Livro de Antonio Cândido Pupo de Oliveira, que terá lançamento hoje, retrata a Bauru dos anos 40 e 50; evento faz parte do Festival 1.900 Audições, do Clube Amigos da Boa Música
Crônicas Bauruenses (ed. República Literária, 117 págs.), de Antonio Cândido Pupo de Oliveira, é uma fértil coletânea de recordações, desde as mais pitorescas e hilariantes, às mais sentimentais, que evoca um saudosismo profundo muitas vezes quase nostálgico.
Bauruense de corpo e alma, bairrista de garra, Toninho Boião para os parentes como eu e amigos íntimos, dedicou-se, com o passar dos anos, a fazer crônicas pinçadas nas profundezas do seu ser e transcritas para o papel, com absoluta correção, numa linguagem escorreita, despojada de floreios gramaticais nem sempre apreciáveis. Bauruense por vontade férrea e ardorosa paixão, viveu alguns dos melhores anos de sua infância curtindo integralmente os prazeres de uma meninice salutar, embora agitada, turbulenta.
Disse um poeta de outras eras: Todos sabemos que é muito mais fácil memorizar poesia do que a prosa. O verso fica na cabeça reitera o historiador, filósofo e beletrista John Macy, a prosa entra por um ouvido e sai pelo outro. Não acontece com Antonio Cândido, um prosador criativo e eloqüente, que sabe rememorar o passado com inspiradora veracidade. Boião e seus amigos da cidade vivem as estrepolias da infância, empertigados e de nariz em pé, na doce ilusão de que são donos do mundo. Oh! santa ingenuidade plena de predicados!
Falemos algo sobre o cenário onde vão realizar-se façanhas dos garotos bauruenses, tal como fizeram os personagens endiabrados de Mark Twain, os travessos Huckberry Finn e Ton Sawyer.
Bahuru, título talvez tomado à vigésima quarta cachoeira do histórico Tietê dos bandeirantes; Bahuru, Cesto de Frutas, como definiu Teodoro Sampaio ou Cidade Sem Limites, de Eusébio Guerra, ou, ainda, Capital da Terra Branca, é uma cidade sui-generis: não tem tradição, não tem bairrismo. Lamentável constatar, mas é verdade. Um exemplo: há muitos anos, José Chab Junior, meu bom amigo, sabendo do meu bairrismo exaltado, mas ponderado, lógico e natural, me provocava com um convite: Hélcio, você precisa conhecer Rio Preto, para ver o que é progresso e desenvolvimento. Vá visitá-la e depois conversaremos. Um detalhe: na época Bauru era maior que Rio Preto. Pouca coisa!
Um belo dia, indo àquela cidade, já na chegada o perfil urbano me espantou. O centro da cidade impressiona pela quantidade de edifícios altos, ao contrário de nossa cidade que os constrói em toda a periferia. Saio do hotel e passeio por suas ruas no afã de conhecê-la. Numa dessas bem centrais, talvez a General Glicério, não me lembro, divisei uma loja comercial, de doces e balas, com a seguinte referência: Depósito de Doces Miziara. Entrei. Fui atendido pressurosamente por um senhor bigodudo, de aparência árabe, fazendo seu cigarro de palha. Após pequena compra, dirigi-me a ele perguntando:
O senhor é parente dos Miziara de Bauru? A resposta veio pronta e rápida: vem de Bauru? E, antes que eu respondesse, emendou: o que está achando de nossa cidade? Dei minha impressão favorável e saí conjecturando: Quem, na minha cidade, de comércio amplo e variado, faria uma interpelação desta?!!! Já meu falecido pai, lusitano de boa cepa, dizia à propósito: Em Bauru ninguém mora, todo o mundo demora.
Eis porque este livro de Antonio Cândido vem a calhar e deve ser bem acolhido. Ele conta com a naturalidade de quem viveu todos os casos, provocando em nós o recuo dos anos para melhor saborearmos os incidentes ruanos, populares e sociais, revivendo em nossa mente aqueles instantes fugazes, em que a saudade é o clarão enorme que ilumina e rejuvenesce.
