08 de julho de 2026
Geral

Na era das prestações

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Nem chorando a maioria dos brasileiros está podendo adquirir hoje aquilo que até há poucos anos podia comprar sorrindo... É que a vida deixou de ser-lhe risonha e franca, com as tempestades açoitando o casco do seu barquinho, frágil como a casca do ovo dos galináceos que se quebra no gesto de um simples aperto de dedos. Afinal, como comprar despreocupado com os preços das utilidades situados longe do alcance das mãos? Se a muitos até os elimentos estão fugindo, que se dizer, por exemplo, dos eletrodomésticos, televisores, videocassetes, móveis etc? Os automóveis, ferramenta de trabalho para muitas faixas, então, não se pode nem pôr no prato dos desejos, pois só de cogitar o coração já dispara alucinadamente na angústia do inacessível. Só podem ser retirados dos pátios dos revendedores por marajás, até que suas minas de ouro venham a ser lacradas por alguma razão ou pelo restrito mundo dos grandes empresários e de algumas faixas de profissionais liberais alheias a tabelamentos e congelamentos. Os demais, nem em sonho. Quem comprou, comprou, quem não comprou já não compra mais.

Os novos tempos (repeteco da era das pragas de que nos fala o Êxodo?) estão levando o brasileiro aos mais torturantes exercícios de imaginação para tentar safar-se das suas necessidades sem risco de falência de sua pobre economia. E dentro deste prisma ele partiu para as prestações ou consórcios que, historicamente, começaram nas pistas dos veículos, bandearam depois para a esfera dos eletrônicos mais caros e, em seguida, penetraram no campo dos móveis em geral.

Atingimos, assim, a era da generalização dos consórcios e das prestações dos bens e mercadorias. Ruim com ele, que sujeita o consorciado ou o prestamista aos caprichos da sorte que demora e à intermitência dos reajustes das cotas, pior sem ele porque os preços exorbitantes e os juros extorsivos das financeiras inviabilizam tanto as compras à vista como as parceladas. E se pode acreditar que na passarela desses tipos de negócios virão fatalmente outros, muitos outros, sendo possível que, de cambulhada, apareça por aí, a curto prazo, nos supermercados, para a venda de alimentos e, nos magazines e lojas, para a comercialização de roupas e calçados, o antigo sistema de cadernetas incessantes, mediante as quais o freguês ia comprando de acordo com suas necessidades e pagando parceladamente segundo as suas possibilidades... Prática que poderá vir a se alastrar, inclusive, aos postos de revenda de combustíveis, porque da forma como a situação está não dá mais. É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.