10 de julho de 2026
Geral

Telecomunicações: muitas vagas, poucos profissionais

Redação
| Tempo de leitura: 8 min

Em agosto de 1995 foi extinto o monopólio estatal sobre as telecomunicações no Brasil, deixando o mercado aberto à participação de empresas privadas, notadamente estrangeiras. Somando esse fato aos acontecimentos da era da globalização, que teve como um dos resultados a demanda crescente por tecnologias de telecomunicações mais avançadas e eficientes, o setor teve um desenvolvimento gigantesco. Uma das conseqüências tem sido a dificuldade de encontrar profissionais qualificados para atuar na área.

Não há dúvidas de que este é o momento da tecnologia de informação ou das telecomunicações, que no ano passado ajudaram a elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Dirigentes de grandes empresas reclamam da falta de mão-de-obra especializada e chegam a estimar que, em breve, faltarão profissionais. Um estudo recente do Instituto Data Corporation mostra que até o ano 2004 haverá uma oferta de 403,8 mil vagas no Brasil para a área de redes. Porém, somente 155,7 mil profissionais estariam qualificados para o trabalho, o que significaria um excedente de aproximadamente 250 mil vagas.

Um dos fatos que poderiam levar a essa situação é o de que os cursos profissionalizantes, de formação ou de pós-graduação, não estariam sendo suficientes para suprir a demanda do mercado. Indicadores apontam que a demanda é de aproximadamente 17 mil a 18 mil profissionais por ano, no País. Mas, a capacidade de formação estaria em torno de cinco mil pessoas. Também estariam faltando profissionais da área técnica.

Para o professor doutor Naasson Pereira de Alcantara Júnior, do Departamento de Engenharia Elétrica do campus da Unesp/Bauru, o grande problema do Brasil, nessa área, é que o País ficou muito defasado, ao longo dos anos, em relação aos países desenvolvidos. Ou seja, os avanços tecnológicos demoraram muito mais para acontecer aqui. "Depois, quando houve a quebra do monopólio estatal das telecomunicações em 1995, apesar de ter havido um aumento muito grande na capacidade instalada cerca de quatro ou cinco anos antes da quebra, não foi o suficiente para tirar essa diferença. Isso aconteceu tanto em termos da demanda de mercado, que estava muito reprimida, quanto no que diz respeito à qualidade das condições tecnológicas. Então, a saída foi a privatização, que resultou na abertura aos capitais privados estrangeiros que puderam entrar nesse mercado e dinamizá-lo", analisa o professor.

A partir disso, essas empresas começaram a fazer investimentos muito grandes e a oferta de empregos "explodiu". Alcantara destaca que, no curso de graduação de engenharia elétrica da Unesp não existe ênfase específica para a área de telecomunicações. Porém, a maioria dos alunos que tem se formado está conseguindo emprego nesse setor. "Apesar de não terem uma formação específica nessa área, a maioria dos ex-alunos que mantêm contato conosco contam que estão trabalhando em empresas de telecomunicações", diz.

Questionado sobre possíveis problemas que isso poderia acarretar para as atividades desenvolvidas no setor, pelo fato de serem profissionais sem formação específica, o professor discorda. Para ele, o aluno sai da universidade preparado para enfrentar desafios. "Se ele não tiver uma formação específica em telecomunicações e uma empresa do ramo contratá-lo, ele irá enfrentar o desafio de, durante um tempo, se preparar melhor para isso através de cursos e especializações. Por outro lado, essas empresas são muito bem estruturadas e sabem acolher esse profissional, treiná-lo e capacitá-lo para os seus interesses. Portanto, não acredito que o fato de começar a atuar nessa área sem uma formação específica, e sim com uma formação mais eclética e compatível, possa gerar algum reflexo negativo", diz o professor.

Escassez de profissionais

Em relação a previsões futuras de mercado que estão sendo feitas quanto a sobrarem vagas nessa área por falta de mão-de-obra qualificada, Alcantara diz que se o setor continuar no mesmo nível de crescimento atual, dentro de alguns anos existiria, realmente, a possibilidade de escassez de profissionais qualificados. Porém, na opinião dele esse tipo de previsão é muito arriscada.

"Existe essa possibilidade, porém, acho muito perigoso fazermos esse tipo de projeção num mercado como o de telecomunicações. Outro ponto interessante a ser observado é que, atualmente, quando as empresas da área contratam um recém-formado para trabalhar, não procuram saber quem foi o melhor aluno da turma para dar o emprego. Contratam, simplesmente, pelo fato desse profissional ter uma formação que o possibilita atuar nessa área. Isso é um indício de que as empresas não estão tão seletivas assim", observa o professor.

Uma das grandes vantagens para quem está se preparando para atuar no setor é que, o fato do Brasil ter passado muitos anos sem receber investimentos maciços em telecomunicações - o que levou à defasagem frente a outros países -, faz com que não faltem possibilidades e oferta de trabalho. Além da telefonia fixa, há o sistema de telefonia móvel, a tecnologia de fibra ótica, as TVs a cabo e por satélite etc.

