07 de julho de 2026
Geral

COVAS E NECROLÓGIOS

Pedro Celso Campos
| Tempo de leitura: 5 min

Nos últimos dois anos a imprensa acompanhou de perto a doença do governador Mário Covas. Ele mesmo tratou sua doença como assunto de estado, portanto de interesse público. Não escondeu o mal que o acometia, não mentiu sobre os prognósticos médicos, não se entregou, continuou trabalhando até o fim e não teve vergonha de chorar em público ou de constranger os repórteres bradando: Podem escrever aí, estou morrendo.

Pelo horário em que faleceu, às 5:30h da última terça-feira, dia 6, o governador não facilitou em nada o trabalho de qualquer jornal empenhado em dar a notícia em primeira mão. Pelo contrário, mesmo os jornalões saíram com o noticiário normal do dia anterior, dando conta do seu grave estado de saúdo no Incor.

Naturalmente, só a Internet conseguiu sair de pronto com a matéria porque, como é comum nesses casos, o obituário já estava pronto. Houve até o caso de um dos mais destacados portais da Internet que deixou vazar a informação mais de um mês antes do falecimento do governador.

Este artigo trata exatamente dessa preocupação que os jornais têm para sair com material o mais completo possível em caso de morte de personalidades do mundo político, artístico, cultural, religioso etc. Ninguém duvida, por exemplo, que a maioria dos jornais já tem pronto o obituário do Papa João Paulo II, com todos os detalhes de sua vida e até com depoimentos de terceiros sobre o pontífice. O mesmo ocorre no caso de determinados caciques da vida pública nacional...

O leitor comum não tem idéia de como se desenvolve esse zelo noticioso da imprensa. Afinal, isto não é um assunto agradável de se discutir. O jornal tem a obrigação de manter seus leitores bem-informados e não teria sentido privá-los de qualquer informação quando morre uma pessoa ilustre. Daí a preocupação com o planejamento da reportagem de gaveta, guardada a sete chaves para evitar constrangimentos, embora nos arquivos da Internet as sete chaves possam cair como véus árabes ao clicar de um botão errado...coisas da tecnologia! A preocupação com o necrológio antecipado não é recente.

Um dos fundadores do Novo Jornalismo Americano da década de 60, Gay Talese, traça, com a característica riqueza de detalhes do seu texto, o perfil do redator do New York Times encarregado de redigir o necrológio antecipado das pessoas famosas, resultando na excelente crônica O Sr. Agourento, considerada uma pequena obra-prima do Novo Jornalismo, publicada no final dos anos 60.

Talese conta que seu personagem, Alden Whitman, quando vai a concertos, não resiste a olhar a platéia, observando personalidades presentes sobre quem talvez se torne particularmente curioso em breve. E descreve o ambiente da redação do Times concluindo o detalhado parágrafo com a impassível postura do Sr. Agourento no fundo da sala, bem ao estilo desse jornalismo que Igor Fuser ( A Arte da Reportagem. São Paulo: Scritta, 1996) registra como lugar de histórias reais, narradas dentro de um estilo dramático, marcadamente literário, com imagens e alusões que facilitam o entendimento do leitor:

- A sala tem o comprimento de um campo de futebol e talvez o dobro da largura e é riscada por fileiras de mesas metálicas, todas da mesma cor, cada qual com um telefone empunhado por um repórter falando com suas fontes de informação sobre os últimos rumores, relatórios, alegações, ameaças, roubos, estupros, acidentes, crises, problemas é a Sala dos Problemas e do mundo inteiro, via cabos, telex, telégrafo ou telefone, as notícias sobre os problemas mundiais para ali convergem, hora após hora: desastre no Danúbio, agitações na Tanzânia, perigo no Paquistão, estremecimentos em Trieste, boatos no Rio, o cenário de Saigon, golpes de Estado, fontes bem informadas disseram, problemas africanos, Otan, Seato, Sukarno, Shianouk e Whitman sentado, tomando seu chá no fundo da sala, prestando pouca atenção a tudo isto; só lhe interessa o fato derradeiro. Está escolhendo as palavras que usará quando aqueles homens finalmente morrerem...

O personagem de Talese sabe que a morte pega o homem de surpresa, como escreveu La Fontaine, por isto ele mantém seus arquivos em dia, embora jamais permita que pessoa alguma leia seu próprio obituário.

Aquele que lê seu próprio obituário jamais voltará a ser o mesmo, diz um personagem citado pelo cronista.

Mas ele mesmo conta a história de constrangedores vazamentos de obituários que ao invés de aborrecerem os homenageados, apenas os divertiram:

Ernest Hemingway adorou ler as notícias dos jornais referentes a sua morte num desastre de avião na África...alguns jornalistas, não confiando talvez nos colegas, escreveram seus próprios obituários antecipados. Um desses necrológios antecipados, escrito por um repórter do Daily News, de Nova York, chamado Lowell Limpus, foi publicado com o seu próprio nome naquele jornal, em 1957, e começava assim: Esta é a última das oito mil e setecentas reportagens que escrevi para o News. É a derradeira porque morri ontem...Escrevi meu próprio obituário porque conheço melhor o assunto que qualquer outra pessoa e prefiro vê-lo sincero do que floreado...

Embora este artigo não tenha o objetivo de tratar da morte do governador Covas, já que nos referimos ao estilo literário de Gay Talese, não custa imaginar o que diria o personagem de Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ouvindo a lenga-lenga de Paulo Maluf sobre Covas nas ante-salas do Incor...

No jornalismo e na literatura, assim como entre o céu e a terra, há muito mais que os aviões de carreira! (Pedro Celso Campos - professor de Jornalismo na Unesp de Bauru-SP)