08 de julho de 2026
Geral

Comunidade fecha olhos para reciclagem

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

A coleta seletiva de lixo atinge 50% do município e a intenção é expandi-la para toda a cidade até 2003. Mesmo assim, a sociedade deixa muito a desejar em termos de participação

A problemática do lixo urbano ainda é tratada com muito simplismo pela população. Grande parte da sociedade não consegue enxergar além do portão de casa e acha que a questão termina automaticamente após a colocação dos resíduos na lixeira. É claro que a preocupação nos dias atuais é bem maior do que na época em que a idéia de reciclar se restringia aos movimentos eco-ambientais, mas a falta de consciência sobre o destino do lixo é esmagadora.

A literatura internacional indica que até 68% do lixo doméstico são passíveis de reciclagem. A concretização desse índice, no entanto, depende fundamentalmente de dois fatores: a separação do que pode do que não pode ser reaproveitado e a existência de locais executar o processo de reutilização. Em Bauru, a seleção dos produtos recicláveis atinge, oficialmente, menos de 3% de todo o lixo recolhido. O número deveria ser bem maior se considerado o fato de que a administração municipal oferece a coleta seletiva a 50% da população. Numa interpretação simples desses dados, fica claro que a comunidade é quem está deixando a desejar.

É justamente essa falta de participação popular que vem entravando a expansão do serviço de coleta seletiva no município. Poderíamos até ampliar o programa, mas a falta de consciência da comunidade nos demonstra que ainda não é hora para isso. Antes, temos que conseguir abrir os olhos da população para o problema, e isso é um trabalho demorado que envolve um desafio enorme: mudar os hábitos de pessoas adultas, considerou Luiz Pires, titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Mesmo assim, a intenção do secretário é chegar em 2003 com a coleta seletiva em 100% do município.

Em muitos casos, a falta de consciência vem aliada à preguiça de separar o lixo. É inegável que o trabalho exige um pouco de paciência e dedicação, mas os resultados certamente vão aparecer um dia, ainda que numa geração muito adiante desta. E as conseqüências não estão só no futuro distante, mas no cotidiano atual de toda a comunidade. A reciclagem é um nicho comercial em franca expansão e, sobretudo, uma pilastra social que vem sustentando milhares de pessoas.

Trinta famílias, por exemplo, sobrevivem às custas da Central de Produtos Recicláveis, instalada no Jardim Redentor desde que o lixo do município deixou de ser despejado em erosões. Outras centenas de pessoas trabalham diariamente na coleta informal e vendem os materiais a empresas intermediárias. Esse filão desordenado e anônimo, entretanto, já está gerando preocupação. Sem saber dos procedimentos adequados de seleção, os coletores informais só se interessam pelos materiais que têm valor comercial e desprezam, invariavelmente em terrenos baldios, o lixo orgânico que acaba atraindo insetos e roedores. Combater essas ações desordenadas é o mais novo desafio da Semma.

Na visão do ambientalista e vereador Rodrigo Agostinho, há caminhos para se incentivar a população a participar da coleta seletiva. Um deles é a instalação de uma usina de reciclagem e compostagem no município, obra, por sinal, que já vem sendo discutida entre a Semma e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Se conseguisse recursos para viabilizar a proposta, o município só teria a ganhar.

Além da esperada colaboração da comunidade, o município ganharia um fôlego para o atual aterro sanitário, que já dá sinais de esgotamento (leia mais na página 4). A usina conseguiria reaproveitar 80% do lixo. Os materiais recicláveis seriam reutilizados, assim como os compostos orgânicos, que servem de corretivo para o solo, particularmente no auxílio à absorção de fertilizantes. De rejeito mesmo, só sobrariam 20% - algo em torno de 16 toneladas - para ser despejado no aterro.

Reciclagem dentro das empresas

Contribuindo com a causa ambiental, várias empresas e entidades de Bauru estão contratando serviços de reciclagem e erradicando o problema do lixo interno. A medida é vantajosa porque não implica em custos para os solicitantes. Nós fornecemos a estrutura, nos responsabilizamos pela retirada e ainda pagamos pelo quilo de todo papel acumulado. As empresas só se comprometem em nos dar o lixo, explica Angelo Augusto Canedo Macedo, da Seletiva Coleta de Recicláveis Ltda., que atua no mercado desde 1984.

Macedo conta que a procura tem aumentado progressivamente, inclusive de carroceiros que fazem a coleta informal pela cidade. A Seletiva é especializada na coleta e fragmentação de papéis, mas também compra, em menor escala, plásticos e alumínios.

A empresa dá preferência de atendimento aos locais que consomem grande quantidade de papel. Os bancos são os maiores clientes, seguidos de escolas, universidades, editoras e escritórios de advocacia. O Jornal da Cidade, por exemplo, há anos deixou de despejar as tiras de papel inúteis, requisitando a Seletiva para intermediar a reciclagem. A empresa também trabalha com a realização de palestras de conscientização voltadas ao setor empresarial.

Bom exemplo

Ela confessa que dá trabalho, mas não se arrepende de contribuir com a questão ambiental e com a melhoria da qualidade de vida da cidade. A professora de piano Maria José Tavares Labão Zanardi faz parte da minoritária faixa da população que participa ativamente da coleta seletiva de lixo realizada pela Prefeitura.

Desde que o serviço passou a ser feito na rua onde mora, na Vila Nova Cidade Universitária, Maria José vem tendo o cuidado de separar o lixo orgânico do reciclável. Quase todos os dias, ela se dedica à lavagem e ao acondicionamento das garrafas plásticas, latas e papéis que não têm mais serventia. Deixo tudo separadinho e entrego para o caminhão da coleta, que passa aqui todas às quintas-feiras pela manhã, conta.

Maria José sabe que poucos seguem sua atitude. Eu tenho feito a minha parte, mas a maioria infelizmente não está nem aí para o problema. Eu costumo caminhar aqui pelo Vitória Régia e acho uma judiação o que fazem com o parque. É lixo jogado por todas as partes, mas a culpa não é da Prefeitura, que, na minha opinião, realiza uma coleta bastante satisfatória, elogiou.

O que você deve separar

Jornais, revistas, listas telefônicas, folhetos comerciais, folhas de caderno, papéis de embrulho, caixas de embalagens, caixas longa vida e outros produtos feitos de papel

Embalagens de produtos de limpeza, garrafas plásticas, tubos, canos, potes de creme, frascos de xampu, baldes, bacias, restos de brinquedos, sacos, sacolas e saquinhos de leite

garrafas, cacos de vidro, vidros de conserva e lâmpadas incandescentes

latinhas de alumínio, enlatados e quaisquer objetos de cobre, lata, chumbo, bronze, ferro e zinco

O que não pode ser reciclado

Cerâmicas, pratos, vidros tipo pirex e similares, trapos, tocos de cigarro, cinzas, isopor, acrílico, lâmpadas fluorescentes, papéis plastificados, metalizados ou parafinados, papel carbono, fotografias, fitas de máquinas, etiquetas adesivas, copos descartáveis de papel, espelhos, vidros planos e cristais

Cascas e bagaços de frutas, folhas secas, cascas de ovos, restos de alimentos, papéis molhados ou engordurados

Lixo de banheiro, papel higiênico, lenços de papel, fraldas descartáveis e absorventes higiênicos