08 de julho de 2026
Geral

Centro vive degradação

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

A intensa agitação comercial que o Centro de Bauru vivencia durante o dia, de segunda-feira a sábado, camufla uma realidade sombria que a população em geral conhece apenas do ouvi dizer ou pelas notícias que invariavelmente são levadas a público sobre crimes praticados na região, que tem a avenida Rodrigues Alves como espinha dorsal.

A área que atrai diariamente centenas de pessoas de fora e que se consolidou como um dos principais pontos de referência da cidade revela, à noite, uma obscuridade crescente e preocupante. Depois que as lojas, grandes magazines e agências bancárias fecham suas portas, o local é tomado por prostitutas e travestis, ambulantes desconhecidos, andarilhos, viciados e traficantes de crack, num cenário que, guardadas as proporções, não fica muito atrás do centro velho da Capital paulista.

O clima underground pode ser sentido num simples passeio pela região após as 22 horas, horário a partir do qual as ocorrências tornam-se mais freqüentes. Vez ou outra, se cruza com casais de namorados ou pequenos grupos de amigos nos bancos do Calçadão da Batista, atualmente o ponto mais seguro do Centro. A boa iluminação da via comercial quebra um pouco a obscuridade das ruas transversais e paralelas, mas a sensação de percorrê-la à sombra da lua não é das mais tranqüilas. O ponto turístico de compras definitivamente se transforma à noite.

É nesse período que a Polícia Militar registra o maior número de ocorrências de furtos e assaltos a transeuntes. Só este ano, foram 548 registros, dos quais 26 roubos a pedestres, sem computar os delitos que não chegaram ao conhecimento da polícia. Muitos dos assaltos, aliás, são praticados contra pessoas que procuram programas sexuais. Quando há desavença no acerto de preço, o cliente acaba forçado a entregar tudo o que tem.

As praças da região são um problema à parte. De ponto de lazer - nos anos 70, a atração era o lago com jacarés; no início da década de 90, o projeto de remodelação, que, em meio a críticas, mudou a cara do espaço -, a praça Rui Barbosa chega a entristecer pela má-conservação. O coreto virou abrigo de mendigos e pessoas que se embriagam nos carrinhos de lanches - proibidos de comercializar bebidas alcoólicas. Latas e papéis são jogados no chão sem constrangimento.

Um vigia que trabalha há dois anos e meio no local conta que as brigas são constantes por causa da intolerância decorrente da bebedeira. É briga quase todo o dia. Depois que esses vendedores vieram para cá, a coisa piorou muito. Família passeando aqui não tem. O único movimento bom é de domingo, mas todo mundo vai embora depois da missa. Dá dó de ver um lugar tão bonito abandonado, lamentou.

Quadras adiante, na praça Dom Pedro II, onde fica a Câmara Municipal, a situação é pior ainda. Vários ambulantes são suspeitos de comercializarem crack, droga comum no local e adjacências. A polícia admite o ponto de tráfico, mas diz que a presença desordenada de ambulantes no local dificultaria ações de combate. O roubo a transeuntes é outro crime comum, favorecido principalmente pelo escuro que toma conta da praça. Mulheres que se prostituem no local são usadas pelos ladrões como chamarizes de potenciais vítimas.

Quem é obrigado a passar pela praça Dom Pedro II à noite não esconde o medo. No ponto de ônibus instalado em frente à Câmara Municipal, os usuários agarram-se às bolsas e objetos pessoais e torcem para que o circular chegue logo. Eu só tomo o ônibus aqui porque realmente preciso. O movimento que a gente vê é muito feio e não dá para não ter medo, confessou uma estudante à espera do coletivo. Aqui a coisa é feia. Nem mesmo com a delegacia do lado, me sinto segura, disse outra usuária que estava no ponto.

Em meio a esse panorama de caos, uma luz no fim do túnel parece estar despontando. O poder público municipal, a partir de uma lei recém-aprovada, promete reorganizar a ocupação dos ambulantes na região central, impondo um rigor até então nunca visto. Concomitantemente, a tão esperada revitalização da área parece que sairá do papel. Ambas as ações, segundo o comando da 1.ª Cia. da PM, poderiam reduzir, tão logo implementadas, 50% da criminalidade na região.

As mudanças, é preciso dizer, não trarão resultados imediatos, conforme já antecipou a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). O final de 2001 seria o primeiro indicativo para os efeitos começarem a aparecer, o que, diante de tantos anos de acomodação, já é positivo. Paciência à parte, o que importa é a perspectiva de um novo cenário para o Centro, que hoje, infelizmente, tende à dominação marginal e à total degradação. Trata-se, efetivamente, de mais um problema a ser refletido e combatido pela sociedade bauruense.