08 de julho de 2026
Geral

Impacto de verão

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Variações de temperatura e umidade podem ocasionar danos em diversas partes dos veículos

Os três primeiros meses do ano são pródigos em sol forte e temperaturas elevadas. Além do calorão, ainda ocorrem as conhecidas chuvas de verão - que muitas vezes alagam as cidades. Nessa época quente, muitos motoristas também aproveitam para passar o final de semana em áreas litorâneas, em busca de ar fresco. Maresia, sol, chuva, vento... intempéries capazes de causar diversos danos nos automóveis. Componentes mecânicos, elétricos, eletrônicos e pintura podem ser atingidos pelas súbitas alterações de temperatura e umidade.

Caso, por exemplo, dos sensores eletrônicos do motor, cilindros, burrinhos, discos e retentores dos sistemas de freios. Expostos a autênticos choques térmicos, os sensores do motor podem trincar por dentro e deixar de transmitir informações à centralina. Resultado: o motor começa a falhar e o carro enguiça. Já as lonas e pastilhas de freio também absorvem água e têm a eficiência reduzida. E a solução é a óbvia: evitar áreas alagadas. Ainda mais porque água de enchente é quase sempre poluída e misturada com elementos ácidos, alcalinos ou cáusticos, o que aumenta expressivamente o potencial de danos, alerta o coordenador de formação técnica da Citroën, Alfredo Trindade.

Quem também sofre com as agruras de verão é a pintura do veículo. Expor o carro continuamente ao sol pode acabar dando origem a manchas na pintura - principalmente nas áreas horizontais - capô, teto e porta-malas. Mas as chuvas torrenciais e o orvalho noturno que fica depositado sobre a carroceria são o outro lado da moeda. Estão cada vez mais presentes na atmosfera substâncias que atacam a pintura, na chamada chuva ácida, aponta a engenheira de pintura da Ford, Estela Tomitsuka. Para evitar ou minimizar esses danos, assim como proteger o carro dos efeitos da maresia, recomenda-se lavá-lo, pelo menos uma vez, por semana e encerá-lo mensalmente. A cera funciona como uma película de proteção, fazendo com que as impurezas escorram e não grudem na carroceria, explica Tomitsuka.

O mesmo calor que expõe a pintura do carro também acaba atingindo forros de portas, tecidos de bancos e painéis internos do carro. Com a incidência de luz contínua, esses materiais tendem a descolorir e adquirir um tom envelhecido. Para adiar esses efeitos do tempo, ainda que paliativamente, valem o uso de papelões sobre o pára-brisa - tradicional equipamento de flanelinhas - ou a instalação de películas escuras. Diminuir a incidência de claridade pode aumentar o tempo de vida da coloração original dos materiais, afirma Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico da Fiat.

Sob a carroceria, vários componentes do automóvel também estão sujeitos a danos, principalmente no caso de alagamentos decorrentes dos temporais. Mesmo os componentes aparentemente menos vulneráveis, como os do sistema de arrefecimento, correm riscos. Se a ventoinha for acionada quando se estiver passando na água, ela pode queimar ou ter as pás entortadas, alerta Ricardo Valle, proprietário da Radiadores Nardinho, uma das maiores oficinas especializadas em sistemas de refrigeração de motor de São Paulo. Mas nada é tão perigoso para o carro quanto tentar atravessar uma área alagada ou ligá-lo depois de tê-lo deixado estacionado em uma área que alagou. A água pode ter entrado nos cilindros, onde a mistura ar/combustível é comprimida. Mas como a água não é comprimível, ao se ligar o carro pode acontecer o chamado calço hidráulico: várias peças móveis podem empenar no afã de fazer o motor girar. Por isso, recomenda-se não tentar atravessar uma área alagada ou ligar um carro que ficou em local onde a água cobriu o motor, adverte Carlos Henrique Ferreira, da Fiat. Se isso acontecer, só uma demorada e cara retífica fará o motor voltar a funcionar.

Efeito simulado

Para tentar deixar os automóveis menos vulneráveis às variações climáticas, as montadoras fazem avaliações de longa duração chamadas de testes de intemperismo. Basicamente, consistem em deixar expostos ao ar livre automóveis inteiros e peças que normalmente têm mais contato com as alterações climáticas, como partes de funilaria e componentes de borracha e plástico, entre outras. Usa-se também trafegar com o carro por regiões diferentes, que exibem condições climáticas distintas. Expostas a variações de temperatura, umidade, luz solar, radiação ultra-violeta e chuva, as peças e veículos são continuamente analisadas em busca de soluções que aumentem a durabilidade.

Os testes são feitos nas próprias fábricas ou em outros lugares. A Volkswagen por exemplo, tem um campo de testes na calorenta Teresina, no Piauí. Já a Fiat avalia veículos no frio de Campos do Jordão e até na úmida Amazônia. Entre os testes curiosos está o xenoteste, da Volks. Em uma câmara fechada, três lâmpadas xênon de alta intensidade que reproduzem a luz solar são apontadas para as peças internas não-metálicas dos veículos por períodos de 480 a 3 mil horas. Esse equipamento permite prever, em curto espaço de tempo, problemas que podem ocorrer em até cinco anos de uso do veículo em condições normais, explica o supervisor do Laboratório Central da Volkswagen, José Carlos Bailão. Já a Fiat submete motores a autênticos choques térmicos, em câmaras fechadas que alternam temperaturas quentes e frias.

Instantâneas

Tentar atravessar uma área alagada pode acabar com o catalisador. Quando em funcionamento, a peça atinge mais de 200 graus e o contato repentino com a água pode trincar, por choque térmico, a parte interna, feita em cerâmica. Aí, só trocando o equipamento.

As temidas manchas na pintura também aparecem com o acúmulo de sujeira decorrente de chuva sobre a carroceria ou ao deixar o carro sob árvores - depois de dois ou três dias sem limpeza, excrementos de pássaros, ovos de insetos e mesmo resina de árvores sedimentados sobre a carroceria mancham a pintura.

As guarnições de borracha do carro, presentes nas portas, por exemplo, são produzidas para suportar variações contínuas de temperatura de 30º C negativos a 80º C positivos. Mas quanto mais expostas às variações, menor será a durabilidade - pode cair de 10 anos para até dois anos.

Os terminais elétricos são os componentes do carro mais sensíveis à maresia. Eles contêm elementos como cobre, zinco e latão, muito vulneráveis à ação do sal.