08 de julho de 2026
Geral

Páscoa: tornar-se livre para amar

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

O que há em comum entre a festa da primavera comemorada pelos pastores nômades na Antigüidade, a festa anual dos judeus onde comemora-se a libertação do povo hebreu do Egito e a festa da ressurreição de Jesus Cristo comemorada pelos cristãos? Além das três festas receberem o nome de Páscoa (hebráico: pesach, grego: páscha, latim: pascha), elas possuem em comum a celebração da vida.

O fim do inverno, a libertação da escravidão e a perspectiva de vida eterna fazem-nos perceber que o viver não é estático, mas sim um movimento qualitativo de mudança, um verdadeiro processo de constante transformação. Este movimento intenso em busca de vida nova atinge seu ápice na celebração da vitória da vida sobre a morte através da ressurreição de Jesus Cristo. Porém, este significado profundo só pode ser realmente compreendido se vivermos as três dimensões da Páscoa cristã: a recordação do passado, a visualização de um futuro infinitamente feliz e a transformação do presente em algo especial e extraordinário.

Ao festejarmos a Páscoa voltamo-nos para o passado e procuramos relembrar o fato acontecido há mais de 2.000 anos, ou seja, a vida, o amor, o sofrimento e a ressurreição de Jesus Cristo. Por ser essencialmente amor, o Deus da Vida é comunicação e criatividade. Desta forma, este Ser Transcendente que gerou o cosmos não poderia deixar de tornar-se plenamente humano e entrar em contato íntimo com seus filhos anunciando a Boa Nova com palavras e com a própria vida, amando concretamente os seres humanos. O fenômeno Jesus Cristo não constitui-se na única manifestação de Deus entre os homens, pois, o Deus da Vida fez-se, e continua a fazer-se, presente em outras culturas e religiões. A festa da Páscoa é, porém, para nós cristãos, um momento significativo no qual relembramos que Deus ama a todos igualmente, independentemente de cultura, religião, mentalidade ou prática de vida.

Com a Páscoa vivemos um verdadeiro paradoxo: ao relembrarmos o passado (ressurreição de Cristo), visualizamos exatamente o nosso próprio futuro (1 Cor. 15, 12-22). Jesus Cristo é para todos aqueles que Nele acreditam um fantástico paradigma, ou seja, um modelo de vida que transforma radicalmente a nossa perspectiva de futuro. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, afirmou o próprio Cristo (Jo 14, 6). Assim, suas palavras e ações são impulsos de transformação que nos indicam que Deus não nos deu vida para morrermos, mas sim para vivermos eternamente. A partir de nosso surgimento no mundo somos chamados a um processo de constante expansão, de viva interação com o universo e contínua trans-realização do nosso ser a caminho da plenitude da vida. Esta vida em plenitude é finalmente alcançada através da passagem à qual damos o (infeliz) nome de morte.

Ao relembrarmos Jesus Cristo e festejarmos a nossa própria ressurreição, o momento presente ganha dimensões ilimitadas, pois nele estabelece-se a liberdade. É com a Páscoa que tomamos consciência que somos filhos muito amados do Pai e como tais não temos razão para sermos escravos do medo. A Páscoa é, na verdade, a festa da liberdade. É para a liberdade que Cristo nos libertou, afirma São Paulo em Gal. 5, 1. Fundamental, porém, é compreender que esta liberdade pascal não é somente uma liberdade de mas principalmente, para alguma coisa. Como filhos de Deus, somos livres para podermos amar. Aqui está exatamente o segredo da vida: Deus é amor; foi amando que Jesus Cristo viveu e ressuscitou, e nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos(1 Jo 3, 14). Quando perdemos o medo de amar, algo de mágico acontece em nossas vidas, ou seja, fazemos uma experiência concreta de mudança, de transformação da nossa realidade, enfim, vivemos a ressurreição. Com estas três dimensões da Páscoa podemos compreender que a ressurreição possui um caráter escatológico, ou seja, ela acontecerá em plenitude no futuro, mas pode desde já ser vivida no presente. À medida que procuro libertar-me de meus medos, jogar-me nas mãos do Deus da Vida e transformar minha existência em algo novo, antecipo, em parte, o futuro.

À esta vida de transcendência e antecipação do futuro damos o nome de santidade. Ser santo é não conformar-se com a mediocridade do estado atual das coisas e caminhar em busca do summum bonum (bem supremo). Como afirma Bernard Shaw, Santo é aquele que provoca mudanças. Porque a Lei da Mudança é a Lei de Deus!. Espero que todos nós possamos viver esta tridimensionalidade da Páscoa abrindo os nossos corações para o Espírito de Deus e tornando-nos livres para transformações no amor. Uma Feliz e Santa Páscoa.

Padre Beto / Especial para o JC CulturaFale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com