08 de julho de 2026
Geral

Alfabetização e identidade digital

Magno de Aguiar Maranhão
| Tempo de leitura: 4 min

Os debates acerca da entrada do Brasil na era da informação, freqüentemente são levados da mesma forma simplista com que é abordado o problema do ensino público - como uma questão de garantir a todos oportunidades iguais de acesso ao conhecimento e ascensão social, e ponto. Mas podemos ir além. Se no passado não enxergamos que a educação era também pré-requisito ao desenvolvimento do País e à manutenção de sua autonomia, e hoje sofremos as conseqüências, não vamos cometer o mesmo erro no tocante à alfabetização digital - ou, quando nos dermos conta, estaremos importando dos países desenvolvidos não só equipamentos e saber tecnológico, mas a ideologia acoplada a ele. A fim de criarmos nossa identidade nesse novo campo, precisamos democratizar as novas tecnologias, adaptá-las para o nosso benefício e evitar carregar pesos que não são nossos.

Mas para que possamos manejar o conhecimento, é indispensável que nos familiarizemos com ele. Ou seja, impossível a um país firmar seu lugar num mundo regido pelas tecnologias da informação com uns poucos iniciados - a população precisa ter acesso a elas, experimentá-las, refletir sobre suas vantagens e perigos, trabalhar para que sejam usadas em seu proveito. Recentemente, os jornais noticiaram, por exemplo, que empresas americanas estão gastando seu dinheiro e conhecimentos para monitorar os passos de seus funcionários, tal como em... presídios. Há escolas, mesmo no Brasil, que já instalaram câmeras em sala de aula para que os pais acompanhem os movimentos dos filhos via Internet. Se a idéia vai vingar ou não, é escolha nossa. Mas será que os brasileiros têm consciência dos abusos que devem ser coibidos? Têm embasamento para opinar na criação de uma legislação específica? Ou isso ficará a cargo de alguns?

Hoje, não mais que cinco por cento da população estão conectados à Internet (70 por cento nas classes A e B) e não temos parâmetros para medir o que é bom para nós, na Rede. Estamos aprendendo a usá-la e, para que seja rico, esse aprendizado não deve se restringir a tão poucos. Para uma sociedade complexa, diversidade de idéias e cabeças diferentes - já pregava Anísio Teixeira há seis décadas. Não temos tempo para gastar em fantasias de controle total, embora valha a pena conhecê-las para mantê-las a cautelosa distância. O processo de informatização no Brasil deve ter em vista sobretudo a agilização dos serviços públicos em nível regional e nacional, o combate à violência e à degradação ambiental e a melhoria do ensino. Consideremos então, seriamente, sugestões como a da Firjan: tirar os computadores do rol dos artigos de luxo. Segundo seus dados, 66 milhões de brasileiros precisariam destinar a renda integral de três a oito anos para comprar um micro. Não são 66 milhões de excluídos da sociedade do conhecimento - convenhamos, é um país inteiro.

Pois bem: 65 por cento dos computadores que ingressam no Brasil são frios (uma evasão de divisas anual de R$ 6 bilhões). Proposta: acabar com o contrabando, reduzindo a zero impostos sobre a importação de PCs. As empresas, em compensação, destinariam 3% do total das importações a um programa de alfabetização digital, que correria paralelo a um programa nacional de ensino à distância. A Firjan calcula que, em três anos, a Internet teria 29 milhões de novos usuários e 1,7 milhão de novos empregos seriam gerados. E evitaríamos a evolução do analfabetismo funcional para o tecnológico.

Ao mesmo tempo entram, este ano, em fase de execução, o Socinfo, projeto Sociedade da Informação, do Ministério da Ciência e Tecnologia, que também visa à universalização do acesso à Internet. As metas do projeto foram resumidas na Declaração de Itacuruçá, durante a Reunião Infoética 2000, em outubro, da qual participaram representantes de países latino-americanos e caribenhos. Entre elas: lutar para que as tecnologias da informação não aumentem brechas sociais e assimetrias entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O pequeno grupo que domina os segredos da Rede, no Brasil e América Latina não dará conta do recado. Um único exemplo ilustra isso: pergunte a um professor o que acha do uso de computadores em Educação e, certamente, ele se queixará da baixa qualidade e pouca criatividade dos sites educativos. Mas será que já formamos bons profissionais em número suficiente capazes de produzir boas páginas educativas na Internet, com conteúdos coerentes com a realidade de nossos alunos? E outros tantos que saibam utilizá-las? Por falar nisso, nossos professores podem comprar computadores?

(*) O autor, Magno de Aguiar Maranhão, é conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro; presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários - Anaceu