09 de julho de 2026
Geral

V. Cruz ensaia 12ª Paixão de Cristo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Além do espetáculo em si e do congraçamento entre os moradores há que se destacar também a atração turística do evento

Vera Cruz - Cerca de 220 pessoas participam, este ano, da tradicional Encenação da Paixão de Cristo de Vera Cruz. Este é o 12º ano da apresentação na cidade, com um público estimado em, pelo menos, 12 mil pessoas. A peça é apresentada em três etapas: começa no Domingo de Ramos (08/04), tem o seu apogeu na Sexta-feira Santa (14/04) e encerra-se no Domingo de Páscoa (15/04).

No primeiro ano da Encenação, apenas 40 pessoas participaram da peça. Surpreendeu a comunidade e fomos ampliando, conhecendo o trabalho de outras cidades, aprendendo com o tempo, até chegar no que estamos hoje, contou o diretor da apresentação, Valdivino de Moura.

Para este ano, segundo ele, a novidade é a participação de quatro adolescentes, que narram a história funcionando como um fio condutor. Antigamente, a peça começava no julgamento de Cristo. Mas percebemos que muitas pessoas ficavam cheias de indagações. Então, os adolescentes vão narrar a história como moradores de Jerusalém, para situar o público no contexto, explicou.

Além de ser uma novo para o público, é uma novidade também na vida dos adolescentes. Danilo Kirnew Benavides, 14 anos, disse estar sentindo um frio na barriga, apesar de já ter participado da encenação outras duas vezes, representando o povo. Estou mais ansioso desta vez, mas, com a ajuda do diretor, vai dar certo. Até já liguei para todos os parentes virem assistir, contou.

A professora Gislene de Lazari Noronha, 24 anos, que coordena os adolescentes, disse à reportagem que o grande desafio em trabalhar com jovens é a concentração. Eles são disciplinados, são meninos que já faziam teatro, têm boa dicção, mas são agitados e precisavam se concentrar mais, afirmou.

Fraternidade

Outra peculiaridade em Vera Cruz é a inserção, durante a peça, do tema da Campanha da Fraternidade, o que é feito desde 1992, segundo a diretora auxiliar do quadro, a pedagoga Ildilena Tola. Você sai da história bíblica e vem para a atualidade, trazendo questões para a dimensão social, com o objetivo de despertar a reflexão das pessoas, comentou.

Ela contou que, apesar do forte impacto causado pela primeira experiência, a novidade foi bem aceita pela população. O quadro tem entre 15 e 20 minutos e é mostrado em sons e gestos, praticamente sem narração. O tema deste ano é Vida sim, drogas não, e a cena vai enfatizar o Dom da Vida.

Ensaio

De acordo com Moura, os ensaios oficiais da Encenação começaram em janeiro deste ano. As cenas são ensaiadas separadamente, porque não há espaço para abrigar, ao mesmo tempo, os 220 integrantes da peça. Eles se reúnem em grupos às segundas, quartas, quintas e sextas-feiras, sempre à noite, já que todos os participantes trabalham ou estudam.

Nos três meses de ensaio, os grupos se encontram apenas quatro vezes para integrar as cenas. Sempre nas madrugadas de domingo, que é para ficarmos livres e para garantir a surpresa da apresentação. E esta integração é a principal dificuldade da peça, porque temos que transmitir harmonia, o que depende de união, entusiasmo, dedicação e participação, ressalta o diretor.

Mas ele explica que a preparação da peça é constante. Procuro sempre sondar quem tem talento para ocupar os papéis principais. Eu sondo primeiro, que é para não correr o risco de chamar alguém, não dar certo e frustar a pessoa. Então, dou para ela um papel secundário e vou observando. O próprio Pascoal, que interpreta Jesus Cristo, eu sondei durante dois anos. Depois que eu o convidei para o papel, foi um ano inteiro preparando, trabalhando a dicção, lendo, discutindo obras, incorporando a personalidade e as expressões de Cristo, contou.

