08 de julho de 2026
Geral

Em defesa da vida

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Mais de cinco mil pessoas passaram pelo Esquadrão da Vida desde sua fundação, em 1972. A grande maioria delas se livrou do vício das drogas.

Jornal da Cidade - Qual sua formação?Edmundo Muniz Chaves - Sou formado em Administração de Empresas com pós-graduação em Administração da Pequena e Média Empresa.

JC - Você veio para Bauru para estudar, como acabou no Esquadrão?Edmundo - Vim para fazer a faculdade de engenharia na antiga Fundação Educacional de Bauru, mas não conclui o curso, porque em 1971 eu e um grupo de amigos conhecemos um rapaz viciado. Começamos a evangelizá-lo e conseguimos fazer como que ele parasse de usar drogas. Aí esse rapaz começou a trazer outras pessoas para serem ajudadas. Em 72, vi que estávamos ajudando tanta gente, que estava se tornando impossível conciliar a faculdade com o trabalho com os jovens viciados. Tranquei a faculdade e começamos o Esquadrão da Vida. Nessa época começamos a atender numa casinha de madeira na rua Anhangüera, cedida pelo Dr. Paulo Vale. Um dia, surgiu um rapaz de São Paulo que precisava de tratamento e veio decidido a ficar. Logo vieram outros e, quando vimos, estávamos em dez na casinha, não havia mais condições. Daí o senhor Guilherme Ferraz nos emprestou uma pequena casa no Jardim Terra Branca, lá o nosso trabalho aumentou. Depois mudamos para uma chácara, onde ficamos até o Dr. Paulo Vale nos doar uma área no Jardim Europa, que nós vendemos para comprar a chácara na estrada de Piratininga. Mudamos de lá para onde estamos hoje, entre Bauru e Pederneiras.

JC - Por quanto tempo você foi presidente do Esquadrão?Edmundo - Fui presidente por 18 anos e hoje sou diretor executivo. Nesse período também fui professor de administração na ITE. Isso até 1998. Hoje eu me dedico só ao Esquadrão, era inviável continuar dando aula e me dedicando ao Esquadrão. Nosso trabalho aumentou muito lá. Na verdade eu fui estudar administração e depois dar aulas para ter um meio de subsistência até a hora que o Esquadrão chegou num tamanho tal que exigia a presença de um executivo.

JC - Como funciona o Esquadrão hoje?Edmundo - O Esquadrão é sustentado por doações e pessoas físicas e jurídicas. Além disso, produzimos mel, cuja venda nos ajuda nas despesas. Produzimos leite, hortaliças e legumes, o que nos proporciona economia nos gastos com alimentação. Estamos com 50 internos, embora tenhamos capacidade para 72 pessoas. O problema é que não temos dinheiro para atender esse número total.

JC - A maioria dos internos é de fora?Edmundo - Não, são de Bauru. Temos alguns internos de fora, mas a maioria é daqui. Na verdade o Esquadrão cresceu e está presente no Brasil todo, em mais de 100 lugares que se originaram com base no nosso trabalho ou no trabalho de outra entidade que se originou daqui. Algumas entidades fazem o mesmo trabalho que a gente, mas têm outros nomes.

JC - Qual a maior dificuldade do Esquadrão atualmente?Edmundo - Existem dificuldades e dificuldades. Existe aquela dificuldade inerente do nosso trabalho que vem se avolumando com o passar dos anos. Quando nós iniciamos o nosso trabalho, as pessoas começavam a usar drogas com 19 ou 20 anos e eram drogas como maconha ou psicotrópicos, as bolinhas. Além disso, os usuários eram pessoas de baixo poder aquisitivo, da periferia. Essas pessoas eram mais fáceis de serem trabalhadas porque iam no centro de recuperação com 23, 24 anos e já tinham sofrido muito na vida, tinham apanhado, sidos presos, ido parar em manicômios... Quando eles chegavam no Esquadrão eles encontravam aquele ambiente de fraternidade, de paz e aderiam mais facilmente ao programa. O tempo foi passando, a droga foi mudando, o nível das pessoas foi mudando e a faixa etária foi diminuindo. Hoje, os jovens começam a consumir drogas com 12, 13 anos e nos procuram numa fase onde ainda estão iludidos da vida, dizendo: não, eu só fumo maconha, não faz mal, é natural. Então, é uma grande dificuldade hoje, convencê-los de que a maconha é tão perniciosa quanto qualquer outra droga. Essa moçada sofre muita influência da mídia, tiveram uma forma de criação diferente e não tem certos parâmetros de conduta. Eles experimentam tudo e não têm muita responsabilidade sobre o que fazem, os valores e os padrões morais mudaram muito. Existe também a evolução das drogas, o crack, por exemplo, ele artificializa o prazer muito rápido, por alguns minutos, depois a pessoa volta ao normal e quer mais. Quando ele não está usando fica muito ansioso, por isso se tiver uma caixa de crack para fumar, ele vai fumar até acabar, até morrer. O jovem que chega assim no centro de recuperação é muito difícil de ser tratado, porque ele tem muita dificuldade em aderir o programa. Essa é nossa maior dificuldade, uma mistura de novas drogas, um conceito errado de vida e princípios e valores morais deturpados. Isso é tão grave que muitas vezes os pais compactuam com isso. Não adianta você tirar o jovem da droga e depois jogar ele num contexto onde ele vá voltar para isso. O Esquadrão teve que se adaptar a isso, hoje tratamos o rapaz com problema e a família também. Temos um psicólogo que trabalha com os dois em separado e depois juntos.

