08 de julho de 2026
Geral

Bauru depende da união de lideranças

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 12 min

Para Ricardo Coube, diretor do Ciesp, a retomada do crescimento econômico depende da união de políticos e empresários

O empresariado e o Poder Público de Bauru têm que se unir em torno de um projeto que possa recolocar a cidade na trilha do desenvolvimento. Porém, acredita Ricardo Marques Coube, diretor estadual do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e conselheiro da diretoria regional de Bauru da entidade, não pode ser um trabalho de cunho político, mas, sim, empresarial, que seja amplo e possa unir empresários, políticos e sociedade em uma só direção, a da retomada do crescimento econômico.

Ricardo Coube afirma que falta uma percepção clara desse quadro e uma ação conjunta de empresários e governo, no sentido de vender essa cidade de uma forma mais profissional, mais consistente, que é um trabalho que não se tem, e nunca houve. Para ele, a administração e as lideranças empresariais não conseguem se sensibilizar mutuamente. Isso ocorre, na visão do diretor do Ciesp, desde que a cidade passou a ter um perfil de administração essencialmente político. Veja os principais momentos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como o senhor vê a indústria de Bauru, frente aos comentários de que é fraca e não decola?Ricardo Coube A primeira coisa que me vem à cabeça é que temos 21 mil empregos contabilizados. Então, nossa atividade é a mais representativa, porque o comércio e a construção, juntos, somam 21 mil. Como geradora de empregos, temos, então, a indústria como uma das áreas mais importantes em Bauru.

Além disso, na indústria se tem uma qualidade de salários e profissionais que superam as outras, levados pelo aspecto competitividade que as indústrias estão submetidas. Esse é um primeiro fator que acho relevante para fazer uma análise local.

JC Quais são os outras?Coube Bauru tem empresas que são líderes ou top em seus setores de atuação. Isso tem que ser reconhecido como algo importante. A Tilibra é líder nos dois principais setores que atua caderno e agendas -, a Plasútil é líder no setor dela. As empresas de baterias de Bauru Cral, Ajax e Tudor fazendo uma análise, têm uma participação expressiva, brigando pela liderança nos mercados que atuam. Mesma coisa ocorre nas áreas de máquinas, sucos e formulários, por exemplo. Enfim, se analisar a performance das empresas no setor que atuam, são muito representativas.

Uma coisa interessante é que a quase totalidade das empresas nacionais daqui é de pessoas oriundas da região, o que confere uma identidade com as pessoas da cidade.

JC - Qual a visão que se tem disso?Coube Outro ponto a se analisar e, que, até, nos deixa surpresos com a falta de percepção da cidade, é que, além de já ser um parque industrial respeitado, há um potencial muito grande em Bauru, nas diversas áreas que se pode analisar. O problema é que não se capitaliza em cima desse potencial.

O município tem qualidade de mão-de-obra, em razão das escolas de todos os níveis. Além disso, está inserido num contexto de uma matriz de transporte e comunicação, que engloba hidrovia, rodovias, aeroporto e ferrovia. Tem uma infra-estrutura ótima em termos de telecomunicação, proporcionada pela Embratel, Telefonica, Telesp, etc.

Bauru é, ainda, entroncamento energético da Cesp, tem uma excelente localização geográfica, no Centro do Estado de São Paulo. Possui a Estação Aduaneira Interior (Eadi) e um aeroporto internacional em construção. O que precisa mais, além dessas virtudes?

JC - Por que não se explora isso?Coube Porque falta a vocação. Em Bauru, existe um histórico enraizado, que é defendido por pessoas com mérito e razão de ser, que foi o entroncamento ferroviário que desenvolveu o comércio que, por sua vez, durante muito tempo, foi o responsável pelo crescimento da cidade. Isso está enraizado e tem sua razão de ser...

JC - Mas vocação muda. Campinas, por exemplo, teve o momento em que o comércio era a principal atividade e vocação. Hoje em dia, é a indústria a principal vocação. Então, o que falta para Bauru?Coube Falta uma percepção clara desse quadro e uma ação conjunta de empresários e governo, no sentido de vender essa cidade de uma forma mais profissional, mais consistente, que é um trabalho que não se tem, não se teve. Nunca avançamos nesse sentido. O setor empresarial, por razões históricas, se mantém distante, de certa forma.

Se fizer uma análise, o melhor período de Bauru foi quando empresários tomaram conta da política da cidade. Foi o momento em que a cidade se desenvolveu muito. Desde que os empresários se afastaram do poder político, o município tem um viés puramente político de gestão, que não consegue unir as forças empresarias.

JC - Qual o resultado disso?Coube Isso faz com que Bauru não junte forças para somar com esse potencial. Se pegar somente essa disputa pela Reitoria da Unesp, que estão fazendo um barulho maior do que deve, Bauru concorre com cidades que estão muito mais unidas e coesas na briga. Aqui é a Prefeitura que está fazendo alguma coisa. E o resto? Onde está? Não tem essa vocação de juntar esforços pró projeto.

