08 de julho de 2026
Geral

Dengue hemorrágica é mortal

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 8 min

A doença, quando é contraída pela segunda vez, pode transformar-se em hemorrágica, estágio mais perigoso

Na forma clássica a dengue tem início súbito, com febre alta,dor muscular e dores nas articulações, dor retrorbital, cefaléia, anorexia, náuseas, vômitos, prostração, além de rush cutâneo, podendo assim ser confundida com sarampo ou rubéola.

A Febre Hemorrágica do Dengue (FHD/SCD) tem sintomas semelhantes aos da dengue clássica no início do quadro clínico, porém evolui com tendência a hemorragias, dores abdominais intensas, palidez cutânea, pele pegajosa e fria, agitação, sonolência, dificuldade respiratória, pulso rápido e fraco, podendo levar o paciente ao choque e à morte. Tem como base fisiopatológica uma resposta imune anômala envolvendo leucócitos, citocinas e imunocomplexos, causando aumento da permeabilidade por má função vascular endotelial, mas sem destruição do endotélio, com extravasamento de líquidos para o interstício, causando queda da tensão arterial e manifestações hemorrágicas, associadas à trombocitopenia. Conseqüente a estas manifestações, surgem hemoconcentração com redução da volemia, má perfusão tissular, hipóxia e acidose lática.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu um critério de classificação das formas de febre hemorrágica da dengue em quatro categorias, de acordo com o grau de gravidade:

a Grau 1 - febre acompanhada de sintomas inespecíficos, em que a única manifestação hemorrágica é a prova do laço positiva.

a Grau 2 - além das manifestações constantes do grau 1, somam-se hemorragias espontâneas leves (sangramento de pele, epistaxe, gengivorragia e outros).

a Grau 3 - colapso circulatório com pulso fraco e rápido, estreitamento da pressão arterial ou hipotensão, pele pegajosa e fria e inquietação.

a Grau 4 - choque profundo com ausência da pressão arterial e pressão de pulso imperceptível.

Devido ao processo ser dinâmico, o paciente poderá ser classificado em um estágio e evoluir, posteriormente, para outro.

Nos casos de dengue, independente da forma clínica, todos os pacientes que procuram o sistema de saúde deverão ter uma história clínica e epidemiológica e exame físico constando de pelo menos:

1. medida da tensão arterial em duas posições (deitado e em pé); 2. freqüência por minuto do pulso radial; 3. prova do laço; 4. descrição da coloração das mucosas, grau de hidratação e tempo de enchimento capilar.

Devem ser notificados os pacientes com história de febre recente com tendência hemorrágica que pode variar desde prova do laço positiva, presença de petéquias, equimoses, púrpura, sangramento gastrointestinal ou outros, acompanhado de aumento do hematócrito em 20% e plaquetopenia (plaquetas menor 100.000/mm3). A confirmação será feita através da clínica e exames laboratoriais específicos (sorologia e/ou isolamento de vírus)

Os pacientes que necessitam de maior atenção do sistema de saúde são os que têm dengue e apresentam história patológica pregressa de alergias (principalmente asma brônquica), anemia falciforme, diabetes mellitus, doenças autoimunes, doenças severas do aparelho cardiovascular e respiratório.

Os pacientes que apresentarem um ou mais sinais de alerta, (observe quadro nesta página) devem permanecer sob tratamento e observação rigorosa nas 24 horas seguintes, pois sofrem grande risco de desenvolver Síndrome de Choque da Dengue.

Surgimento

No Brasil há relatos de prováveis epidemias de dengue no início deste século. Em 1916, em São Paulo, e em 1923, em Niterói. Entretanto, a primeira epidemia documentada clínica e laboratorialmente ocorreu em Boa Vista, Roraima, em 1982.

Em 1986, a dengue reapareceu de forma epidêmica em três estados (Rio de Janeiro, Ceará e Alagoas), sendo que a maior epidemia ocorreu no Rio de Janeiro, atingindo mais de um milhão de pessoas. Neste ano e nos anos seguintes (até 1989) o sorotipo Den 1 foi o responsável por epidemias e/ou surtos da doença nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Alagoas, Bahia e Pernambuco.

A cada ano a doença vem se repetindo no Brasil, onde o maior número de casos se concentra no período de chuvas, que é a época em que as condições ambientais são propícias para o desenvolvimento e proliferação do mosquito vetor. A partir de 1994, as epidemias têm apresentado maior vulto, espalhando-se para todas as regiões geográficas.

Os primeiros casos de dengue hemorrágica apareceram no Rio de Janeiro em 1990, com a introdução de um novo sorotipo, o Den 2. Com a disseminação desse sorotipo para outras regiões do País, infectando pessoas que já haviam contraído a doença anteriormente, foram surgindo casos de dengue hemorrágica em outros estados (Ceará, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro). Assim, no período de 1990 a 1998 (dados provisórios), foram confirmados 718 casos que levaram 27 pessoas à morte.

