08 de julho de 2026
Geral

Mudanças reduziriam crimes em 50%

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

A Polícia Militar reconhece que o efetivo é insuficiente, mas garante que a criminalidade transcende às ações policiais. Furtos e assaltos são constantes

A criminalidade na região central e outros fatores que levam a ela poderiam ser reduzidos pela metade se uma política eficiente de revitalização e fiscalização fosse adotada pelo poder público. A afirmação vem do comandante da 1.ª Cia. da PM, capitão Benedito Roberto Meira, e do tenente Jovercy Bergamaschi, responsável pela Base Comunitária Centro. Se a questão for resolvida sob o aspecto social e de infra-estrutura, o resto a polícia se incumbe de atacar, garantiu Bergamaschi.

Atualmente, entretanto, a polícia demonstra uma certa impotência para enfrentar a marginalidade que se alastra da praça Rui Barbosa até a praça Dom Pedro II, passando pelas ruas transversais e paralelas ao Calçadão da Batista. O efetivo policial que atua no setor poderia ser maior, mas, segundo Meira, a problemática transcende ao poder de combate ostensivo da corporação. Num revezamento ininterrupto de três períodos, trabalham 48 homens, embora o ideal fosse colocar mais 10 homens e uma nova viatura.

Enquanto o poder público permitir que os ambulantes ocupem as áreas desordenadamente e sem nenhum controle, a criminalidade vai existir. Nós não temos como autuá-los e isso facilita que eles se envolvam com o tráfico de drogas e receptação de produtos de furto. Temos muitas denúncias contra os ambulantes, ressalvando, é claro, que a maioria deles trabalha séria e honestamente. Algumas barracas, por exemplo, só funcionam no período da noite, quando o movimento na região cai mais de 70%. Isso nos leva a crer que esse barraqueiro está predisposto a se envolver com a marginalidade, destacou Meira.

Cabe salientar que os ambulantes do Centro trabalham sem alvará e identificação, ou seja, ninguém sabe quem é o verdadeiro dono do negócio, que, por sinal, nunca está quando a polícia ou a fiscalização municipal realizam blitz. A ocupação desordenada dos camelôs vem ocorrendo há anos e a Prefeitura nunca agiu de forma eficaz para impedi-la. Algumas providências chegaram até ser tomadas, mas esbarraram num nocivo paternalismo, que acabou justificado às custas da crise do desemprego.

Na opinião do capitão, as mudanças precisam ocorrer o mais rápido possível para mudar o rumo da região, que há tempos já estaria trilhando o desastroso caminho do centro antigo de São Paulo. O Centro de Bauru precisa pensar em oferecer melhores condições à população e consumidores, incluindo aí facilidades de estacionamento, conforto e maior segurança.

Do jeito que está, a zona comercial central atrai um padrão de consumidor muito baixo, a exemplo das grandes cidades. A partir do momento em que não oferece beleza, limpeza, tranqüilidade e conforto, a região afasta os consumidores para outros pontos, como shopping e hipercentros. Muitas vezes, o comprador deixa a questão preço de lado em busca da comodidade. Os próprios lojistas tendem a mudar de endereço, considerou o capitão.

Além de regularizar a questão dos vendedores ambulantes, a polícia entende como imprescindível que o poder público invista na manutenção e segurança da zona central. O monitoramento eletrônico, por exemplo, seria um bom e eficaz mecanismo para coibir os delitos no setor, bem como a reestruturação dos imóveis que abrigam as lojas. Por serem antigos, a grande maioria desses prédios tem a parte dos fundos bastante vulnerável à invasão de ladrões; a ausência de lajes também favorece os furtos no período noturno e aos finais de semana.

Na lista dos fatores favoráveis à criminalidade estão, ainda, as instalações abandonadas do antigo parque ferroviário da Fepasa, situado na rua Júlio Prestes e extensão. Ermos e degradados, os imóveis tornaram-se um território sem lei que abriga fugitivos de prisões, ladrões, prostitutas, menores viciados e andarilhos.

A polícia afirma que visita o local constantemente, mas que quase nunca chega a deter alguém. Se não encontramos droga ou produtos suspeitos de furto, não podemos fazer nada, ainda que a pessoa tenha antecedentes criminais. Muitas vezes recolhemos menores e mendigos para encaminhar ao Conselho Tutelar e ao Albergue, mas esse tipo de ação não resolve o problema. Também realizamos buscas pelo local, mas para isso necessitamos de um grande número de policiais e estabelecer previamente as ações, contou Bergamaschi.

Os imóveis da extinta Fepasa estão hoje sob a responsabilidade da Rede Ferroviária Federal S/A, que não concorda em cedê-los sob nenhuma hipótese. A Prefeitura já tentou acertar um preço viável de compra, mas a Rede parece irredutível em manter o valor na casa dos R$ 3 milhões. Por conta dos prejuízos que os prédios abandonados vêm trazendo para a região central, o poder público está entrando com representação nas justiças Federal e Estadual para tentar resolver o impasse.

Ambiente ruim

O crime também tem sua matemática e só existe mediante a presença de três fatores: a vítima, o acusado e o ambiente. Excluído qualquer um desses fatores, é possível eliminá-lo em 100% dos casos. Na visão do capitão Meira, a criminalidade hoje verificada na região central da cidade está intrinsecamente vinculada ao ambiente ruim. O lugar desabitado atrai o movimento de prostitutas e traficantes. Uma vez eliminadas as condições que os atraem, acabamos com o crime. Lugares iluminados, limpos e freqüentados desestimulam a marginalidade, ensinou Meira.

Os números da criminalidade

Os furtos registrados na zona central de Bauru ocorrem, em 90% dos casos, de madrugada e aos finais de semana, quando o movimento de pessoas na área comercial é praticamente nulo. Das 548 ocorrências lavradas, 221 foram furtos - 71 deles em estabelecimentos comerciais. Em relação a janeiro, a quantidade de delitos no mês passado caiu consideravelmente.

Não que os ladrões tenham deixado de agir, mas porque a polícia reforçou a ronda noturna - o efetivo voltou a Bauru depois de ser disponibilizado para as operações de verão no Litoral. Em contrapartida, o número de assaltos a transeuntes cresceu no período. Esse aumento deve-se à mudança de foco dos ladrões. Inibidos de agir nas lojas em razão da ronda policial reforçada, eles se voltaram aos pedestres, justificou o tenente Jovercy Bergamaschi.

Em 90% dos casos, os delitos são praticados por menores viciados, que trocam o produto de furto por pedras de crack. As lojas de roupas continuam sendo as mais visadas pela facilidade que os ladrões têm de esconder o produto.

Os assaltos a transeuntes raramente são praticados mediante força física ou ameaça com arma de fogo. A grande maioria age como batedor de carteira ou se aproveita da distração das vítimas para levar bolsas ou os objetos de valor que nelas se encontram, perfilou o tenente.

A rotatividade de ladrões não é muito grande; quase sempre são os mesmos que reincidem na prática dos crimes.

Nos últimos seis meses, por exemplo, a polícia constatou que um único menor foi responsável por 15 delitos, entre eles furto, furto qualificado, tentativa de furto e apreensão de objetos de furto.