JC O que acontece com o empresariado de Bauru?Coube Aqui, o empresariado é lembrado pelo Poder Público quando precisa de dinheiro para alguma coisa. Essa é a visão. O conceito que se tem de empresariado é que é uma fonte de recursos, ou porque se deu um terreno no Distrito (Industrial), acha que já se fez muito e que não precisa fazer mais nada.

Para fazer uma análise mais profunda disso, seria necessário estudar o que houve ao longo do tempo. Mas, o que é constatável é que não há uma percepção de que seria importante um entrosamento maior.

Em Bauru, os agentes ficam distantes uns dos outros, cada um com seu papel. As empresas são lembradas na época de eleição e vice-versa. Claro que o empresariado tem parte de culpa nesse processo, porque não sei até que ponto busca isso.

Peguei uma época da política no Ciesp (quando era diretor regional), fim do governo Tidei de Lima e começo do de Antonio Izzo Filho, que não teve oportunidade de aproximação com o Poder Público. Já tinha dificuldade antes e a situação mudou muito pouco agora.

JC Mas, outras cidade da região buscam esse caminho...Coube Veja o caso de Marília. É um caso típico. A base do desenvolvimento daquele município está se fazendo com a união de forças, a participação da comunidade, a participação da sociedade. O Ciesp e a Associação Comercial são extremamente ativos. Participam, convivem.

Em Sorocaba, o secretário de Desenvolvimento Econômico despacha, semanalmente, dentro do Ciesp, tamanho é o entrosamento deles e da forma como atuam. É possível ver cidades onde o Poder Público e a iniciativa privada atuam extremamente unidos, juntos, em prol de projetos comuns.

Em Bauru, não! Não se consegue isso. É importante que não se entenda isso como uma crítica à situação atual. Estou fazendo uma análise de uma tendência histórica que vem de vários governos.

JC Essa imobilidade, ao que parece, não é só dos empresários da indústria...Coube É geral. Não é um problema da indústria, do Ciesp. É uma característica da cidade, que não consegue seguir em frente.

JC Qual é o caminho para sair dessa imobilidade? Há algumas ações isoladas de empresários que tentam suprir a falta do Poder Público, por exemplo, em entidades sociais. O que fazer para superar esse distanciamento?Coube Acho que um não sensibiliza o outro. A distância e a frieza de tratamento são a grande fonte causadora desse processo de distanciamento. Acho que um diretor do Ciesp, da Acib e outras entidades de classe deveriam ter acento na Prefeitura para tratar de assuntos de suas áreas, como secretário, ou não, seria uma forma de começar a quebrar esse distanciamento.

O prefeito Nilson Costa deveria dar uma orientação clara a seus secretários para que atendam de forma diferenciada os agentes geradores de receita para a comunidades, coisa que não ocorre em Bauru. Não estou falando de privilégios. A coisa mais difícil em Bauru, há décadas, é o empresário ir cuidar de sua vida na Prefeitura. Ele é maltratado, não tem acesso a nada, é difícil. Estou falando o comum.

Não é o que acontece comigo. Mas, acho que não sou regra. A regra é o que vai lá e não é recebido, não tem interlocutor, não consegue falar. Muita gente reclama desse tratamento que se dá a essas pessoas que são os clientes da Prefeitura.

JC Isso afugenta o empresário?Coube Não chega a esse ponto. A minha percepção, desde o tempo que era diretor regional do Ciesp, é de que o empresário bauruense tem uma disposição enorme de querer e poder ajudar mais do que ajuda em atividades sociais, seja creche, escola, educação, saúde, principalmente. Hoje em dia, há uma consciência muito forte das empresas, que gostariam de fazer trabalho nessa área.

Mas, em Bauru, você não tem interlocutor para fazer isso. Ou faz sozinho ou faz como o (José Luiz Miranda) Simonelli que foi atrás do secretário dos Transportes, Michael Zeitlin, para conseguir um trevo para o Distrito Industrial III. O Ciesp está, também, discutindo a confecção de um book das empresas e um site na Internet. Isso tudo porque, ou você faz sozinho coisas desse tipo, ou as coisas são extremamente mais lentas ou não saem, se esperar o estímulo do Poder Público.

JC Como assim?Coube Ninguém está querendo dinheiro. O problema não é pagar. O problema é procurar fazer algo. Hoje em dia, temos que ter orgulho de falar que somos de Bauru e vender o nome da cidade de tal forma, considerando que está associado aos nossos produtos e serviços.

