08 de julho de 2026
Geral

O prazer de colecionar

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Quase todas as pessoas em algum momento de suas vidas colecionam algum tipo de objeto. Não importa a idade ou situação econômica, de embalagens de cigarro a aviões, as coleções podem ser uma boa forma de aprender, relaxar e, em alguns casos, até de ganhar dinheiro. Além disso, segundo algumas pessoas, os objetos guardados podem revelar mais sobre a personalidade do colecionador do que se imagina. Será?

Para aliviar as tensões do dia-a-dia, esquecer dos horários rígidos, dos compromissos importantes e das tarefas domésticas e profissionais, a maioria das pessoas procura alguma atividade que dê prazer, um hobby. Entre as inúmeras atividades que podem ser classificadas nessa categoria, o ato de colecionar merece um destaque. É muito raro encontrar uma pessoa que em algum momento de sua vida não tenha juntado algum objeto, com ou sem uma finalidade específica.

O hábito de colecionar, geralmente surge na infância. Figurinhas, tampinhas, embalagens vazias de cigarro, papéis de carta e envelopes, selos, brinquedos, jogos... São muitas as preferências nessa época da vida. Mais tarde surgem as coleções com um tema específico, mais sérias. É a vez dos discos, dos posters, das revistas, dos filmes. Na fase adulta as coleções deixam de ser apenas uma brincadeira para se tornar parte do cotidiano do colecionador. A dedicação assume quase a postura de devoção e, em alguns casos, até muito dinheiro é gasto para manter o hobby.

A psicóloga Elaine Olmo explica que as coleções funcionam para as pessoas, assim como outros tipos de hobby, como uma válvula de escape para conflitos não resolvidos e dificuldades do dia-a-dia. Para ela, o ato de colecionar permite que a pessoa recupere e restabeleça o equilíbrio psíquico, através do aperfeiçoamento da própria consciência que surge com a ruptura do universo cotidiano.

A chave para isso é a escolha de uma coleção que traga prazer. Por isso na hora de optar por uma, é importante atentar-se para algo que venha trazer prazer e tranqüilidade e que ao mesmo tempo esteja de acordo com o poder aquisitivo da pessoa para que não lhe cause uma frustração.

Mas Elaine Olmo afirma que a maioria das pessoas não têm consciência de porque começam a juntar algum objeto. As que sabem porque o fazem, geralmente, possuem alguma explicação definida para o hobby, como no caso dos filhos que continuam as antigas coleções dos pais como forma de homenagem, por exemplo. As coleções também podem alimentar na pessoa o desejo de possuir algo de valor. Assim, os carros em miniatura representam o desejo de ter um carro de verdade. A coleção também pode ter o papel de trazer algum tipo de reconhecimento para o colecionador, diz a psicóloga.

Segundo ela, cada pessoa possui necessidades diferentes que as levam a optar por um tipo de objeto para colecionar, dando para ele valores próprios. Deste modo o que pode ser interessante para alguém e despertar o seu desejo de colecionar, pode não chamar a mínima atenção de outra pessoa.

Passando dos limites

Embora algumas pessoas passem a vida toda juntando o mesmo objeto, outras vão mudando de coleção durante a vida, conforme suas experiências nas diferentes fases de sua existência. Por ser uma atividade compensatória, colecionar faz com que a pessoa crie um universo de satisfação no qual consiga se sentir bem e repare assim suas dificuldades.

O único porém de colecionar, na opinião de Elaine Olmo é quando o hobby se torna uma obsessão, uma idéia fixa, que faz com que a pessoa não meça esforços para aumentar a coleção. É preciso evitar esse exagero para que o colecionador não se torne um escravo, alerta.

Sempre mais

O massagista da equipe do Noroeste, João Batista Silveira, o Fumaça, é um colecionador nato. Há 5 anos, leva para casa todos os bonés que consegue. Calcula que tenha mais de 250, mas não tem certeza. Comecei a juntar porque acho bonito, mas nem uso os bonés, diz. Além dos chapéus, Fumaça também guarda em casa o que ele chama de coisas antigas, categoria composta na maioria por objetos de metal obsoletos como ferros de passar antigos, máquinas de moer e até um toca-discos.

