07 de julho de 2026
Geral

Mecatrônica e trabalho escravo

(*) Odair Furtado
| Tempo de leitura: 3 min

Muita gente vem gastando tempo, intelecto e energia no debate de uma falsa questão: os males da globalização. Há quem a defenda ardorosamente, como forma de garantir o ingresso do País na modernidade. Outros condenam a globalização, como se representasse a derrota inevitável para o leviatã capitalista. Não se trata de uma coisa nem outra. O economista da FGV Paulo Nogueira Batista esclarece que a globalização não é fenômeno recente. Rigorosamente, se inicia com a expansão econômica imperialista do início do século XX à procura de novos mercados para incremento da sua produção. A diferença é apenas que, nas últimas décadas do século XX, esse processo está mundializado. Os conglomerados industriais diversificaram sua base territorial de produção para garantir menor custo de matéria prima, de força de trabalho, de distribuição etc..

Na verdade, uma das grande mudanças ocorridas no final do século passado é a reformulação das relações de trabalho produzida pelo que se convencionou chamar de 3ª Revolução Industrial; a inclusão do chip ao processo de produção; que trouxe conseqüências graves quando implantada de forma rápida, como ocorreu no Brasil. O sucateamento do parque industrial brasileiro exatamente no período de crise do capitalismo mundial exigiu uma intervenção traumática, que ocorreu com a abertura às importações, implementada pelo governo FHC. As novas relações de trabalho, com a passagem do taylorismo ao toyotismo, tornou indispensável não somente a requalificação do trabalhador brasileiro, mas também cobrou uma redefinição profunda do perfil de formação desse trabalhador, principalmente os mais especializados. O perfil mais comum de nossos trabalhadores ainda é o de um profissional que era formado no desempenho de sua profissão: empregava-se aos 14 anos de idade como aprendiz, cursava no Senai os vários cursos de qualificação em habilitações específicas e, dez anos depois, chegava ao ponto mais alto de sua carreira. Para isso, em geral, era preciso abandonar a escola regular antes mesmo de terminar o antigo curso primário, enquanto outros (poucos) o faziam antes de concluir o ensino fundamental. Com o fenômeno da reestruturação produtiva implantado de forma abrupta, as empresas de ponta, particularmente as montadoras e indústrias de autopeças, passaram a exigir um trabalho multiqualificado, com formação escolar e conhecimentos de informática.

Como conseqüência, os próprios empresários (o sistema S ou sindicatos empresariais) e, em alguns casos, os sindicatos de trabalhadores tomaram a iniciativa de formar adequadamente os novos profissionais, ressaltando a falta de uma política pública eficiente de formação e qualificação do trabalhador. Quando pensamos na cadeia produtiva moderna, constatamos que muitas vezes o mesmo processo produtivo que numa ponta cria a emprego de alta tecnologia, que gera riqueza e desenvolvimento, de forma invisível também criou, na outra ponta, o trabalho infantil na carvoaria, o trabalho semi-escravo na fazenda, a super exploração dos trabalhadores nas minas sílica (que aos 35 anos estão incapacitados para o trabalho) e outros males que ainda prevalecem nos grotões de nosso País.

A imposição da modernização industrial, comercial e de serviços ganha mais importância porque afeta diretamente o setor da população responsável pelo alto consumo. Os outros, mais de 30 milhões de brasileiros, estão aí, pelas ruas, invisíveis, não produzem, não consomem, não sabem o que é mecatrônica e pouco se importam com isso, pois foram há muito tempo expropriados de sua cidadania. O Brasil convive com a alta tecnologia e com a fabriqueta de fundo de quintal, convive com a globalização e com o comércio regulado pelo escambo, com o trabalhador superqualificado e com o analfabeto. Somente um diagnóstico preciso dessa circunstância nos levará à construção de uma política de desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, de bem-estar social.

(*) Odair Furtado, professor doutor em Psicologia Social, autor do livro Psicologias; Introdução à Psicologia Social (ed. Saraiva), é vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.