Carpinteiro na vida real, Pascoal Martins de Oliveira, 37 anos, que representa Jesus Cristo, participa da Encenação desde 1995: Comecei no quadro da Campanha da Fraternidade, depois o diretor me convidou para o teatro e foi me preparando. Eu precisava adquirir a postura de Jesus, a forma de falar e de olhar para as pessoas, a simplicidade e a humildade. Foi um ano de preparação, com ensaios individuais com Sr. Valdivino três vezes por semana.

Presentes

Ser convidado para o papel de Jesus Cristo foi um presente de Deus para minha vida, salientou Pascoal. Segundo ele, o estudo da personagem acrescentou inúmeros benefícios ao seu dia-a-dia. Adquiri mais paciência e melhorei em timidez, pois não me sentia uma pessoa livre e o teatro faz desinibir. Alguns anos atrás, certamente não estaria aqui dando uma entrevista, se bem que, no momento da encenação, é como se você fosse, realmente, outra pessoa, completou.

Um presente também na vida da operadora de caixa Karina Michele Vanzo, 22 anos, que interpreta Maria, mãe de Jesus: Tive que me preparar espiritualmente, profundamente, com responsabilidade, emoção, e isso foi bom para minha vida. Mudou meu modo de pensar e de agir com as pessoas. Porque Maria era uma pessoa muito simples, meiga, caridosa. Achei que poderia ser um pouco assim também e mudei meu modo de agir.

Interpreto Pedro, o apóstolo, há cinco anos e cada vez gosto mais. É um quadro polêmico, em que S. Pedro nega Cristo por três vezes, caindo em contradição ao perceber seu erro. Não pretendo parar. Enquanto o teatro estiver vivo, quero dar minha colaboração, declarou o funcionário público Claudomiro Alda, 49 anos.

E a professora Eloísa Helena Gimenez, 40 anos, que interpreta Maria Madalena, completou: É uma doação mesmo, em que quase sempre nos identificamos com o personagem.

Recursos

A Encenação da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, em Vera Cruz, é totalmente custeada e executada pela própria comunidade. De acordo com Valdivino Moura, o grupo de teatro realiza várias festas, quermesses e campanhas no decorrer do ano para arrecadar o dinheiro da montagem.

Também conseguimos doações no comércio, indústria, Prefeitura e temos as costureiras que cuidam das roupas, as senhoras que pesquisam e criam o figurino, pintores que ajudam a fazer o cenário, enfim, todo mundo dá a sua colaboração, disse. Questionado sobre o custo desta montagem, Moura não soube responder, alegando que é impossível calcular, considerando a participação de tanta gente.

Precaução

Por precaução, segundo Moura, geralmente há duas pessoas ensaiando os papéis principais. Em 1995, nosso Cristo ficou doente no dia da encenação. Imagine trabalharmos desde janeiro, prepararmos uma apresentação tão grande, um palco gigantesco, cenário, tudo, para sermos obrigados a cancelar a apresentação... todos ficariam frustrados, disse. Mesmo assim, para este ano, não há segundo ator nem para o papel de Maria Madalena, nem para o de Jesus Cristo.

Serviço

A 12.ª Encenação da Paixão de Cristo em Vera Cruz começa no próximo domingo (08/04), Dia de Ramos, com a Entrada de Jesus em Jerusalém, às 9 horas. Jesus e seu burrinho puxam uma procissão, que volta à Igreja para a Missa.

A segunda parte da peça, apogeu da montagem, é na Sexta-feira Santa (13/04), a partir das 20 horas, na praça da matriz, com apresentação do Julgamento, Paixão, Crucificação e Morte de Cristo em quatro palcos, que totalizam 160 metros de extensão.

A apresentação termina no domingo de Páscoa, às 6 horas, com a Ressurreição de Cristo, seguida de procissão e missa.