08 de julho de 2026
Geral

Próxima estação: Pantanal

Por Celso Jesus da Silva | Especial (*)
| Tempo de leitura: 5 min

Devido à sua topografia peculiar, o Pantanal possui um desnível em torno de 500 metros apenas, o que representa uma mesa onde as águas são lentas e onde as precipitações das chuvas e suas interrupções são sentidas ao extremo.

Quando chove no Pantanal os rios ficam cada vez mais cheios, as matas são inundadas, as lagoas são formadas e forma-se um desenho que jamais será igual nos anos seguintes. Em matéria de peixes, eles acompanham todos estes fenômenos, procurando as áreas inundadas tanto para refugio como para procriação.

Devido a estes fatores ou seja, a migração das espécies para fora do canal principal dos rios, de agora em diante é o momento do retorno, ocasião em que o pescador deve estar atento e preparado para estes movimentos.

O início do outono para o Pantanal significa a volta da terra firme, pois as áreas antes inundadas começarão a secar, deixando transparecer o solo onde os animais terrestres encontrarão seu alimento em abundância.

Também para as aves, a nova estação significa o ponto de partida para a formação de novos casais, a construção dos ninhos e a procriação com a maioria dos filhotes eclodindo em meados de agosto/setembro.

Para os peixes, o outono é uma período dramático, pois ele significa a necessidade da volta das áreas alagadas para os rios correntes e quase sempre milhares de indivíduos perdem este ponto de partida, o que nos proporciona o lamentável espetáculo de ver os peixes encalhados nas lagoas. Para os pássaros, significa um verdadeiro banquete.

Apesar desta tragédia, a natureza sabiamente a aproveita, pois mesmo com a perda de milhares de peixes, os próprios servirão para alimentar e manter a vida de outras espécies. A partir de agora é o momento, portanto, de começar a preparar os equipamentos para a realização da pesca de uma espécie nobre, o dourado, um dos grandes beneficiários das águas que baixam.

Conhecedores dos segredos da natureza, os dourados, quando percebem a interrupção das chuvas, começam a voltar à calha dos rios principais, onde estarão até o início da próxima estação chuvosa (novembro), num compasso de espera.

Ali estarão no aguardo das espécies que adentraram matas e lagoas e que voltam também ao rio. Sabendo que isto significa fartura, os melhores pontos para encontrá-los são onde os pequenos rios deságuam no principal. Como verdadeiros caçadores, os dourados ali permanecerão atacando sem piedade os vários cardumes que migram em retorno, entre eles os curimbatás, preferencialmente, e os pequenos piauçus.

Encontrando estes pontos, ao pescador só resta colocar a tática em prática, devendo escolher corretamente as iscas para estas lutas.

Iscas

Apesar de toda a fartura que encontra, os dourados teimam em exigir do pescador a criatividade necessária na escolha das iscas, e apesar de tudo, as tuviras ainda são as preferidas pela espécie.

Ficará difícil levar do Estado de São Paulo até o Pantanal uma quantidade razoável de tuviras, principalmente vivas, por isso, quem for para o Pantanal deve preparar-se para adquiri-las por lá mesmo, sujeitando-se inclusive aos preços salgados que vai encontrar.

As iscas artificiais são ótima opção para esta pescaria, sendo necessário, porém, uma variedade de cinco modelos, pelo menos, pois o início de estação traz uma indefinição quanto ao gosto do peixe, o que pode significar que um único modelo não vai trazer os resultados esperados.

Quem não quiser gastar com iscas ou não se adapta às artificiais, pode preparar um excelente atrativo no próprio Pantanal devendo, porém, capturar um razoável número de curimbatás, primeiro.

Para preparar a isca com curimbatás, é necessário descamar o peixe, retirar o dorso, que é a única parte aproveitável, cortá-lo em pedaços parecidos com tiras, e deixar que fermente por uns dois dias, seja para que fique mais firme ou para que fique acentuado o seu cheiro.

Para os dourados, a tralha deve ser preparada corretamente, pois a entrada de exemplares de vários quilos é comum e neste momento é bom esquecer os equipamentos leves. As varas devem ser de ação média, as carretilhas ou molinetes precisam ser bem equilibradas com o conjunto, as linhas devem partir de 0,45 mm, o anzol deve ser de bom tamanho e sempre encastoado, já que o dourado corta a linha facilmente. Um bom encastoado deve ser feito com linha de aço, preferencialmente com 50 centímetros de comprimento e sempre muito bem fixado.

Os arremessos devem ser feitos no sentido do meio do rio para a entrada do corixo, em movimentos sucessivos que podem também abranger a beirada do barranco e as galhadas. Com as iscas vivas ou de filé de curimbatá, é interessante o uso de bóias, pois os dourados atacam sempre rente à superfície.

Quando utilizar as iscas artificiais, trabalhe-as corretamente para simular o movimento de um peixe ferido ou em fuga, dando preferência para os modelos com barbela média, nas cores cítricas ou branca e vermelha.

Durante a luta

Quem teve a isca atacada por um dourado sabe o que isto significa. Serão momentos de tensão, de tremedeiras, de calafrios e de enorme prazer ante a luta do peixe, que tudo fará para livrar-se do anzol, inclusive, dando os seus espetaculares saltos em um local diferente a cada momento. Uma vez vencido, o Rei do Rio preferencialmente deverá ser devolvido à água para que dê o mesmo prazer a outro pescador. Lembre-se que somente é permitido um exemplar para cada espécie, e predar os pequenos exemplares é crime ambiental, sujeitando o infrator às penas legais.

Aproveite o início de estação para visitar o Pantanal e colocar em prática a matéria de hoje. Com certeza, você voltará um pouco mais consciente de que o homem pode usufruir da natureza, mas nunca interferir no funcionamento dela.

Boa sorte e boa pescaria.

* Celso Jesus da Silva é membro da International Game Fish Association (IGFA) e colaborador do jornal Tribuna Impressa de Araraquara