No ano passado, foram registrados 230.910 casos da doença em todo o Brasil, sendo 51 casos de febre hemorrágica da dengue nos estados de Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo.

A transmissão da doença foi observada pela primeira vez no Estado de São Paulo em 1987, nos municípios de Guararapes e em Araçatuba.

No verão de 1990/91, foi registrada uma epidemia de grandes proporções, com início em Ribeirão Preto, que rapidamente se expandiu para municípios vizinhos e outras regiões. A partir de então, as epidemias de dengue vêm ocorrendo todos os anos no Estado.

No Estado de São Paulo, no período de 1998 a 2000 tivemos transmissão de dengue em 102, 101 e 64 municípios do Estado, o que correspondeu a uma incidência de 30,2 (10.630 casos), 42,3 (15.082 casos) e 9,4 por 100 mil habitantes (5.017 casos), respectivamente. As maiores incidências ocorreram nos meses de verão no mês de março, porém tem se observado transmissão ao longo do ano, mostrando que a doença está endêmica em vários municípios.

A partir de 1996, tem sido detectado a circulação do sorotipo 1 e 2 no Estado de São Paulo.

Conscientização

Atualmente há um consenso de que o êxito de qualquer programa de controle de Aedes depende da participação integrada da comunidade e com a cooperação dos cidadãos. Entretanto, para que este objetivo seja alcançado, deverão ser desenvolvidas estratégias de alcance nacional para:

- sensibilizar os formadores de opinião para a importância da ação de comunicação/educação no combate ao dengue;

- sensibilizar o público em geral sobre a necessidade de uma parceria governo/sociedade com vistas ao controle do dengue no País;

- enfatizar a responsabilidade social no resgate da cidadania, numa perspectiva de que cada cidadão é responsável por si e pela sua comunidade.

Aedes no Brasil

1967 - Aparecimento no Pará

1976 - Em Salvador

1977 - No Rio de Janeiro

1981/82 - 1ª epidemia documentada clínica e laboratorialmente em Boa Vista, Roraima, sorotipos I e IV do dengue

1986 - Epidemia em vários estados

1986/87 - No Rio de Janeiro mais de 1 milhão de pessoas com o sorotipo 1

A partir de 1986 - epidemias no Ceará, Alagoas, São Paulo, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Abril de 1990 - No Rio de Janeiro, 463 casos de dengue hemorrágico e 8 óbitos. Casos de dengue hemorrágico também em Tocantins, Alagoas, Bahia e Ceará.

1994 - Mais de 50.000 casos de dengue em 20 unidades federativas (2º dados da Fundação Nacional de Saúde - FNS)

Atualmente - Sorotipo 1 - em Mato Grosso, Tocantins, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás. Sorotipo 2 - Maranhão, Bahia, Ceará e Minas Gerais. Sorotipo 1 e 2 - Rio de Janeiro

Sinais de Alerta

-dor abdominal intensa e contínua; -vômitos persistentes; -hepatomegalia dolorosa; -derrames cavitários; -sangramentos importantes; -hipotensão arterial; -diminuição da pressão diferencial; -hipotensão postural; -agitação e letargia; -pulso rápido e fraco; -extremidades frias; -cianose; -diminuição brusca da temperatura corpórea associada à sudorese profusa, taquicardia e lipotímia e aumento do hematócrito (com variação de 20%).

Densidade larvária

Os métodos para detecção de determinada espécie e monitoramento das populações de culicídeos se referem as diferentes fases de ciclo de desenvolvimento: ovos, larvas, pupas e mosquitos adultos. A seleção de métodos apropriados depende dos objetivos da vigilância, dos níveis de infestação e da disponibilidade de recursos. Por questão de praticidade, entre outras razões operacionais, os métodos empregados com mais freqüência envolvem levantamentos larvais.

Geralmente, o imóvel é a unidade de pesquisa na qual se procura os recipientes que apresentem potencial ao desenvolvimento de mosquitos. Esses, são examinados buscando-se a presença de formas imaturas de culicídeos (larvas e pupas). Os indicadores, com base em formas imaturas, mais freqüentemente utilizados são:

1. índice predial: é a relação expressa em porcentagem, entre o número de imóveis positivos, isto é, onde foram encontrados larvas e/ou pupas da espécie em avaliação, e o número de imóveis pesquisados.

IP = imóveis positivos x 100 imóveis pesquisados 2. índice de recipiente: é a relação expressa em porcentagem, entre o número de recipientes com água e positivos, isto é, com a presença de larvas e/ou pupas do vetor e o número de recipientes com água pesquisados.

IR = recipientes positivos x 100 recipientes c/ água pesquisados

3. índice de Breteau: é a relação entre o número de recipientes positivos e o número de imóveis pesquisados, corrigido para 100 imóveis.

IB = recipientes positivos recipientes positivos imóveis