Num mundo onde a violência urbana toma proporções cada vez mais assustadoras, é preciso viver amedrontado. A constatação é da psicóloga Rosa Maria Ranzani, que atua na Vara da Infância e da Juventude de Bauru e tem contato estreito com uma parcela de agentes da criminalidade. Na opinião dela, a temerosidade é necessária, assim como é saudável, prudente e natural que a população se cerque de mecanismos de proteção pessoal e patrimonial.
Instalar alarmes, cercar os muros da casa com vidros, pregos ou sistema elétrico ou mesmo manter um cão de guarda, bem como orientar os filhos a se defenderem, são procedimentos indispensáveis. A proteção, entretanto, não deve cerrar os olhos das pessoas à realidade externa. Pensar de maneira reducionista, acreditando que se eu estou segura em minha casa o resto do mundo pode se danar, é muito perigoso. Quanto mais dermos condições para esse mundo marginal crescer, mais riscos corremos de vivermos literalmente enclausurados no futuro. Estamos trilhando um caminho social muito perigoso, na medida em que contribuímos com a exclusão daqueles que cometem os delitos. Todo mundo quer viver dignamente e ser respeitado, mas essas pessoas descreditam que isso seja possível no nosso mundo. Resultado: elas se mantêm no mundo marginal paralelo, porque ali são respeitados, avaliou Rosa Maria.
Além das cercas e muralhas, a sociedade precisaria estar vislumbrando e se empenhando para reduzir a distância social, cultural e econômica. Nesse contexto, a vontade política das instituições governamentais é imprescindível para viabilizar programas de reintegração. A comunidade e a iniciativa privada também têm papel fundamental nesse processo, que, segundo a psicóloga, deve ser levado a sério e o quanto antes. Como eu já disse, cercar a nossa casa pode trazer uma sensação de proteção imediata, mas esse tipo de ação isolada resolve apenas a problemática individual. Cada vez seremos obrigados a nos isolar mais e os marginais, por seu lado, acabarão desenvolvendo mecanismos mais eficazes de romper as barreiras. Eles têm que tirar de algum lugar e esse lugar pode ser a sua casa, destacou.
Efeitos psicológicos
Quem já passou por algum tipo de trauma decorrente da violência urbana, como ter a casa invadida, sabe que a sensação de normalidade custa um tempo a voltar. É natural que as vítimas se cerquem ou ampliem seus sistemas de segurança quando algo assim acontece. O sentimento de que nenhum lugar no mundo é seguro e que outras coisas piores virão costuma acompanhar as vítimas durante algum tempo. Nessas horas, os pais devem tranqüilizar os filhos, recomenda Rosa Maria.
Algumas pessoas desenvolvem certos tipos de fobia depois de passar por situações traumatizantes, mas o fato não é, segundo a psicóloga, o que gera o problema. Na minha experiência clínica, percebo que as pessoas que desenvolvem fobias têm traços na personalidade que apontam para essa tendência, ou seja, o trauma apenas desencadeia um sentimento que já era inconsciente. Não creio que uma pessoa sem essas características revele uma fobia somente por conta de ter sido vítima de uma violência, enfatizou.