Segundo o Sindicato dos Engenheiros, reservatórios são projetados para armazenar água e vencer período da estiagem
A estiagem passou a ser a grande aliada do Governo Federal para justificar o racionamento de energia elétrica que deverá ser decretado no próximo mês. Essa versão oficial, no entanto, está sendo contestada pelo vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), Murilo Celso Campos Pinheiro. Segundo ele, o governo está se utilizando da falta de chuva apenas como desculpa para sensibilizar a opinião pública a aceitar, sem contestação, o racionamento de energia já programado.
Pinheiro esteve em Bauru ontem para se reunir e discutir o assunto com a diretoria regional do Seesp. O engenheiro explicou que, na verdade, o País não tem produzido, nos últimos anos, energia suficiente para atender a demanda de seu crescimento. Com isso, as usinas hidrelétricas geradoras de energia são obrigadas a trabalhar na capacidade máxima, necessitando a utilização de mais água para fazer rodar suas turbinas.
A operação no limite - que tem por objetivo suprir a demanda crescente do mercado consumidor - tem reduzido o nível de água dos reservatórios das usinas. Em outras palavras, não é a falta de chuva que está fazendo descer o nível dos lagos, e sim a real necessidade de gerar mais energia para evitar um colapso no sistema. Como o nível dos lagos está baixo, obrigatoriamente o governo terá que decretar o racionamento.
Os reservatórios servem exatamente para que as usinas tenham captação de água durante o período de chuvas para que depois possam se manter na seca e produzir energia. A seca que está ocorrendo neste ano não tem nada de excepcional e não seria crítica a ponto de esgotar nossos reservatórios, casos as hidrelétricas estivessem sendo operadas adequadamente, explica.
O vice-presidente do Seesp afirma que todo esse processo de risco está diretamente vinculado à falta de investimentos no setor. Não acrescentando mais kilowatt à população, não há como registrar crescimento de demanda e não registrar o crescimento de investimentos.
Segundo ele, esse comportamento faz com que as usinas funcionem no seu limite crítico, obrigando o rebaixamento dos reservatórios para gerar mais energia, sem a preocupação de repor o nível. Hoje, se nós juntarmos todas as usinas num único reservatório, nós deveremos ter em torno de 90% a 100% de capacidade. Hoje, nós estamos com 34% da capacidade dos lagos.
O sindicalista discorda da maneira como o Governo do Estado vem conduzindo o processo de privatização do setor energético. Como que o governo pode pensar em privatizar sem antes pensar em colocar, no sistema elétrico, mais energia. Sem antes pensar de que forma vamos corrigir esse problema de energia. Será que a correção é simplesmente privatizar, questiona.
Pinheiro cita a Cesp/Paraná como exemplo, cujo leilão de privatização está previsto para maio próximo.
Segundo ele, o governo vai permitir que o novo controlador do sistema formalize contrato de concessão por 30 anos sem qualquer obrigação de efetuar novos investimentos e aumentar a oferta de energia elétrica, com exceção da conclusão da usina hidrelétrica de Porto Primavera.
Pinheiro lembra que a Cesp já foi a grande supridora de energia do Estado de São Paulo. Ao longo das últimas décadas foram colocadas em operação várias unidades geradoras em suas usinas hidrelétricas que se encontravam em implantação. Desde 1995, houve intensas atividades de conclusão das usinas de Rosana, Taquaruçu, Três Irmãos, Canoas e Porto Primavera.
Dentro do atual quadro de escassez e de risco concreto de racionamento, os contratos de concessão deveriam estabelecer metas obrigatórias de expansão de capacidade, acompanhando, na mesma proporção, o aumento de demanda e consumo efetivamente constatado ao longo dos anos do prazo de concessão.
Na opinião do vice-presidente do Seesp, dificilmente o País vai enfrentar um apagão geral nos mesmos moldes do que foi registrado há dois anos. A explicação dele é simples: para evitar um grande apagão, as distribuidoras de energia estão aplicando o chamado apagão controlado.
Os grandes centros urbanos seriam as principais vítimas. Durante duas ou mais horas do dia, determinadas regiões das metrópoles brasileiras ficariam sem energia para aliviar o sistema. Trata-se de uma tática conhecida pelo Governo Federal, que prefere fazer vistas grossas a ter que assumir o ônus de um desgaste com um apagão geral, de grandes proporções. O Ministério Público Federal já denunciou a situação e instaurou investigação para comprovar o apagão controlado.