08 de julho de 2026
Geral

De olho no Oscar

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Oscar, como sempre, deve ser uma festa sem surpresas; curta-metragem brasileiro concorre com boas chances

A entrega do Oscar, o mais famoso prêmio da indústria cinematográfica mundial, esta noite em Los Angeles, deve ser, como em todos os anos, previsível. Gladiador, o épico de Ridley Scott, que lidera a lista de indicações, com a presença em 12 categorias, deve converter a maioria delas em estatuetas, inclusive a principal, de melhor filme do ano. Julia Roberts, Benício Del Toro e Kate Hudson também devem levar o Oscar para casa. Para os brasileiros, como tem acontecido nos últimos anos, existe uma razão especial para ficar acordado até tarde, a presença do filme Uma História de Futebol, que concorre na categoria de melhor curta-metragem com boas chances de vitória.

Vencedor do Globo de Ouro - o prêmio distribuído pela imprensa estrangeira nos Estados Unidos que é considerado uma prévia do Oscar - no mês passado, Gladiador, não é um filme excepcional. Se comparado aos clássicos épicos dos anos 50 e 60, nos quais foi inspirado, por exemplo, é possível perceber que é preciso muito mais do que ressuscitam o Coliseu para se fazer um bom filme. Apesar disso, deve ser o grande vencedor da noite no Oscar simplesmente porque não tem um concorrente à altura. O filme tem ao seu favor o fato de ter o astro do momento, Russel Crowe. Ser um épico à moda antiga (o que faz evocar um quê de grandeza) e, principalmente, ter feito muito dinheiro nas bilheterias pelo mundo todo.

No páreo contra Gladiador estão o fraco melodrama Chocolate, indicado por força do lobby da Miramax; o chinês O Tigre e o Dragão, que apesar de toda paparicação não deve ganhar porque é um filme estrangeiro; Erin Brockvich, um filme de tribunal comum digno de Supercine; e Traffic, único filme realmente interessante da disputa que não deve levar porque, além de tocar num ponto delicado que é o combate às drogas, soma apenas cinco indicações. Na categoria de melhor diretor o favoritismo não é tão grande. Se a justiça prevalecer, Steven Soderbergh que está indicado tanto por Erin Brockvich quanto por Traffic, deve ser o vencedor, coroando o que foi o seu melhor ano desde que venceu o Festival de Cannes com seu filme de estréia, Sexo, Mentiras e Videotape, em 1989. Mas, apesar das duas indicações, Soderbergh pode ter a noite estragada pelo peso da espada feroz do Gladiador, que pode premiar Ridley Scott (já indicado anteriormente - mas não premiado - por Thelma e Louise); ou ainda pela espada oriental de O Tigre o o Dragão, que num golpe de mestre pode dar a Ang Lee o Oscar, já que o diretor chinês já venceu o Globo de Ouro. Na disputa pelo prêmio de melhor direção ainda está o inglês Stephen Daldry, que concorre por Billy Elliot numa participação meramente figurativa apesar de seu filme ser belíssimo.

Atores e atrizes

Russel Crowe (Gladiador) e Tom Hanks (Náufrago) disputam o prêmio de melhor ator palmo a palmo. Crowe, que no ano passado concorreu por O Informante e perdeu para Kevin Spacey, pode levar por que é uma promessa da indústria para os próximos anos (é preciso lembrar sempre que o Oscar, na verdade, é negócio antes de tudo) e pela força das doze indicações do filme. Hanks tem a seu favor uma atuação magistral, o carisma de grande astro e o fato de já ter ganho o prêmio de melhor ator por duas vezes o que fará dele, no caso de uma vitória, o maior ganhador da categoria, com três estatuetas, coisa que nem Marlon Brando, Robert De Niro ou Jack Nicholson conseguiram. Concorrem com menores chances, Geoffrey Rush (que já venceu por Shine em 97) por Contos Proibidos do Marquês de Sade, e Ed Harris (já indicado duas vezes na categoria de coadjuvante sem vitória), que se dirigiu em Pollock, no qual dá um show de interpretação no papel do pintor Jackson Pollock. O espanhol Javier Bardem completa a lista por Antes da Noite Cair, mas não tem chances reais.

Entre as atrizes parece que finalmente chegou o dia de Julia Roberts unir o seu histórico de sucesso de bilheteria com o Oscar pela ótima atuação em Erin Brockvich, um filme que só se sustenta pela sua presença. Já indicada como coadjuvante por Flores de Aço, em 89 e na categoria principal em Uma Linda Mulher, em 90, Roberts, que ganhou o Globo de Ouro, não tem concorrentes à sua altura na disputa embora a categoria tenha quatro grandes atrizes concorrentes. Juliette Binoche (vencedora como coadjuvante em 96 por O Paciente Inglês), defende Chocolate; Ellen Burstyn (vencedora por Alice Não Mora Mais Aqui, de 77), concorre por Requiem for a Dream; Joan Allen (já indicada como coadjuvante por Nixon, em 95 e As Bruxas de Sálem, de 96), está na disputa por The Contender e Laura Linney, por You Can Count On Me.

Entre os coadjuvantes, os prêmios são quase certos para Kate Hudson por Quase Famosos e Benício Del Toro, por Traffic. Ambos venceram o Globo de Ouro e são considerados barbada pela crítica americana. Um detalhe interessante é que, como nem sempre acontece, se os dois realmente forem os premiados, a Academia vai estar fazendo uma tremenda justiça porque os dois dão um banho nos concorrentes de verdade.

Outra barbada é a vitória do chinês O Tigre e o Dragão como filme estrangeiro. Assim como aconteceu com A Vida é Bela, em 1998, o filme de Ang Lee é um grande sucesso nas bilheterias americanas e deve levar o prêmio mais por isso do que por qualquer outra coisa, já que, apesar de legal, não é nenhuma obra-prima.

Oscar verde-amarelo: pode ser hoje

Os brasileiros se acostumaram com a presença de um concorrente nacional ao maior prêmio da indústria americana depois das indicações de O Quatrilho, em 95; O Que é Isso Companheiro, em 96 e Central do Brasil e Fernanda Montenegro em 98. Este ano, concorremos com o curta Uma História de Futebol, de Paulo Machline e, acreditem, temos mais chances do que sempre tivemos. Uma razão é porque nessa categoria, que apesar de importante não tem tanto prestígio na cerimônia, a concorrência é menos acirrada e, portanto, o prêmio sofre menor influência do lobby da indústria (que tirou o Oscar de Central do Brasil, que era infinitamente melhor do que o vencedor do ano A Vida é Bela, patrocinado pela Miramax). Outra razão para acreditar que finalmente a estatueta dourada vem para o Brasil é o fato dos votantes da categoria serem uma comissão fechada e não todos os membros da Academia ( o que evita os votos perdidos de gente que nem viu os filmes). Além disso o filme trata indiretamente da história do brasileiro mais conhecido no mundo todo, Pelé e já venceu mais de trinta prêmios em todo mundo, inclusive no importante festival de Nova York. Por isso se você estiver cochilando e acordar de repente com alguém agradecendo o Oscar em português, não se espante e nem se belisque, o sonho pode realmente ter se tornado realidade.