O professor lembra que o Brasil ainda tem uma carência muito grande no setor de telefonia fixa, por exemplo. Para se ter idéia de como esse crescimento está indo rápido, desde a queda do monopólio estatal, basta saber que, em 1995, existiam 800 mil usuários de telefonia celular. Atualmente, esse total chega a cerca de 16 milhões. E ao longo dos próximos anos, a tendência é de haver um crescimento ainda mais rápido. "Uma das metas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) é de que o Estado de São Paulo tenha capacidade de absorver 25 milhões de assinantes do sistema de telefonia celular", destaca o professor.

Ainda segundo ele, atualmente o País possui aproximadamente 27,8 milhões de unidades de aparelhos fixos de telefone. Há quatro anos, esse total era de 13,8 milhões de unidades. A meta brasileira, de acordo com Alcantara, é de que existam seis telefones fixos para cada grupo de dez habitantes.

Outro indicador de que esse mercado seria realmente promissor é o preço que as empresas estrangeiras pagaram para assumir o controle durante o processo de privatização. Segundo o professor, quando a Telesp Celular foi privatizada o custo de cada assinante para a empresa vencedora do leilão foi de US$ 7,5 mil. Geralmente, em negociações como essa o custo varia de US$ 2 mil a US$ 3 mil por assinante.

Quanto ao sistema de fibra ótica, segundo dados levantados pelo professor Alcantara, no Brasil, os atuais cerca de 3 milhões de quilômetros de fibra instalados devem passar para 9 milhões em três anos. Somente esse setor ainda demandará um grande número de mão-de-obra.

No que diz respeito à rede mundial de computadores - a Internet -, também ainda há muito a ser feito no País. "O Brasil ainda está muito longe de alcançar os padrões internacionais de acesso à Internet. Nos Estados Unidos, por exemplo, 52% da população tem computador em casa e aproximadamente 28% têm acesso à Internet. No Brasil esses números caem para 3% e 2%, respectivamente", diz.

No mercado de sistema fechado de TV também ainda há muito a ser explorado. Segundo Alcantara, nos EUA 70% da população possui TV a cabo. Na Argentina, esse número é de 52%. E no Brasil, cai para apenas 12%.

Cursos estão capacitando um número crescente de pessoas

Além dos cursos de graduação e pós-graduação oferecidos não estarem sendo suficientes para suprir a demanda de mercado - já que são formados bem menos profissionais do que o setor de telecomunicações precisa para contratar -, também estariam faltando profissionais da área técnica. No Senac de São Paulo, que está oferecendo 20 cursos de curta e longa duração na área de telecomunicações, existe fila de espera de seis meses para entrar nos cursos técnicos de redes de multisserviços.

Com o crescente interesse por parte da população em trabalhar nessa área, também cresce o número de empresas que oferecem cursos técnicos profissionalizantes. Em Bauru, uma franquia de Indaiatuba inaugurada no mês passado fará a formatura da primeira turma de alunos no próximo 20. Serão 125 formandos com certificado de técnicos em telefonia/rede externa. Para o próximo curso, que será iniciado no dia 23 deste mês, quase todas as vagas já foram preenchidas. A duração do curso é de 80 horas ou 20 dias. "Com o curso, o aluno está apto a trabalhar em qualquer empresa dessa área. Eles aprendem tudo, desde como nasce um telefone na central, até como fazê-lo chegar à casa do assinante através dos sistema de cabos", explica o instrutor do curso, Adão Cristiano Gonçalves, que é ex-funcionário da Telefonica. O custo dessa curso é de R$ 205,00.

Da primeira turma que vai se formar por essa empresa, estão participando pessoas com idade entre 20 e 35 anos. Segundo Gonçalves, muitos alunos trabalham em outras áreas e decidiram migrar para o setor de telecomunicações. As aulas são divididas entre teóricas e práticas. O instrutor da empresa confirma que ainda existe muita deficiência de mão-de-obra nesse setor e que, quem investir nisso, terá várias opções de emprego disponíveis no mercado.

Pós-graduação

O Departamento de Engenharia Elétrica da Unesp/Bauru iniciará, no dia 4 de maio, o curso de pós-graduação em Engenharia de Telecomunicações. Segundo o professor doutor Naasson Pereira de Alcantara Júnior, para fazer o curso não é necessário ser formado em engenharia elétrica. Basta ter um curso superior compatível, como ciência da computação ou em outra área da engenharia, pode se inscrever. A duração total é de 18 meses (360 horas) e, ao final, os formandos receberão um certificado de especialistas em engenharia de telecomunicações. As inscrições devem ser feitas até o próximo dia 20.

De acordo com o professor, o curso é bastante abrangente e vai capacitar os participantes a atuar nos mais diversos segmentos das telecomunicações, como fibra ótica, telefonia celular, comunicação via satélite etc. Segundo Alcântara, grande parte das pessoas que se inscreveram no curso já atuam nessa área e querem ter uma especialização para se diferenciar no mercado. Outros, estão buscando a pós-graduação nessa área pensando no desenvolvimento do setor.