Possuidor de invejável memória, o nosso Toninho relata, sem preocupação de fazer literatura mas com invejável detalhismo e criatividade, as peripécias vividas naqueles anos para eles evidentemente dourados. Recordar é resistir e resistir é impor limites ao desconhecimento. É reativar a lembrança, evitando que os documentos se percam destruindo o passado, aniquilando o poder da evocação. É cuidar e proteger a memória histórica.
Suas crônicas relembram, com verve única, fatos pitorescos do dia-a-dia bauruense nos idos de 1938 a 50, transmitindo em cores vivas o Dia em Que a Polícia fez Greve, recriando o clima de bafafá sem controle num dos bares melhor freqüentados pela boêmia citadina. Deliciosa é a descrição da espera das garotas do Colégio São José, momento especial para namorados ou mesmo para uma juvenil paquera. Entre alegres e entristecidos, acompanhamos a fundação do Guarany Futebol Clube, esquadrão formado por jovens de boas famílias, tais como o Giaxa (seria o Mário?), Ademar Donini, o Polenta, Adir Reis, Maurício Zorzela, Nilson Brisola, o Burgo (Pederneiras) e muitos outros que davam a vida por uma pelada. Fala de seu irmão mais velho, o Jeferson, de espírito belicoso, sempre disposto a tirar satisfações, mas apavorado com um negrinho que o enfrentara resoluto.
Atento e oportunista, Boião nos transmite, revivendo os acontecimentos peculiares de Bauru antigo, nos dá uma mostra do rigor militar do Tiro de Guerra, o curioso caso do bando da Coruja, que envolveu figuras de destaque do mundo social. Relembra as agruras da Segunda Guerra Mundial, faz menção à Semana da Pátria com os desfiles alegres sempre esperados e apreciados na Rodrigues Alves.
Aborda e comenta a figura do poeta Rodrigues de Abreu, filho de Capivari mas aqui falecido de tuberculose, sendo sepultado no Cemitério da Saudade. Como não podia deixar de ser, o capítulo final é dedicado ao progenitor, José Rodrigues de Oliveira, cirurgião dentista, do qual fez resumida biografia enaltecendo os méritos profissionais além do pioneirismo de trabalhar com um gabinete portátil, visitando sítios e fazendas do interior de São Paulo.
Há muito o que ler, recordar, viver, em Crônicas Bauruenses. O valor da narrativa apaixonada, exaltada às vezes, leva-nos, pela força descritiva, a nos sentirmos partícipes de vários episódios. É tamanho o fervor telúrico, bairrista, de Antonio Cândido, que ele chega a afirmar, convicto: Bauru é única, quem por ela passou, por mais curto que tenha sido o tempo, jamais dela se esquecerá.
Os que porventura não são daqui mas aqui residem, devem ler Crônicas Bauruenses, pois conhecerão, através de suas páginas, a história progressista de um povo que soube fazer jus ao título de Cidade Sem Limites.
Alguém que ama os livros, sugere: Ler um livro pela primeira vez é adquirir novos conhecimentos; lê-lo pela segunda vez, é encontrar um velho amigo. A memória é uma janela aberta por onde a alma vê todo o passado escuro e é, também, confirma Jean Paul Richter, o único paraíso do qual não podemos ser expulsos.
Serviço
O livro Crônicas Bauruenses terá lançamento hoje, 20h30, no Teatro Universitário Veritas (USC), como parte do Festival 1.900 Audições, do Clube Amigos da Boa Música. Apoio: Secretaria Municipal de Cultura. Rua Irmã Arminda, 10-50.
(*) Hélcio Pupo Ribeiro é presidente do Clube Amigos da Boa Música. / Especial para o JC Cultura
Walther Mortari ganha retrospectiva
Ainda integrando a programação do Festival 1900 Audições, do o Clube Amigos da Boa Música, além do lançamento do livro Crônicas Bauruenses, a programação de hoje na USC inclui uma retrospectiva de pinturas do artista plástico Walther Mortari.
Amanhã, Maria Cecília Forastieri estará apresentando um recital de piano. Na sexta, se apresenta o Quarteto de Cordas de Ribeirão Preto e sábado, a Orquestra de Câmara da USC encerará o evento. As apresentações começam sempre às 20h30, com entrada grátis.