JC - E o dinheiro?Edmundo - Essa é uma outra dificuldade que todo mundo sabe. O brasileiro está cada vez mais pobre. E acontecendo isso, as empresas ficando cada vez mais apertadas, a primeira coisa que se corta são as contribuições sociais. Não só o Esquadrão, mas quase todas entidade de Bauru estão em dificuldade porque a sociedade e o governo têm contribuído menos. Mas o grande problema é a visão da sociedade com relação ao trabalho das entidades sociais. Em Bauru existem 20 mil pessoas assistidas por entidades sociais, não só pessoas internadas em abrigos, mas também famílias que estão em programas de renda mínima... Isso significa 6,3% da população da cidade. Você já imaginou se hoje todas as entidades sociais pararem de ajudar? Elas vão jogar 20 mil pessoas na cidade sem condição de sobreviver, isso é estimular o crime porque elas vão assaltar, roubar para poder comer. Quando uma pessoa contribui com uma entidade social ela está pagando um pouco pelo seu sossego. Hoje você ainda pode colocar uma cadeira na frente da sua casa de noite e ficar lá. Se as entidades fechassem isso seria impossível. Bauru seria uma cidade muito perigosa. Por isso a visão da sociedade sobre as entidades sociais precisa mudar. Elas não são coitadinhas que precisam de doação, são instrumentos de mudança social e segurança pública, assim como a polícia.

JC - Por que os jovens ainda procuram as drogas? Edmundo - Não dá para dizer que a culpa é da televisão ou dos pais que saem para trabalhar e deixam os filhos com as empregadas, essas coisas podem ser fatores que contribuem mas não é só isso. Acho que existe uma desesperança entre a juventude e isso é um fator importante. Quando eu estava na faculdade, eu tinha certeza que ia me formar e ter um emprego depois. Hoje o sujeito termina a faculdade e tem certeza que não vai ter emprego. Dai o irmão mais novo vê o exemplo mal sucedido do mais velho, já acha que não vale a pena estudar e assim vai. Então a desesperança também é um fator. Outra coisa que acontece também é a desinformação e a informação errada. Às vezes uma palestra mal dada, um filme que o jovem vê faz ele crer que a droga não é tão ruim como é na realidade. O liberalismo, o hedonismo da sociedade faz com que tudo seja permitido em nome do prazer, o que é um erro. Esse conceito de liberdade que se tem hoje não deixa o jovem perceber que essa liberdade pode se tornar uma escravidão. Essa luta pelo prazer... ninguém mostra as conseqüências que a luta irresponsável pelo prazer traz. A nossa cultura social leva os jovens ao consumo das drogas.

JC - O Esquadrão impõe alguma religião para os seus internos?Edmundo - Nós não temos nenhuma religião. Nós acreditamos que para uma pessoa tenha maior possibilidade de se recuperar e manter-se sóbrio nós unimos a técnica do tratamento psicológico e a espiritualidade. Nós acreditamos que o tratamento deve abordar no seu tríplice aspecto: físico, ele precisa se desintoxicar; alma, ele precisa ser tratado e usamos a psicoterapia breve para curar seus traumas, mágoas; e, finalmente, a espiritualidade, para que ele conheça a si próprio e também Deus. Assim ele pode encontrar a força para estar sóbrio e se manter sóbrio.

JC - Hoje em dia os jovens crescem muito mais distantes da religião do que no passado isso não é um fator negativo diante desse quadro de desesperança todos os outros fatores já citados?Edmundo - É verdade, mas além disso existe outro problema que me preocupa, que é a banalização da religião. Não que eu seja contra, mas muitas vezes o culto religioso acaba sendo mais como o show de um grande artista. Isso é uma coisa mais no nível da alma do que no nível do espírito. Em todo pára-choque de caminhão e vidro de carro existe algo sobre Deus, isso está ficando banalizado e não é bom. Há uma grande propagação da espiritualidade mas pouco compromisso com a espiritualidade.

JC - Quantos jovens já passaram pelo Esquadrão?Edmundo - Nós não temos os registros dos primeiros anos, mas calculamos que, no total, mais de 5 mil pessoas tenham passado por lá.

JC - Como você se sente em saber que desse número, a grande maioria se curou do vício, ou seja, que você foi um dos responsáveis por tirar essas pessoas do mundo negro das drogas? Edmundo - Eu tenho a graça de Deus de ter feito só o que eu gosto na vida. Se fosse começar novamente eu faria tudo de novo, se eu morrer agora, morro totalmente realizado. Trabalho muito além do Esquadrão, faço parte de várias outras entidades e grupos que atuam na mesma área do Esquadrão, graças a Deus faço o que gosto.