Quando visitei a China, no inverno de 1998/99, certa noite, sentindo-me insone, pulei da cama e, do alto do Hotel King George, passei a contemplar Pequim através da vidraça. Enquanto mais de um bilhão de chineses dormiam, no silêncio da noite eu tentava divisar ao longe a Praça da Paz Celestial, que eles chamam de Tiananmen, onde, num mausoléu, também dorme o sono eterno, em carne e osso, o Grande Timoneiro Mao. Mas Pequim era um freezer e a vidraça embaçada só permitia que eu visse a gigantesca e milenar metrópole como uma bela pintura do expressionismo abstrato de Claude Monet, com pontinhos coloridos dos luminosos e apenas traços brilhantes onde há edifícios modernos revestidos de acrílico e que mais parecem palácios de cristais. Fiquei imaginando naquele momento, e volto a fazer isto agora, que a China, para mim, sempre se apresentou dessa maneira, isto é, misteriosa, nebulosa. Embora gostaria de sê-lo, não sou um sinólogo, mas sempre tive uma inexplicável atração pelos temas chineses. Muitos anos antes de acompanhar a história desse país, profissionalmente, através da editoria de Internacional, ainda adolescente, já devorava os livros de Pearl S. Buck, como A Estirpe do Dragão, por exemplo.
Agora, quando China e Estados Unidos se atritam por causa da trombada de aviões, sobre o Mar Amarelo, faço breve reflexão sobre as temerárias relações entre as duas potências. Dos EUA, sabe-se muito. Já a China pode ser uma caixa de pandora ou, se quisermos compreender melhor, trata-se de um dragão adormecido. O país dos dias atuais tem uma certa ira reprimida, um não sei o quê por ter sido invadido várias vezes, humilhado antes de se tornar potência. Apesar de ser 26 vezes maior do que o Japão, foi duas vezes invadida pelo vizinho. No Vietnã, atuou com a mão do gato. Mas tenho a certeza de que hoje a China é outra.
Nas relações exteriores, vigora a tradicional paciência chinesa. A maneira como tolera a inquietante situação de Taiwan, um permanente desafio desde que Chiang Kai-shek instalou o governo na ilha, em 1949, ao fugir do vitorioso Mao Tsé-tung, é uma prova disso. E as provocações americanas, então, um escândalo! No conflito da Iugoslávia, um avião dos EUA bombardeou o bairro das embaixadas, em Belgrado. E entre tantas representações diplomáticas, advinhe sobre qual foi lançada acidentalmente uma bomba, fazendo vítimas fatais? Agora, quando a tensão aumenta, Taiwan quer e Washington promete enviar 4 contratorpedeiros, 24 helicópteros Apache, 12 aviões, submarinos P-3, submarinos diesel, mísseis Harpoon e torpedos MK48 Adcap.
Se a paciência chinesa vigora para o exterior, dentro do país há muita truculência. O estopim é curto. Pude sentir as grosserias dos militares no aeroporto de Pequim. Aquilo parece um quartel e diante de seus gritos e exigências, quase que desistimos de entrar na China. Felizmente, tudo foi superado e a estada compensou o sacrifício. No país também há pena de morte e mata-se vários diariamente. O tiro é na nuca, à queima-roupa para não se correr o risco de errar e a família do condenado é quem paga a bala. A manifestação dos estudantes na Praça da Paz terminou com entre 5 e 8 mil jovens metralhados, em 1989. O número certo, nem o correspondente internacional mais experiente conseguiu apurar. E os tibetanos? Coitados! Se o adágio diz que duro com duro não faz bom muro, os chineses empatam com os americanos nessa dureza. Têm mania de grandeza e, o pior, é que essas manias se traduzem em realidade. Além da prole (quase 1 bilhão e 300 milhões de habitantes) têm suas praças e prédios gigantescos. Um imperador sonhava ser mais poderoso do que já era. Mandou fazer milhares de soldados de terracota. E um diferente do outro! Os chineses demoraram quase 800 anos, mas fizeram a maior construção do mundo, a Grande Muralha, com mais de 3 mil quilômetros. A noite avança, a condensação gelada da vidraça já está escorrendo, o sono vem e eu não chego a uma conclusão sobre os mistérios da China. Só sei que há algo a se temer. George W. Bush deve saber o que faz. Antes de ser presidente, antes de ser vice de Ronald Reagan, George Bush, pai, foi embaixador dos EUA em Pequim. E sabe muito sobre os chineses. Deve ser um bom conselheiro. Menos mau...
(*) B. Requena é editor de Internacional do JC