09 de julho de 2026
Geral

Dallari: globalização ameaça a cultura

Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Para o economista Pedro Dallari, a globalização coloca em risco a preservação das identidades culturais locais

A globalização, entre seus aspectos positivos e negativos, consiste em um risco à preservação de identidades culturais locais. É em que acredita o economista Pedro Abreu Dallari. Ele ministra aulas na área de Direito Internacional na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e esteve em Bauru participando de uma conferência organizada por alunos da instituição, em que abordou o tema Globalização e sua repercussão no Brasil.

Em meio a aspectos positivos e negativos que destaca como conseqüências da globalização, o economista demonstra preocupação em relação à preservação das identidades culturais locais. A velocidade das mudanças - fruto da transferência de tecnologia, do advento das novas tecnologias que gerou essa comunicação toda - traz aspectos positivos. O problema é que nem tudo são flores. Um dos espinhos é uma certa pasteurização da cultura. A globalização corre o risco de exercer um efeito anestésico, castrador sobre as culturas. Há que se integrar sem se diluir, sem se dissolver, sem perder a identidade.

Dallari extrai alguns aspectos positivos do contexto geral da globalização. Os aspectos positivos são vários. Nunca houve, por exemplo, tão fortemente no mundo inteiro, a disseminação dos Direitos Humanos, da valorização da defesa das minorias, da valorização dos direitos da mulher. Isso é algo que vem, certamente, do contexto de internacionalização de direitos. Nesse sentido, a globalização é algo positivo.

No entanto, ressalta conseqüências ruins decorrentes do forte vínculo econômico entre os países. Por outro lado, há aspectos negativos. Nós estamos vivenciando, nesses dias, a crise da Argentina. O excessivo atrelamento do País a uma ordem internacional gerou uma situação difícil para a Argentina. Talvez, se o país tivesse mais protegido, menos vinculado à ordem econômica internacional, ele estaria imune à dimensão que esta crise assumiu.

Ele salienta a necessidade da atuação da sociedade de forma a preservar sua vivência cultural. Nós não temos que ter uma posição xenófoba, de rejeição aos aspectos positivos da internacionalização. Mas, ao mesmo tempo, nós não podemos diluir a nossa identidade, acabar com a identidade brasileira, acabar com o Estado, acabar com aquilo que nos gera um ambiente de cidadania, de democracia e de vivência cultural.

Dallari cita exemplo de locais em que houve conciliação de abertura para o mundo exterior e de preservação da identidade. As experiências mais bem-sucedidas do ponto de vista humanístico e social são aquelas que conseguiram conjugar, na medida certa, esses dois elementos. Ou seja, as vantagens da globalização, de uma relação maior de caráter internacional, como a proteção e a defesa da identidade específica.

E sugere uma solução para a adaptação do contexto global, no Brasil, no que concerne ao Direito. No Direito, há um fenômeno crescente de internacionalização das normas jurídicas. Cada vez mais nós vamos estar vinculados. Isso não é ruim desde que o processo de integração dessa norma ao Brasil respeite a identidade brasileira.

O projeto de governo de Fernando Henrique Cardoso, na visão de Dallari, estaria comprometendo a identidade brasileira pela excessiva preocupação com a esfera internacional. Eu acho que esse projeto liderado pelo presidente da República do País é meio deslumbrado demais com essa visão internacionalista. Ele tem uma visão de adesão e deslumbramento com a esfera internacional. Eu acho que carece um pouco desse aspecto de proteger a identidade nacional. É algo que a sociedade vai percebendo e vai exigindo uma nova posição do próprio governo.

Apesar de detectar uma posição do governo do País considerada contrária à ideal, na sua visão, Dallari demonstra otimismo em relação à resposta da sociedade brasileira. A sociedade brasileira, hoje, está mais atenta à necessidade de valorização da sua própria identidade. O Congresso Nacional faz, inclusive, uma comissão de inquérito sobre o futebol, exatamente com a consciência de que aquilo é um patrimônio nacional. Não se trata apenas de um negócio, de uma atividade. Ali há valores, há elementos de auto-estima da sociedade, de identidade nacional. Isso tem que ser preservado, protegido.