08 de julho de 2026
Geral

Bíblia politicamente correta

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Quando criança via minha avó nas manhãs de sábado santo acender uma vela enorme, toda decorada. Ao lado, o Evangelho. Portuguesa miúda dos Açores que sempre se vestiu de preto, fazia questão de preservar essa tradição do Círio Pascal. Era para iluminar a casa. Dizia simbolizar Jesus Ressuscitado. Os pontos vermelhos na cera representavam as cinco chagas do Senhor. As mulheres passavam grande parte da noite em vigília, rezando o terço. As crianças iam logo para a cama, aguardando o dia amanhecer para procurar os ovos escondidos no quintal. Os ovos eram mesmo de galinha, cozidos com cascas de cebola para ganhar uma coloração avermelhada. Nada de chocolate. Significavam nascimento, fertilidade, germinação. O início de tudo.

Hoje, esses ovos cósmicos cederam lugar a produtos cada vez mais sofisticados, destinados ao consumo de massa. O marketing mais recente é o do ovo recheado com latinhas de cerveja. O bacalhau, antes comida de pobre pelo seu baixo preço e cheiro indigno das narinas mais nobres, virou um prato dos mais requisitados, mesmo seco, salgado, esturricado e cheio de partes imprestáveis.

Agora querem também nos impingir um Cristo com ares de idiota, cabelos curtos e pretos, nariz de batata e beiçola. Longe daquela figura retilínea, de cabelos compridos, olhos azuis e doces; barbas longas e a face encovada. Cientistas acharam o crânio de um hebreu que viveu na época do Filho de Deus e reconstituíram suas feições por computador. Os ossos deram as dimensões do nariz, olhos, boca e a projeção da face. O resultado foi um Cristo Cibernético horroroso, inaceitável.

É bem verdade que, em nenhum trecho da Bíblia o rosto de Cristo é descrito. Pode-se pôr em dúvida a autenticidade da mortalha onde a face sagrada e sofrida ficou impressa, quando Jesus foi descido da cruz e envolto no pano de linho. Discussão desnecessária. Santo Agostinho dizia que cada cristão traz gravado na alma a imagem de Deus. É melhor deixar por conta do imaginário do povo. Isso é tão eficaz que a televisão quer se apropriar da idéia com suas novelas esotéricas.

Curioso o trabalho de um grupo de teólogos que se reuniu na Inglaterra para elaborar a versão da Bíblia politicamente correta. A oração que o Senhor nos deixou, depois da revisão, agora começa assim: Pai-Mãe nosso que estais no céu... Se Deus não tem sexo, não pode ser chamado nem de Pai e nem de Mãe, e sim de Pai-Mãe. É a eterna discussão sobre o sexo dos anjos saindo das nuvens para chegar ao céu.

Os teólogos da Nova Bíblia, pelo jeito, são defensores do sistema republicano. Contrários à monarquia cada vez mais avacalhada pelas estrepolias dos filhos e noras desajustadas da Rainha Elizabeth II. Os revisionistas aboliram a palavra reino. Deus não tem reino, mas simplesmente terra... privilégio ainda não alcançado por milhões de brasileiros deserdados e que lutam para poder cultivar o próprio sustento. Escuridão foi tirada do texto sagrado e substituída por noite, para não lembrar, em algumas línguas como a inglesa, a pessoa de pele negra. Mas não é só por combate ao sexismo que os teólogos querem tirar a exclusividade masculina na menção de Deus. Quem teve pais violentos, autoritários, acabam acreditando que Deus se parece com seus genitores. Nem os canhotos foram esquecidos na nova versão inclusiva da Bíblia. Ninguém mais fica à mão direita de Deus-Pai. Vai para perto ou permanece ao lado de Deus. Essa mania do politicamente correto tem seus exageros. Outro dia ouvi um entrevistado na televisão chamando anão, aquele cidadão que deixou de crescer, de pessoa verticalmente prejudicada. Nas grandes datas é impossível ao cronista deixar de contar o não contado. Nem que seja preciso, como dizia o finado Braz Cubas, escrever com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.

Feliz Páscoa!