08 de julho de 2026
Geral

Pai de rua se propõe a mudar de vida

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

Após morar 11 anos nas ruas, Reginaldo da Silva aceitou ser internado para recuperação. Ele era líder de menino de rua

Aos 26 anos, sendo onze morando na rua, vivendo da mendicância e exercendo o papel de líder entre menores que também levam a mesma vida, Reginaldo da Silva, conhecido como Perninha, foi internado, ontem, no Esquadrão da Vida de Bauru. Ele está se propondo a tentar a recuperação e deixar a criminalidade das ruas; ter um trabalho, voltar a viver com sua família, que mora em Agudos, e rever a filha, de 7 anos.

Reginaldo, que ganhou o apelido de Perninha nas ruas em função de ter sofrido paralisia infantil - tem uma das pernas atrofiada - afirmou ao JC que resolveu deixar a vida de cheirar cola o dia inteiro. Ele aceitou a proposta de internação no Esquadrão da Vida após convite feito pela polícia. A situação de Reginaldo nas ruas, que estaria incitando os menores a mendicância, foi discutida na última reunião do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do 3.º Distrito Policial e Bases Comunitária Centro e Sul.

Para tentar minimizar o problema de menores de rua na cidade, o Conseg decidiu propor a Reginaldo uma chance de recuperação, conforme contaram o delegado Marcelo Haddad, titular do 3.º DP, e Primo Mangialardo, presidente do Conseg. De acordo com eles, ainda existem outras pessoas que moram na rua que devem ser convidadas a mudar de vida.

O rapaz foi abordado por policiais ontem, quando dormia na calçada e convidado a ir à delegacia, onde aceitou a proposta de ser internado no Esquadrão da Vida. Ao JC, Reginaldo disse que não praticava nenhum tipo de furto. Inclusive, como líder dos meninos de rua - cerca de cinco, todos menores de idade -, disse que não permitia que eles furtassem nem agredissem quem não desse dinheiro.

A vida na rua era cheirar cola de sapateiro o tempo todo, pedir dinheiro nos semáforos, comida em casas e restaurantes, e dormir nas calçadas, na maioria das vezes sob efeito de entorpecente, desde a madrugada até o final da tarde. Apesar de morar na rua, ele escolhia o que comer, fazendo dieta à base de proteínas e vitaminas, para manter a boa forma. Exibindo músculos salientes, ele disse que faz 500 flexões por dia.

Afirmando estar disposto a deixar a cola de sapateiro, a trabalhar e viver sob as regras de convivência do Esquadrão da Vida e depois da sociedade, Reginaldo disse que quer arrumar emprego, de preferência ser mecânico, rever a filha que faz cinco anos que não vê e voltar a morar com os pais. Confira um trecho da entrevista.

JC - O que te levou a aceitar ser internado no Esquadrão da vida?Reginaldo da Silva - Eu quero mudar de vida porque, se continuar assim, não tenho futuro nenhum.

JC - Como era sua vida na rua?Reginaldo - Era cheirar cola o tempo todo; pedir comida nas casas. Tem freguês (quem sempre dá comida aos menores) que ajuda muito.

JC - Você era pai de rua dos meninos que formavam seu grupo? Reginaldo - Eu não sou pai, mas ditava as regras. Dizia para eles não roubarem nem brigar no sinal quando alguém não dava dinheiro.

JC - Quanto você ganhava pedindo dinheiro nos semáforos?Reginaldo - Em dias bons, começo do mês, por causa do pagamento, até R$ 30,00 por dia. Em dias fracos, R$ 5,00.

JC - O que você fazia com tanto dinheiro?Reginaldo - Comprava cola, comida, suco.... Tudo era dividido.

JC - Você comprava cola para os seus amigos menores?Reginaldo - Não. Não tenho RG e por isso não posso comprar. A gente dava um trocado para um maior, um mendigo, comprar.

JC - Você brigou muito na rua?Reginaldo - Várias vezes. Levei três facadas. Na rua não tem como viver sem brigar. Briga por comida, por cola...

JC - Você sabe ler e escrever?Reginaldo - Nunca estive na escola, mas aprendi a ler em letra de forma vendo panfleto, jornal, revista...

Recuperação é difícil e demorada

A recuperação de um usuário de entorpecente que mora na rua há muito tempo e, em função disso não obedece regras da sociedade, é difícil e demorada. A opinião é do diretor do Esquadrão da Vida de Bauru, Edmundo Muniz Chaves, que ontem recebeu Reginaldo da Silva.

O fato de Reginaldo ter 26 anos, no entanto, pode ajudar. De acordo com Chaves, as chances de recuperar um adulto, que sabe o que quer e já se desiludiu com a vida que levava, é maior comparada a um menor de idade. Mas ele ressaltou que, do ponto de vista da recuperação, até mais difícil do que a dependência de drogas, é o fato da pessoa não obedecer regras, ter padrões éticos e morais. O mais difícil é o fato de ele ter que viver sob regras: ter horário para acordar, para fazer as atividades, obedecer normas e ainda perder o estatus que ele tinha dentro do grupo de meninos de rua, que era de líder, disse Chaves. Se Reginaldo não fugir da entidade de recuperação e voltar para as ruas, a previsão é que ele esteja em condições de levar uma vida normal daqui a um ano ou mais.

No Esquadrão da Vida, Reginaldo terá à disposição acompanhamento piscológico, fará dinâmica de grupo, terapia, exercícios físicos na academia, terá que estudar e participar das atividades do sítio, como cuidar da horta e do pomar. Também poderá fazer curso de padeiro e apicultor e vai estudar o Evangelho.

O Esquadrão da Vida é uma entidade que trabalha, em regime de internato, na recuperação de meninos dependentes químicos acima de 16 anos. Atualmente, está com 50 alunos. Para arrecadar fundos, estará fazendo um almoço beneficente no próximo dia 25. As adesões podem ser feitas pelo telefone 222-5076.