04 de junho de 2026
Geral

Relembrando os mamonas

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Os Mamonas Assassinas tiveram uma carreira meteórica, que durou de julho de 1996, quando estouraram nas emissoras de rádio de todo País com a música Vira-vira, até o desastre aéreo que os matou prematuramente no dia 2 de março de 97. Formado por Dinho (Alecsander Alves), Bento Hinoto, Júlio Rasec e os irmãos Sérgio e Samuel Reoli, jovens de classe média baixa de Guarulhos, o Mamonas Assassinas se tornou uma febre entre os jovens brasileiros com suas canções hilariantes e sua atitude irreverente sem parâmetros no cenário pop nacional até então. Um dos milhares de fãs dos Mamonas em Bauru na época era o jovem Jefferson Martins. Hoje, cinco anos após a morte dos integrantes da banda, aos 20 anos, ele se considera um dos poucos fãs daquela época que ainda se mantém fiel aos garotos de Guarulhos. Professor de literatura e músico da banda Pickles, onde segundo ele mesmo, arranha uma guitarra, Jefferson, ou Ralado, como também é conhecido, falou ao Caderno Ser sobre sua paixão pelos Mamonas e a falta que eles fazem na música brasileira.

Jornal da Cidade - Quando você se interessou pelos Mamonas Assassinas?

Jefferson Martins - Assim que os ouvi no rádio. Logo eles estavam na tevê e eu me identifiquei com o grupo, sou uma pessoa extrovertida e brincalhona. Eu era adolescente e como todo jovem da minha idade queria ser o centro das atenções, foi nessa época que explodiu a paixão pelo grupo.

JC - O que você mais gostava na banda, fora o humor?

Jefferson - Eu achava legal o lado espontâneo deles, que não era copiado de ninguém. Não havia uma banda que poderia ser considerada influência para eles. O Ultrage a Rigor, nos anos 80, até tinha músicas com letras engraçadas, mas nada com o estilo dos Mamonas. Eu também gostava das letras e da mistura de estilos que eles faziam misturando o brega com o rock, o samba com o rock... foram coisas inéditas.

JC - Você acha que eles eram bons músicos ou só armação de gravadora, como alguns dizem?

Jefferson - Eles eram bons, se você assistir qualquer show deles em vídeo vai poder ver que além de cinco garotos lutando pelo sonho de serem alguém na música, eles eram músicos mesmo. O Bento, por exemplo, tocava desde criança, até fez a mãe trazer uma guitarra do Japão nas costas. Os irmãos Sérgio e Samuel eram filhos de um cantor sertanejo e sempre conviveram com a música. O Júlio era catequista e tocava órgão na igreja e o Dinho sempre cantou. Eles não surgiram de uma hora para outra.

JC - Com qual deles você se identificava mais?

Jefferson - Com o Dinho, porque eu também tenho um jeitão bagunceiro. Ele era muito espontâneo, era muito fã do Jim Carrey, mas mesmo assim era original.

JC - Você e seus amigos montaram uma banda cover dos Mamonas?

Jefferson - Montamos, eu e uns amigos do colégio. Pegamos dois violões e fomos para a Praça Rui Barbosa. O público era de três pessoas: duas crianças e um bêbado. Depois, todos os sábados íamos para a praça tocar covers dos Mamonas. Ficamos uns seis meses tocando na praça.

JC - Qual era o nome da banda?

Jefferson - Pimbolins Lopones, que hoje se chama Pickles.

JC - E como era o negócio de se vestir como os Mamonas?

Jefferson - Comprei a roupa de presidiário e usava ela no dia-a-dia, até na escola. Quando entrava no ônibus todo mundo já me olhava dando risada.

JC - Você foi ao show quando eles vieram para Bauru?

Jefferson - Fui, eles vieram no dia 9 de setembro de 1996, entraram no palco às 2h50 da madrugada depois de mais dois shows que tinham feito na região. Eles tocaram até às 5 horas e o Dinho até ficou bravo porque no final ninguém gritou mais um. Ele ficou agitando até o pessoal gritar e eles voltarem para fazer o bis.

JC - Quando eles morreram o que você sentiu?

Jefferson - No começo não acreditei, tinha ido dormir e uma tia me acordou com a notícia de que eles tinham morrido. Levantei e comecei a gravar tudo o que a televisão estava mostrando. No dia seguinte fiz a pior loucura da minha vida. Acordei cedo e tomei um ônibus para Guarulhos para ir ao velório e ver o enterro. Nunca tinha ido para São Paulo antes. Fui ao velório e depois acompanhei o enterro até onde pude. Vi muita gente, muito artista. Quando passei na frente dos caixões tive a sensação que era mentira, que aquilo era um sonho. Os jornais disseram que havia 100 mil pessoas lá.

JC - E a sua família?

Jefferson - Estava preocupada, porque eu saí sem avisar, simplesmente peguei a mochila e fui dar a minha última homenagem aos Mamonas. Quando voltei pensei que ia apanhar, mas levei um só sermão. Valeu a pena, foi uma experiência de vida para mim naquela idade.

JC - Os anos não interferiram na sua paixão pelo grupo?

Jefferson - Eu creio que aqui em Bauru uma pessoa que leve os nomes do Mamonas como eu seja raro encontrar. A gente tem que idolatrar a Deus, mas eu sou muito fã deles. O que mudou nesses cinco anos foi o cenário musical, você liga a televisão e não vê um grupo que te alegre como eles. Eles tinham muito de sonho. A nossa banda tem um pouco disso, temos um sonho para realizar assim como eles tinham e realizaram. Uma pessoa realizada é tudo. Essa foi a mensagem que eles deixaram, de não desistir nunca.

JC - Muita gente acredita que se eles não tivessem morrido não conseguiriam fazer sucesso com um novo disco. O que você acha?

Jefferson - Eu acredito que eles emplacariam outros sucessos. Um exemplo é É o Tchan, que ninguém achava que iria fazer sucesso. Eles já venderam mais de um milhão de cópias. Eu tenho três músicas inéditas deles e acho que elas fariam sucesso e venderiam, no mínimo, um milhão de cópias do segundo álbum. O primeiro disco até hoje já vendeu 4 milhões de cópias.

JC - Das músicas, qual você acha a melhor?

Jefferson - Gosto de todas, não tenho favoritas, mas entre as inéditas tem uma que se chama Não peide aqui baby, que é uma versão de Twist and Shout, que era cantada pelos Beatles, que eu acho muito engraçada.

JC - Depois que eles morreram o espaço deles nunca mais foi preenchido?

Jefferson - Com certeza não. Não surgiu ninguém que os lembre nesses cinco anos. Acho que eles têm medo de serem comparados e não conseguirem entrar no mercado e ficar. O valor de qualquer banda é ser original, hoje em dia isso é difícil, mas os Mamonas eram. Eles eram os Beatles do besteirol.