Existe uma parcela por trás do nome da empresa que a identifica com Bauru. Isso tem que soar bem, porque soma ao nome da empresa, ao trabalho que ela faz, à qualidade do produto que oferece. E assim por diante. Temos essa consciência de que o nome tem que ser forte. O sujeito que fala que é de São Carlos, fala com orgulho, porque aquela cidade é sinônimo de tecnologia. O calçadista que fala que é de Franca, já é sinônimo da capital do calçado. A fábrica de alimentos, de Marília fala isso como se aquela cidade fosse sinônimo de alimentos bons.

JC O empresário bauruense tem esse...Coube Não, vai falar o que aqui? Bauru é lembrada pelo sanduíche. Tem uma relação com Pelé. Tem o astronauta, agora, que também ajuda. Coisa assim.

Mas, você vê o potencial da cidade quando uma Fundação Getúlio Vargas vem montar uma base aqui. Não vai fazer isso numa cidade que não visualiza esse potencial.

JC Essa pulverização de setores que a indústria de Bauru conta acaba sendo positiva na questão do emprego.Coube Isso é bom. Em que pese que Bauru poderia ser caracterizado pela qualidade da mão-de-obra. Há um potencial que temos com tantas universidades e cursos técnicos. E, a gente não vende isso, não tem informação suficiente e base para se vender isso.

Falou de outras potencialidades, como a energia, telecomunicações. Mas, nada disso a cidade trabalha de uma forma positiva no sentido de vender. Até o berço da cidade, que seria a tal ferrovia, hoje se discute no País as logísticas de escoamento de produção, da agricultura, dos aproveitamentos de uma nova alternativa, de novo, para se escoar as produções do Centro-Oeste. E cadê a ferrovia de Bauru nesse processo? O que foi quase a origem nossa vai desaparecer, se não for feito alguma coisa. Os novos estudos dão como canal de escoamento do Mato Grosso aquela linha que vem por cima e não passa por Bauru. Vai passar em Campinas e vai ao porto de Santos ou do Espírito Santo. Nem isso que foi a precursora de nosso desenvolvimento é explorado hoje. Está aí abandonado. Até isso, que poderia ser, a exemplo do sanduíche Bauru, Pelé e outras coisas, uma forma da cidade resgatar valores, até históricos.

JC Como seria esse projeto de vender adequadamente a cidade para que venham mais indústrias para Bauru, ara gerar mais negócios?Coube Atrair indústrias é conseqüência de um trabalho. Isso não vem porque alguém está pedindo. Hoje, os grandes grupos, os grande negócios são trazidos por atratividades que são percebidas por vários aspectos que interessam a cada negócio.

A nossa obrigação seria mostrar essas virtudes nossas, seja via meios eletrônicos, como a Internet, seja através dos meios impressos, ou políticos. E, para isso, o primeiro passo, seria unir mais a cidade. Provavelmente, esse papel principal deveria ser do Poder Público. O Ciesp está tentando fazer a parte dele. É suficiente? Em parte, é melhor do que nada. Pode até resolver, mas isso é o ideal? Não! Ideal seria alguma coisa que pudesse ser inovadora, no sentido da cidade de Bauru ter um projeto que unisse as forças, os empresários...

JC Está na hora de uma sentada das lideranças empresariais com o Poder Público para discutir isso de forma séria?Coube Diria que sempre foi hora! Antes tarde do que nunca. Entendo que não é um trabalho político. É um trabalho empresarial. Vai sentar com o Poder Público, que é uma parte atuante nisso, mas não se pode fazer política em cima disso. Essa é que é a dificuldade que vejo em Bauru, separar a política de um projeto desse, transformando num projeto da cidade, sem ser político...

JC Bauru pode estagnar economicamente e perder a liderança regional?Coube Não penso em competição. Fico contente de Marília, Botucatu, Jaú e Lençóis Paulista irem bem, acho ótimo. Me surpreendo com essa competição, pois é a base daquele processo de guerra fiscal, que não leva a nada. Defendo a tese de que cada cidade deve fazer sua parte. Se Marília está realizando, temos que ver o que está fazendo bem feito e trazer as boas lições para aplicar aqui.

JC Está na hora das lideranças bauruense fazerem sua lição de casa...Coube Essa hora não deveria ter perdido nunca. Bauru foi uma das pioneiras nisso, nas décadas de 60 e 70. Foi uma cidade que ganhou uma projeção fantástica e desacelerou. Temos que reconhecer isso. Está na hora de voltar a acelerar.

JC Qual o caminho?Coube Temos que pensar em avançar. Fico perplexo quando os políticos ainda reclamam da Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso, para o empresário, é o bê-á-bá da sobrevivência. A classe política, em nível de Brasil, está muito distante de uma realidade do mundo empresarial, que é muito competitivo. Ainda não percebeu que vivemos outros tempos, outra realidade. Há um distanciamento de mentalidades entre políticos e empresários... A Bauru S/A tem que funcionar, é uma empresa que tem que dar certo.