibã

Valmor Bolan
| Tempo de leitura: 3 min

O mundo ficou chocado com a ação extremista do Talibã (grupo islâmico que controla 90% do Afeganistão), de destruir importantes obras de arte daquele país, estátuas de Budas que datam do século V, entre outras que ficavam em museus com mais de 2.400 anos de história. Budas gigantescos foram atacados com revólveres, tanques e tantas outras armas, numa atitude que deixou a Unesco perplexa, indignada, inconformada com tamanho absurdo, em pleno século XXI.

Nada pôde ser feito para deter a insanidade dos líderes do Talibã (no poder desde 1996), que já decretaram outras medidas estapafúrdias, como a de destruir aparelhos de tevê, a de obrigar as mulheres de usarem véus que cubram todo o corpo e dos homens de terem de deixar suas barbas crescerem, etc. O próprio Talibã gaba-se de ser o Estado islâmico mais puro do mundo. E não se preocupa em deixar sua população mais miserável ainda, em decorrência do embargo internacional que vem sofrendo; isolando-se cada vez mais da comunidade internacional. Mesmo o Paquistão, uma das poucas nações a reconhecerem o governo do Talibã, não aprovou a destruição das estátuas, consideradas pela ONU como patrimônio cultural da humanidade. Ninguém teve força e nenhum argumento foi capaz de convencer os líderes radicais afegãos a voltar atrás em sua decisão. As lideranças se consideram eleitas por Deus para uma missão messiânica buscando purificar os costumes contaminados pela influência ocidental. Qudratullah Jamal, ministro da Informação e Cultura do Talibã, depois de demolir pedaço a pedaço dois famosos Budas gigantes de Bamiyan, e de não ter poupado nenhuma estátua, ficou comprovada a firmeza com que o Talibã vem impondo o islamismo aos afegãos, pouco se importando com a opinião pública internacional.

O Vaticano condenou a ação demente do Talibã, afirmando que o extremismo fanático desrespeita a dignidade da pessoa humana, os valores da liberdade e da justiça, e utiliza-se da violência para coagir as pessoas a agirem sem o direito à liberdade de consciência, necessária para que a adesão à fé seja verdadeiramente autêntica. Quando o extremismo fanático domina, destrói não só a obra do ser humano mas também o próprio ser humano, salientou o editorial de LOsser valore Romano, e jornal da Santa Sé. Líderes espirituais de outra religiões do mundo também ficaram horrorizados com o fato, não acreditando que a destruição das obras de arte em nome de uma fé cega tenha sido efetuada sem que ninguém pudesse ter feito nada para impedir tal calamidade.

A Igreja Católica, ao longo de dois mil anos de história, apesar de erros cometidos por seus filhos (como a intolerância e até o uso da violência para impor a verdade, erros estes reconhecidos pelo próprio papa João Paulo II) sempre procurou preservar as obras de artes dos povos, mesmo as contrárias ao cristianismo. Muitos autores da antigüidade pagã foram poupados pela Igreja. A adesão à verdade não pode ser conseqüência da violência, mas fruto da liberdade. Somente ela pode conduzir os homens à verdade. O Talibã, portanto, é um trágico equívoco do nosso tempo. (O autor, Valmor Bolan é doutor em Sociologia. DiretorSecretário da Sociedade Educacional Sulsancaetanense email: valmorbolan@uol.com.br)