08 de julho de 2026
Geral

Droga: prevenir sim, reprimir também

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Para o delegado Valencise, só a prevenção não é suficiente para evitar o consumo de drogas. É preciso reprimir

Jaú - Por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade, cujo tema deste ano é Vida Sim, Drogas Não, o chefe da Delegacia Seccional de Polícia de Jaú, delegado Benedito Antônio Valencise, ressaltou a importância da repressão no combate ao consumo e venda de drogas. Todo trabalho de prevenção é excelente. Mas ele só apresenta um resultado positivo desde que a repressão funcione com bastante eficácia.

Para justificar a opinião de quem trabalha há 18 anos na repressão ao consumo e venda de drogas, Valencise explicou que de nada adianta ir a uma escola e ficar pregando aos alunos as conseqüências do consumo indevido de drogas, se o traficante está ali, na porta, vendendo livremente o produto. Não temos condições morais para isso, declarou o delegado, para reafirmar em seguida a importância da prevenção, mas antes dela, garantiu Valencise, tem que funcionar a repressão.

Católico praticante e devoto de São Francisco de Assis, Valencise decorou sua sala na Seccional com tamanho esmero, que não deixa dúvidas sobre suas convicções religiosas. Na parede, é possível ler uma das famosas orações de seu santo favorito, cuidadosamente emoldurada. Sobre sua mesa, é fácil notar a presença de temas religiosos como gravuras da Santa Ceia e de Jesus Cristo. Além, é claro, de uma imagem de São Francisco de Assis. O terço também tem seu lugar garantido sobre a mesa do delegado.

Valencise explica que sua devoção é decorrente do exemplo de vida e de humildade que teriam feito parte da passagem do santo pela Terra.

Com relação ao tema da Campanha, que começou dia 28 de fevereiro, Valencise considera-o muito oportuno. Nós ouvimos, muitas vezes, diga não às drogas. Isso é besteira. Porque existem drogas que são necessárias à manutenção da vida. É preciso destacar a valorização da vida. E, em conseqüência dessa valorização, a pessoa não venha consumir drogas, opinou.

O delegado acredita que a igreja, independente de sua denominação, desempenha um papel social de extrema relevância dentro da sociedade. Ele cita, como parâmetro para seu ponto de vista, os resultados de pesquisas recentes, que apontam para a quase inexistência de usuários de drogas no meio de uma comunidade religiosa praticante. Tal procedimento não teria sido verificado entre as pessoas que estariam fora de um convívio religioso.

Ao lado da Igreja, a família e o meio social em que se vive também podem ser decisivos no trabalho de prevenção. O diálogo entre pais e filhos, aposta Valencise, é uma arma poderosa no combate à dependência química. Estabelecer limites e cobrar uma postura de dignidade dos filhos pode evitar que o mal, representado pela dependência, se alastre. Além do amor e do carinho, é preciso que os pais criem normas. Isso é fundamental, admitiu Valencise.

A família hoje, em sua opinião, tornou-se um grupo de risco, em razão das supostas falhas na educação que estariam sendo cometidas. Quando o filho não tem uma orientação adequada dentro de casa, aonde ele vai procurá-la?, questiona o delegado, para responder logo em seguida que o local não poderia ser outro, senão a rua.

A prevenção deve começar na gravidez, garante o delegado. Ele explica que, a partir do momento que o pai ou a mãe consome drogas, a tendência é que a criança cresça predisposta a seguir o mesmo caminho. Por isso, recomenda-se que os pais tenham plena consciência de seus atos, para que seus filhos não sejam influenciados negativamente por eles.

Após anos de vivência dentro desse universo de combate ao consumo de drogas, Valencise conta que, em muitos casos, as pessoas que chegam a se envolver com esse problema conseguem superá-lo quando encontram auxílio dentro da própria família.

O meio social também é apontado pelo delegado como fator preponderante para o desenvolvimento ou não de uma relação mais íntima com o consumo de drogas. Embora seja notório que a dependência química atinge todas as camadas sociais, Valencise acredita que, dependendo das condições sócio-culturais em que se vive, a pessoa pode se sentir estimulada a buscar refúgio no mundo ilusório das drogas.

Palestras preventivas

A Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Jaú é o órgão responsável pela repressão ao consumo e, principalmente, à venda de drogas. No entanto, o trabalho da Dise não se restringe apenas à repressão. Ele também segue pelo caminho que busca a conscientização dos diferentes setores da sociedade, quanto ao perigo que as drogas representam.

Há aproximadamente sete anos, a Dise vem desenvolvendo um programa de prevenção, que prima pela realização de palestras em escolas e igrejas, por exemplo. É um trabalho desenvolvido sem qualquer preconceito. Pois entendemos que essa preocupação tem que estar acima de qualquer convicção política, filosófica ou religiosa. Senão, o resultado torna-se altamente negativo, afirmou o delegado Benedito Antônio Valencise, que também dá sua contribuição ao programa da Dise.

Além dele, também participam das palestras dois médicos e uma pedagoga. Enquanto os médicos tratam de explicar aos interessados os efeitos que as drogas provocam no organismo daqueles que as consomem, a pedagoga fala da influência que os meios de comunicação - notadamente a televisão - exercem dentro da família.

Como o consumo de drogas, muitas vezes, é associado à busca de um prazer, Valencise ressalta que o ensinamento correto é dizer às pessoas que esse prazer é real, mas passageiro. As pessoas têm que ter a consciência do risco que essa busca representa. Ou seja, a dependência química, morte prematura, problemas neurológicos, psicológicos, assim por diante.

Desta forma, os profissionais procuram forçar os questionamentos. Será que adianta correr esse risco? É importante que haja essa conscientização, declarou Valencise.