Para aumentar as coleções ele conta com a ajuda dos conhecidos. Em casa não tem muito apoio. Minha mulher sempre reclama e quer que eu jogue minhas coisas fora, mas eu não jogo, afirma.

O estudante Francis Rafael de Carvalho Andrade, há 2 anos trocou as canetas pelos cartões telefônicos porque também os achou bonitos. Hoje possui álbuns e pilhas de cartões o suficiente para não saber quantas peças tem. Acho que são mais de 1.500, arrisca. Para manter a coleção conta com a ajuda da mãe, Eliana de Carvalho Andrade e dos clientes da padaria da família, onde trabalha quando não está na escola. O pessoal que sabe que eu coleciono traz os cartões aqui depois que usam, conta Francis. Se vejo um cartão diferente na rua, compro para ele, declara a mãe que incentiva o hobby do filho por acreditar que através dele ele aprende tem acesso a várias informações de diversos assuntos.

Adquirir conhecimentos sobre outras culturas foi o que levou o escriturário Alexandre Bartel a colecionar selos e moedas. Aprendi muita coisa observando e estudando a origem dos selos das moedas. O melhor é que foi um aprendizado prazeroso e não imposto como nas escolas, explica. As coleções de mais de uma década também somam um total de peças que já fugiu da conta de Bartel e vieram depois de muitas outras coleções que o escriturário teve na infância, que foram de tampinhas de garrafa e cartões postais. Sei que tenho muitos selos e moedas mas não sei exatamente quantos. O que importa é que quero ter sempre mais, define, exemplificando a filosofia de um autêntico colecionador.

Coleção é espelho da personalidade?

Os grandes colecionadores, em geral, são pessoas estudiosas, cultas, equilibradas e, acima de tudo, misteriosas. Será, uma associação de colecionadores dos Estados Unidos no seu site, afirma que por trás do desejo de colecionar um objeto sempre existe uma característica da personalidade da pessoa se manifestando. A psicóloga Elaine Olmo não acredita: Não podemos generalizar e afirmar o significado de cada coleção. Somos seres únicos, com visões e necessidades diferentes, a história de vida de cada um é que direciona a escolha e os significados, explica. Faça o teste conferindo a lista da entidade americana abaixo e analisando se, para você, ela faz algum sentido.

Ingressos de shows ou competições esportivas: Ao guardá-los, os colecionadores tentam reviver as emoções do evento, revelando o desejo de paralisar o tempo para prolongar os momentos de prazer.

Bichinhos de estimação (gatos, cachorros, peixes, etc.): O relacionamento carinhoso com esses animais indica grande carência afetiva, além da dificuldade de comunicação.

Quadros pintados a óleo: Uma coleção desse tipo mostra a frustração diante das fantasias não realizadas.

Selos: Quem coleciona selos necessita de aventuras, mesmo imaginárias, para enfrentar melhor a realidade.

Carrinhos de corrida: É uma pessoas que adora inovações e improvisações no campo da sexualidade.

Posters: As coleções de posters indicam a necessidade de independência.

Relógios: Os colecionadores de relógios são possessivos, adoram controlar tudo e todos aqueles que os cercam.

Canetas: Indicam criatividade e impaciência.

Passagens: As pessoas que guardam passagens por muito tempo depois das viagens costumam temer as mudanças.

Cartões postais: Colecionar postais é uma maneira de fugir da realidade através do desejo de conhecer o mundo.

Autógrafos: Os colecionadores de autógrafos são desprovidos de inveja e não temem demonstrar sua grande admiração pelo talento das pessoas famosas.

Figurinha: Para essa pessoa, o tempo não foi suficiente para torná-las adultas, pois continuam muito ligadas à infância.

Peças íntimas: os homens que colecionam peças íntimas de mulheres com as quais se relacionaram são imaturos e presunçosos.